Florestas secundárias e resgate da biodiversidade

A área florestal mundial cobre hoje 30,6% do planeta, segundo relatório de 2015 da Organização das Nações Unidas (ONU) para Alimentação e Agricultura. Grande parte dessas florestas não são originais: mais de 75% das matas nativas já desapareceram. Em áreas desmatadas e abandonadas, a floresta se regenera naturalmente, formando as chamadas florestas secundárias.

“Normalmente as florestas secundárias são formadas por atividades antrópicas como supressão das florestas primárias para expansão agrícola, como ocorreu no passado na Mata Atlântica e se repete na Floresta Amazônica. Mas também pode resultar de desastres naturais como passagem de furacões”, explica Sebastião Venâncio Martins, coordenador do Laboratório de Restauração Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

O pesquisador integra a 2ndFOR, uma rede de pesquisa colaborativa internacional que se concentra em entender a ecologia, a dinâmica e a biodiversidade de florestas secundárias tropicais. Participam dos estudos 85 pesquisadores na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. A rede inventariou as árvores em florestas tropicais localizadas em 10 países da América Latina. Em cima disso, foi publicado, na revista Science Advances, artigo sobre o papel das florestas secundárias na conservação da diversidade de árvores tropicais.

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Preservação e recuperação de espécies de árvores

As florestas tropicais abrigam mais de 53 mil espécies de árvores: 96% da diversidade de árvores do mundo. Mas essas florestas estão ameaçadas por altas taxas de desmatamento. Além de ser a segunda principal causa das mudanças climáticas, o desmatamento tem outras consequências sociais e ambientais. Florestas e árvores reforçam meios de subsistência, fornecendo ar limpo e água, além de conservarem a biodiversidade. São fonte de alimento, remédios e combustível.

As florestas secundárias podem ajudar a reverter a perda de espécies? O artigo mostra que são necessários, em média, cerca de 20 anos para que florestas degradadas voltem a ter 80% da riqueza de espécies da floresta antiga. Mas apenas cerca de 30% da floresta vai voltar a ser o que era antes. Leia aqui o artigo publicado na Science Advances.

“As florestas secundárias conseguem recuperar boa parte do número de espécies, o que é muito positivo. Porém, as espécies originais das florestas primárias demoram muito mais tempo para chegarem nessas florestas secundárias. Dependendo da paisagem, podem demorar séculos para isso, ou nunca conseguirem”, afirma Sebastião Venâncio Martins.

Medidas para conservação da biodiversidade em florestas secundárias

Em regiões onde predominam agricultura ou pecuária intensiva, muitas espécies típicas dessas florestas já foram localmente extintas. Não há possibilidade de que essas espécies participem das novas florestas que venham a se regenerar. Assim, a conservação dos últimos remanescentes de florestas primárias é importante para o retorno das espécies nas florestas secundárias.

“Além disso, recomenda-se a implantação de ações de enriquecimento das florestas secundárias com espécies das florestas primárias. Isso visa a acelerar o processo e conservar essas espécies”, diz Martins. O enriquecimento pode ser realizado por meio de: semeadura direta, plantio de mudas em núcleos, transposição de solo superficial e serapilheira e implantação de corredores ecológicos para conectar florestas secundárias às primárias.

Pesquisa na UFV

Na UFV, o Laboratório de Restauração Florestal vem conduzindo há cerca de 20 anos projetos sobre restauração passiva, por meio da regeneração natural e restauração ativa, com plantio de mudas e técnicas de nucleação. “Nossos resultados têm mostrado que, em áreas onde a paisagem ainda possui remanescentes florestais em bom estado de conservação e o solo não foi degradado, o cercamento da área pode ser suficiente para que ocorra a regeneração natural e a formação de uma floresta secundária em tempo relativamente curto”, comenta Martins.

A contribuição dos pesquisadores para o artigo da Sciene Advances veio da tese de doutorado de Pedro Manuel Villa, orientado por Martins e com co-orientação do professor Silvio Nolasco. Na tese, entre outros aspectos, foi analisada a regeneração da floresta amazônica em áreas de agricultura indígena itinerante.

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