A extensão universitária – que visa estreitar os laços e as colaborações entre as comunidades e as Instituições – pode ser uma excelente ferramenta de divulgação científica. Na Universidade Federal de Alfenas (Unifal), o Programa CasaCiência, financiado pelo MEC/SeSU para 2015-2016, existe há poucos meses, mas já colhe frutos do trabalho de popularização da ciência.

Iniciado em janeiro de 2015, com 12 bolsistas de extensão (8 licenciandos em Química e 4 licenciandos em Matemática), já atingiu um público de mais de 850 pessoas, em atividades que misturam teatro, discussões sobre ciência e experimentos da química e da matemática.

O Blog Minas Faz Ciência conversou com a coordenadora do Programa, Márcia Regina Cordeiro, que é professora da Unifal e desenvolve pesquisas na área de síntese e estudos das propriedades eletrônicas de compostos de coordenação. Em paralelo ao trabalho de pesquisadora, Márcia tem se dedicado à área de Educação Química, em que investiga novos processos de aprendizagem em Química e a produção de materiais didáticos para o ensino da disciplina.

A mistura do teatro com a ciência

No programa de extensão, a equipe CasaCiência se reúne semanalmente e aproveita as experiências anteriores dos bolsistas na concepção das ações. “Em abril, recebi o convite para atuar no “Uma noite no Museu”, evento promovido no último dia de cada mês no Museu de Patrimônio da Unifal. Apesar do pouco tempo disponível, aceitamos o desafio, e procuramos atividades que já estavam razoavelmente estruturadas. Os bolsistas Cássia e Christian já haviam apresentado uma peça sobre a origem do sistema de contagem e aceitaram o desafio de viver “Bento e Adelaide” – o casal das cavernas. Henrique, Luciana, Eraldo e Lara já haviam encenado o “FireWorld” na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em 2014 e, com isso, achamos que pudesse haver um bom link entre o teatro e a experimentação em Química“, conta a professora.

Dessas experiências conjuntas, surgiu uma estória que conta a origem do sistema de contagem, e o quanto o fogo contribuiu para o desenvolvimento da civilização. “Isso tudo com encenações, experimentos e um narrador que direciona os alunos a participarem conosco, experimentando, ensaiando, elaborando hipóteses”, explica Márcia. Todos os participantes do projeto se envolvem em diferentes etapas, desde o cenário, o teste dos experimentos, som e filmagem…

Cássia Souza, estudante do 9º período de Matemática, acredita que misturar teatro e ciência foi a maneira de transportar o público para a história científica de forma envolvente, com um toque de humor. “O público foi bem receptivo e interativo, o que possibilitou desenvolver o teatro com mais naturalidade, lembrando que somos atores amadores”, comenta. Ela também pondera que o teatro possibilitou uma reflexão sobre seu papel como futura professora: “Estaremos em constante aprendizado sobre a construção do conhecimento, pois cada aluno e cada sala é um público diferente. O desafio é encontrar o melhor caminho e utilizar as ferramentas necessárias para que essa construção ocorra”.

“Posso me considerar privilegiada pois nossos bolsistas são extremamente comprometidos com seu trabalho, estudando os conceitos e contribuições da temática e, ao mesmo tempo, têm a criatividade típica dos jovens. Isso faz com que a atividade associe a experimentação e a discussão da contribuição da evolução da Ciência, de forma divertida chamando a atenção das crianças”, conta Márcia Cordeiro.

O discurso de Márcia já contagiou os bolsistas do projeto, futuros professores e, quem sabe, também pesquisadores. Para Lara Leite, do 9º período de Química, o formato de apresentação teatral foi um atrativo para o público: “Eles demonstraram que se interessaram pelo tema abordado, ressaltaram o quão importante foi a apresentação para o desenvolvimento das crianças, pelo seu caráter lúdico e divertido de divulgar a Ciência. A atividade também foi classificada pelos participantes como uma ação que contribuiu para a democratização do ensino e, de alguma forma, para a formação dos visitantes”.

A fim de garantir o sucesso de cada apresentação, na semana anterior à ação uma equipe vai em todas as escolas de Alfenas (particular ou pública, e de qualquer nível de ensino) divulgando as ações e convidando o público – embora a ação seja realizada em uma escola escolhida pelo grupo, todos os estudantes do município são convidados a participar. Além disso, o grupo usa a página no Facebook como ferramenta de disseminação das informações.

Em agosto, com o objetivo de descentralizar as ações, o grupo realizou trabalho na escola Adolpho Engel, localizada no Barranco Alto, distrito de Alfenas. “Esse distrito tem um acesso peculiar, pois são cerca de 10km de estrada não pavimentada até chegar na balsa, que atravessa o Lago de Furnas e, depois disso, são mais cerca de 30km em estrada não pavimentada também. Mas a receptividade da escola é fantástica e vale a pena qualquer sacrifício”, comenta a professora.

“O aprendizado é mútuo, pois sair de nossa zona de conforto onde o que você precisa está à mão, para planejar, separar, pensar nas necessidades, no seu público, na mediação que você fará com eles, traz um ganho enorme aos nossos licenciandos”, comenta Márcia Cordeiro, sobre os desafios das ações de extensão na zona rural.

Para Paulo Junio, estudante do 8º período de Matemática, o fato de o projeto despertar o interesse por ciência nos alunos da zona rural de Alfenas proporciona oportunidades únicas para que descubram aplicações de conhecimentos criados pela humanidade que  podem ser utilizados no desenvolvimento da sociedade, “além de tornar perceptível atividades sociais e científicas em uma comunidade rural, informações que algumas vezes são vistas como exclusivas da área urbana”, comenta o estudante. Ele observa também que a atuação na zona rural permite a aproximação com um ambiente docente que não costuma ser abrangido pelos estágios obrigatórios dos cursos.

Desmistificando a ciência

O projeto procura tratar a ciência – especialmente a Química e a Matemática – desmistificando-a do estigma de ‘difícil’, ‘complexa’, ‘coisa de louco’. “Ao mesmo tempo, não a tratamos apenas como algo positivo, neutro. Queremos que nosso público desenvolva um pensamento crítico sobre a ciência, sabendo se posicionar frente aos seus avanços e limites, prós e contras”, pondera a professora.

Ela avalia positivamente as ações do grupo nesse primeiro ano e acredita que o projeto está ganhando cada vez mais espaço na comunidade. “Desenvolveu-se o hábito de ir ao museu no final de semana para assistir as atividades. O público espera a próxima temática a ser tratada, qual o conceito. Isso em uma cidade de 70 mil habitantes sem muitas opções culturais é um avanço. Além disso, a comunidade participa, discute, nos ensina, aprende. Como podemos observar nas imagens e vídeos, vemos pais ensinando os filhos durante as exposições, estimulando-os a “testar”, experimentar, questionar”, celebra Márcia.

Em defesa da extensão universitária

“Extensão você não faz PARA a sociedade e sim, faz COM a sociedade” – Márcia Cordeiro.

Márcia Cordeiro explica que um ponto bem estabelecido nas diretrizes nacionais da Extensão Universitária é a relação transformadora que deve existir entre universidade e sociedade, a partir de uma via de mão dupla. “Não se trata de um “depósito” na sociedade do conhecimento acumulado na Universidade. É uma troca de saberes, acadêmico e popular, que tem como consequência a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional; a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade”, explica.

Como pesquisadora, ela busca conciliar os saberes populares, acumulados pela sociedade, para estabelecer um contexto e deixar claro que nem sempre o conhecimento é produzido apenas no meio acadêmico: “Exemplos desta natureza são as “adaptações” tecnológicas que a sociedade cria para resolver seus problemas e que funcionam. E, ao considerá-los, podemos direcionar nossos esforços para resolução de problemas locais, regionais, adaptando nossas ações ao nosso contexto, nosso meio e suas peculiaridades”.

É preciso olhar nosso meio, assim como olhamos nossos papers. Analisar o espaço à nossa volta, independente da área de atuação de cada um, buscando formas de transformar a realidade de nosso ensino, saúde, saneamento, meio ambiente, geração de renda, etc. Precisamos nos aproximar da sociedade, nossa grande financiadora, ouvindo-a, respeitando-a, trazendo-a para dentro de nossas Instituições e dando condições para que estes participem do cotidiano acadêmico. Considerar em nossas pesquisas científicas, os saberes acumulados, as vivências e o contexto no qual estamos inseridos. Quando isso ocorre, podemos dizer que a pesquisa desempenha um papel de compromisso com a transformação social, contribuindo para uma sociedade mais igualitária e justa. – Márcia Cordeiro.

A equipe do Casa Ciência. Reprodução / Facebook

A equipe do CasaCiência. Reprodução / Facebook