Pesquisador da UFV discute comunicação da ciência e crise

Que relações possíveis existem entre os conceitos de crise, comunicação e divulgação científica?

Na última quinta-feira, 27 de junho, o professor Rennan Mafra, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), palestrou no Fala Ciência sobre a crise atual enfrentada pelas ciências.

A hipótese apresentada por ele é de que a crise da Ciência está alinhada a um grande movimento de crise das instituições Modernas.

Para Rennan, a Ciência está sendo “sequelada” pelo capital: “Isto pode ser percebido pela crescente desqualificação de organizações científicas públicas, democráticas e autônomas”, pontuou.

Ainda de acordo com o professor, esta ilegitimação é reforçada por uma concepção ingênua de divulgação científica.

“Para muitos cientistas a divulgação ainda é vista como utilitária e instrumental. Há uma crença de que a ela pode “salvar” a ciência e diminuir os efeitos da crise: ela supostamente resolveria as controvérsias e seria uma mola propulsora da própria ciência. Isto não é verdade”.

A ciências nas organizações

Para Mafra, a ciência se inscreve na rotina de organizações que, por sua vez, são lugares de disputa, de conflito político.

A comunicação da ciência está, assim, sempre atravessada por tensões. Como área meio, ela corre um risco de ser entendida como mera técnica.

“Isso gera uma consequência perversa, uma concepção da divulgação científica como uma tradução neutra de conhecimentos”

Rennan Mafra também aborda, a partir de autores como Benjamin e Lechner, o processo de crise da democracia.

“Na América Latina, o que une a sociedade é a ideologia do progresso. Mas a ciência, com seu caráter público, crítico e democrático, é vista como ameaça ao desenvolvimento. Há uma quebra de expectativas em relação ao que se espera e o que se pode alcançar”.

Segundo ele, também vivemos uma crise do tempo. A partir da obra de François Hartog, o professor e pesquisador explicou que, no tempo Moderno, o presente é atrofiado, o futuro é amplo e o passado é morto.

“Vivemos um momento de amplo presente e de emergência de climas de estagnação. A sensação é de que as coisas não estão andando, mas que o tempo passa rápido demais”.

A pesquisadora Polyana Inácio (UFMG), que falou sobre cultura maker, e o professor e pesquisador Rennan Mafra (UFV), no Fala Ciência

Consequências para a divulgação científica

Mas o que tudo isso tem a ver com as ciências e as organizações científicas?

Para Rennan, elas estão no centro da disputa por regimes de historicidade: “No Moderno, a ciência é produtora de verdades, inquestionável. No Contemporâneo, as instituições são questionadas: ciência pra quê e pra quem?”

Durante a palestra, ele lembrou que todo processo comunicacional, que está na própria construção do saber científico, também é um processo de disputa de sentidos.

“A ciência é o lugar que pode perturbar, que vai atualizar, questionar, reinventar! O conflito é a base da comunicação nas organizações científicas”

A pergunta que fica, então, é: a divulgação científica pode salvar as ciências e reduzir os efeitos da crise? Nem sempre!

Para Mafra, ela pode servir como instrumento de manutenção de uma visão Moderna da ciência, que precisa ser superada. “É preciso ir além dessa concepção ingênua da divulgação“, concluiu.

Sobre o Fala Ciência

O Fala Ciência é um curso de capacitação em divulgação científica promovido pela Rede Mineira de Comunicação Científica (RMCC).

A 7ª edição foi realizada na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) no último dia 27 de junho e contou também com uma palestra sobre cultura maker e tecnologias, além de workshops sobre podcast, empreendedorismo, storytelling, foto e vídeo.

Para ler:

Ficou interessado nas discussões propostas pelo professor e pesquisador Rennan Mafra?

Confira referências de livros e artigos sobre os temas debatidos:

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Verônica Soares

Jornalista, Mestre em História, Política e Bens Culturais, com Doutorado em Comunicação Social sobre textualidades midiáticas da divulgação científica em ambientes digitais.

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