Hanseníase e Janeiro Roxo: a importância da informação

Pesquisas buscam maneiras de diagnosticar de forma mais rápida a doença que ainda é vista com preconceito

Falta de informação e preconceito são fatores que impactam a busca por tratamento da doença (SBD/Reprodução)

Considerada uma das enfermidades mais antigas da humanidade, a hanseníase é, hoje, uma das doenças mais comuns no Brasil. Dados do Ministério da Saúde revelaram que entre 2016 e 2018, houve um crescimento de 14% na taxa de incidência da doença. Atualmente, o Brasil é, no mundo, o segundo país com o maior número de casos, ficando atrás somente da Índia.

Antigamente conhecida como lepra, a hanseníase é uma doença infecto-contagiosa provocada por uma bactéria que compromete os nervos da superfície do corpo e a pele. Os sintomas mais comuns são lesões cutâneas com diminuição de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil.

“Normalmente, o paciente perde a sensibilidade na pele, mas há também formigamento e coceira. Pode ser que apareça manchas esbranquiçadas ou escuras. O surgimento de caroços, inchaços e sangramento nasal sem motivo aparente também podem ser indicativos da doença”, explica Marcelo Grossi, do Departamento de Clínica Médica, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Pesquisas com foco na doença

Devido a alta incidência, a doença representa um grave problema de saúde pública. Entretanto, ela tem cura, e o diagnóstico precoce com tratamento de início imediato é essencial para conter o avanço da doença.

Segundo Marcelo Grossi, o diagnóstico da hanseníase é dado pelo médico a partir da observação dos sintomas. “A doença é identificada por meio da avaliação clínica do paciente. Em alguns casos, é necessária a realização de testes de laboratório. Quanto mais tarde acontece o diagnóstico, mais chances da doença deixar uma sequela irreversível no paciente”, explica.

Diante desses cenário, pesquisadores do Brasil e do mundo buscam desenvolver métodos mais assertivos e mais rápidos de diagnóstico para a doença. “Seria ótimo ter um teste rápido para auxílio do diagnóstico. E estamos caminhando para isso. No Brasil, há muita pesquisa de ponta sendo realizada com foco nesta doença. Esses estudos vão desde tentar entender melhor a bactéria que causa a doença até a busca pela diminuição dos efeitos da doença”, comenta Marcelo Grossi.

Hanseníase ao longo do tempo

Embora seja uma doença comum − principalmente no Brasil−, ainda existe um estigma e preconceito em relação à hanseníase. Há algumas décadas, pacientes acometidos pela enfermidade eram, muitas vezes, retirados de contato da sociedade e submetidos a um isolamento compulsório.

Marcelo Grossi explica que um dos motivos que levou a consolidação deste estigma foi a ineficácia do tratamento e desconhecimento da causa da doença. “Até o século XIX, se sabia muito pouco sobre a hanseníase. A doença, então, evoluía e deixavam sequelas nos pacientes. Eram deformidades que assustavam as outras pessoas. Criou-se, também, a ideia de era uma doença altamente contagiosa”, comenta.

Segundo o professor, a transmissão da doença é acontece por meio do contato. Porém é necessária uma grande quantidade de bactérias no corpo do paciente para que haja transmissão.

“No momento em que o paciente começa a se tratar, ele já deixa de transmitir a doença, pois o número de bactérias cai consideravelmente”, comenta Grossi. Hoje, o tratamento para hanseníase no Brasil é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.

Campanha de conscientização

Com o intuito de combater o preconceito e informar para a população sobre a doença, foi criada a campanha Janeiro Roxo. Durante todo o mês, instituições públicas e privadas promovem ações para disseminar informações sobre a doença.

A hanseníase é considerada uma doença negligenciada por acometer principalmente populações em situações de vulnerabilidades socioeconômicas. No Brasil, as regiões onde há maior número de casos da doença são os Estados de Mato Grosso, Maranhão, Tocantins e Rondônia.

Para saber mais sobre doenças negligenciadas, leia a reportagem especial da edição 78 da revista Minas Faz Ciência.

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