Dengue: epidemias ocorrem em padrão temporal a cada três anos

Se queremos evitar uma nova epidemia de dengue em 2022, o trabalho ativo de prevenção deve começar agora.

Isso porque, de acordo com pesquisa de doutorado realizada pela médica colombiana Farley Liliana Romero Vega, as epidemias de dengue ocorrem em um padrão temporal de três em três anos.

Ela foi orientada pela professora Mariângela Carneiro, com coorientação de Juliana Maria Trindade Bezerra e Frederico Figueiredo Amâncio.

O estudo de Liliana, iniciado em 2016, descobriu que, em Minas Gerais, 88,6% dos casos graves de dengue ocorreram no meio urbano e o maior número de casos foi registrado entre as mulheres.

Este perfil epidemiológico foi traçado durante seu período de estudos no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde de Infectologia Tropical da Faculdade de Medicina da UFMG.


Estamos em um momento importante para reforçar a prevenção e evitar novo ciclo de epidemia em 2022

Liliana se prepara para voltar à Colômbia, seu país de origem, mas quer dar continuidade à pesquisa, que coletou dados sobre aquele país e sobre o Estado de Minas Gerais.

Segundo ela, o comparativo foi importante porque as duas regiões têm em comum o período da epidemia da doença, que ocorre a cada três anos, com picos nos três primeiros meses.

Além disso, em ambos os locais, os casos mais graves ocorrem, sobretudo, no meio urbano.

Há semelhanças porque as características demográficas da população são similares. Mas também há características geográficas, como altitude similar. Cidades com maior carga da doença em Minas, como Governador Valadares ou regiões do Norte do Estado têm padrões equivalentes aos colombianos, o que nos dá indícios e informações que permitem uma intervenção preventiva.

Segundo Liliana Vega, os surtos estão associados ao fato de o vírus se manter na natureza mesmo nos intervalos entre as epidemias, com possibilidade de circulação conjunta dos quatro sorotipos da doença.

Outros fatores presentes nos dois territórios são a existência contínua do vetor transmissor, que se adapta rapidamente às áreas urbanas, as coinfecções de difícil diagnóstico e a baixa imunidade da população.

Coleta de dados oficiais e comparativos

Para desenvolver a pesquisa, a médica usou dados colhidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), de 2010 a 2016.

Depois, comparou com a incidência na Colômbia e identificou padrões da doença nos territórios. Lá, a probabilidade de morte pela doença foi 1,2 vezes maior, e os homens é que integram o grupo com maior índice de mortalidade.

De acordo com a pesquisadora, a comparação possibilita desenvolver estratégias mais efetivas para controlar a dengue e a chikungunya e gerar projeções com base no comportamento das enfermidades.

Além da Colômbia e do Brasil, países da região do Caribe podem vir a se beneficiar dos resultados deste estudo para o desenvolvimento de políticas públicas de prevenção à dengue, dentre eles, República Dominicana, Venezuela e as Guianas.

A pesquisadora da Faculdade de Medicina, Farley Liliana Romero Vega, em foto de Carol Morena.

Novas possibilidades de pesquisa: chikungunya

A chikungunya é uma infecção que registra picos similares aos da dengue, em razão de o vetor ser o mesmo – o mosquito do gênero Aedes.

Liliana analisou casos de chikungunya em Minas Gerais a partir de dados do município de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o primeiro a apresentar casos autóctones notificados, ou seja, contraídos na localidade em que a pessoa vive.

Ao comparar Santa Luzia com países que apresentaram surtos da doença, como a Colômbia, República Dominicana e ilhas do Caribe, a expansão da chikungunya na cidade foi limitada.

Isso está associado à interação com outros vírus, como os da dengue e da zika, que são transmitidos pelo mesmo vetor, num lugar que historicamente é endêmico para dengue, afirma Liliana.

Ela alerta que a característica temporal dos surtos deve ser considerada em estudos futuros sobre a chikungunya, pois o entendimento do comportamento da doença no ciclo de três anos pode ajudar a desenvolver políticas públicas e ferramentas de intervenção para ações de prevenção.

A dispersão temporal e espacial da chikungunya é um tema ainda em aberto e pouco estudado, os dados estão bem limitados. Quero dar continuidade à pesquisa para acrescentar dados relacionados às características específicas da doença.

Ela adianta, por exemplo, que a distribuição da chikungunya na Colômbia indica que cidades localizadas ao longo do Rio Magdalena, que atravessa todo o país, têm maior carga da doença.

“Em Minas Gerais, com certeza há alguma conexão padrão entre a característica territorial e a propagação da doença, mas ainda não conhecemos esses dados. Precisamos entendê-los para saber onde as pessoas têm mais suscetibilidade a serem infectadas pelo vírus”.

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Verônica Soares

Jornalista, Mestre em História, Política e Bens Culturais, com Doutorado em Comunicação Social sobre textualidades midiáticas da divulgação científica em ambientes digitais.

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