Você sabe o que é o ciclo de carbono e a relação dele com o efeito estufa? Conhece a contribuição do Brasil no sistema de conservação do clima mundial? Mais de 100 pesquisadores estão envolvidos pesquisas no grupo Rede Amazônia Sustentável, que tem como objetivo pensar as questões climáticas, além da preservação de um dos maiores patrimônios naturais do nosso país. Parte desses cientistas descobriu recentemente, ao contrário do que se pensava, que apenas a conservação de estoque de carbono não é garantia de manutenção da biodiversidade. O estudo inédito foi publicado na revista Nature Climate Change.

Mas afinal, que história é essa de estocar carbono?

De acordo com o professor Júlio Louzada, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da Universidade Federal de Lavras (UFLA), um dos autores do estudo, o objetivo da pesquisa foi redirecionar políticas públicas desenvolvidas durante anos no sentido de conversar a floresta para que tenhamos grande estoque de carbono, minimizando, assim, os efeitos das mudanças climáticas. No entanto, os resultados mostraram que a história não é bem assim…

Ciclo do carbono

Quando acontece uma queimada ou um carro está em funcionamento, há emissão de CO2, o gás carbônico, que é um dos poluentes responsáveis pelo efeito estufa e aquecimento do planeta.

Em escala global, a emissão do gás é um problema muito sério por causa da grande frota de veículos e inúmeros incêndios, como se viu recentemente na Portugal (Europa), Califórnia (EUA) e na própria Amazônia. Há também fontes naturais de CO2 como os vulcões.

Foto: Dan/ Flickr

“Há emissões que fazem parte ciclo natural do carbono, mas desde a Revolução Industrial o homem acelerou a emissão, causando os problemas de mudanças climáticas. Por isso, foram feitas convenções na ONU para tentar minimizar os efeitos”, explica o pesquisador.

Algumas formas de reduzir difusão de carbono são: tornar os carros mais eficientes – garantindo menos queima de combustível, criar sistemas de filtragem para fábricas, monitorar e diminuir as queimadas. O professor Louzada cita que o Brasil, por exemplo, tem o Programa Prevfogo, destinado a prevenção e combate aos incêndios florestais em território nacional, incluindo atividades relacionadas com campanhas educativas, treinamento e capacitação de produtores rurais e brigadistas, monitoramento e pesquisa.

Estoque de carbono

Além dessas opções preventivas, existe a possibilidade de investir em estoques de carbono. Quando o CO2 entre na atmosfera, é absorvido de volta pelas plantas durante a fotossíntese. Os vegetais usam o gás em sua estrutura, transformado-o em celulose.

Segundo o professor Louzada, as árvores acumulam grande quantidade de carbono em troncos, galhos, folhas que são basicamente compostas por carbono e água. Imagine, então, a quantidade de carbono estocada em uma floresta tropical! “A Amazônia ou uma plantação de eucalipto têm toneladas de carbono estocadas por hectares. São estoques plantados ou naturais”, explica.

Por iniciativa da ONU, nos últimos anos, foram desenvolvidos programas que resultaram na criação dos créditos de carbono, inclusive na venda deles. “Se um país tem uma grande floresta e possui a estimativa de quantidade de carbono nessa área, em tese, pode negociar este crédito de carbono como se fosse uma moeda”, afirma o pesquisador.

Uma indústria nos EUA que está emitindo muito carbono, pode obter estoque num país tropical como forma de “compensar a sociedade”. Este mercado internacional de carbono movimenta milhões de dólares por ano. A empresa brasileia que negocia crédito de carbono na Amazônia é a Biofílica.

Foto: Gleilson Miranda/Secom Agência de Notícias do Acre/ Flickr

Relação biodiversidade e carbono

Durante muitos anos, se pensou que conservar grandes áreas de floresta significaria ter grandes estoques de carbono, portanto, um bom fator minimizador de aquecimento do planeta. De acordo com o professor, a ideia era de conservação da biodiversidade numa relação direta com a conservação de estoque de carbono. O que o estudo publicado recentemente mostra é que essa relação só ocorre até determinado ponto.

“Nas florestas mais conservadas e sem distúrbio essa relação é bem menor que nas florestas secundárias, pois há outros fatores que interferem na biodiversidade, como as interações ecológicas e heterogeneidade microclimática”, afirma.

A lógica de muita biodiversidade é igual a muito carbono só acontece em locais com distúrbios graves, espaços em que ocorreram queimadas ou desmatamento. Em florestas intactas, como a Amazônia, a relação biodiversidade e carbono é bem fraca. Portanto, conforme o professor Louzada, não é somente fazer um plano de conservação da Amazônia mantendo locais com maior estoque de carbono que estará, consequentemente, conservando a biodiversidade.

“A biodiversidade precisa de políticas integradas e paralelas, nem sempre relacionadas a locais como maior estoque de carbono. Não há, atualmente, política de proteção ambiental que una a lógica de estoque de carbono com biodiversidade. Á ideia é que as coisas sejam planejadas de forma mais inteligente”, detalha o pesquisador.

Pesquisa

O estudo, que resultou na publicação do artigo, é parte da produção acadêmica da Rede Amazônia Sustentável. Foram analisadas 39 microbacias do Pará, desde áreas de pastagens até áreas de florestas primárias sem qualquer distúrbio. Os pesquisadores avaliaram a região, durante 18 meses, com medições do conteúdo de carbono e da diversidade de espécies de plantas, pássaros e besouros em 234 áreas. O trabalho mostra que é possível com uma perda pequena de carbono, conservar 70% de biodiversidade.

O cultivo de eucaliptos, por exemplo, gera grandes estoques de carbono, mas a árvore não produz fruto e o monocultivo tem baixo valor para a biodiversidade. “No entanto, a gente já conhece iniciativas que podem agregar fixação de carbono na atmosfera usando eucalipto e mantendo a biodiversidade com corredores florestais que interliguem fragmentos de florestas. Existe a possibilidade de manejar a paisagem para que fixe carbono e ao mesmo tempo seja produtiva e tenha valor para biodiversidade”.

Rede Amazônia

Os cientistas tentam planejar para o futuro o melhor uso da paisagem. A Rede Amazônia Sustentável produz dados robustos que ajudam a contradizer, inclusive, o que está em livros e que por muito tempo acreditou-se.

Conforme o professor Louzada, o artigo da Nature Climate Change foi liderado pela pesquisadora brasileira Joice Ferreira.  “A rede é montada para brasileiros para pensar nosso território. São pesquisadores da UFLA, UFMG, Embrapa Amazonas, instituições do Pará, entre outras. Há pesquisadores de fora como Inglaterra, Suécia e Estados Unidos, mas a ideia é desenvolver no Brasil a capacidade de obter informações, tratar e alterar políticas públicas brasileiras”, conclui.