Por William Araújo

Você sabia que o termo “mestiço” foi empregado para mais do que distinguir pessoas pela cor da pele e cruzamento biológico entre matrizes diferentes?

De acordo com a pesquisa “Dinâmicas de mestiçagens e o mundo do trabalho nas sociedades ibero-americanas em perspectiva comparada séculos XVI a XVIII”, iniciada em 2011 pelo pesquisador Eduardo França Paiva, do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o termo mestiçagem é recente, mas, em regiões dominadas por espanhóis e portugueses, em séculos anteriores ao XIX (em que surgiu), tinha a função de identificar os indivíduos por “qualidade” e não somente por cor e cruzamentos biológicos.

Segundo pesquisador, a complexidade da mistura de povos ocorrida entre os séculos XVI e XVIII não pode ser reduzida a conceitos simplistas, de modo a organizar as narrativas históricas, mas não traduzindo a realidade do uso dessas definições nesses tempos passados.

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Em resultados preliminares do projeto, identificou-se que o vocábulo “mestiço” se referia à soma de muitos atributos além da cor da pele, como ascendência (origem das matrizes, como pai, avós, bisavós), composição biológica, posicionamento sociocultural e estatuto jurídico no qual se enquadrava (livre, liberto, escravo). A reunião dessas qualidades e condições é o que categorizava o indivíduo como mameluco, pardo, crioulo, índio, branco, negro, cabra, caboclo, bastardo, entre outros tantos termos.

As configurações dos mestiços estavam, também, diretamente ligadas aos arranjos de trabalho existentes nesses períodos, o que funcionava entre os próprios indivíduos dessas categorias como uma maneira de dividirem-se, hierarquizarem-se e mesclarem-se, quando conveniente, às classes que interpunham.

Por isso, a importância do estudo não se restringe somente à organização desses mestiços, se estende ao fomento de linhas de pesquisa sobre o assunto, que enriquecerão a historicidade sem apaga-la, acrescentando informações históricas fundamentais para auxiliar na melhor compreensão das dinâmicas de mestiçagem dos povos ibero-americanos que modificaram o Novo Mundo entre os séculos XVI e XVIII.

“Para além de categoria sociocultural, aqui, mestiço deve ser entendido como agente histórico que, individual e coletivamente, ajudou a construir as sociedades ibero-americanas, diferentemente dos mestiços que, na perspectiva geneticista e eugênica, degeneravam a “raça” e comprometiam o futuro das nações”, diz Paiva sobre a importância do projeto.

Ainda de acordo com o estudo, os mestiços, não raramente, conseguiam mobilidade entre os extratos sociais e foram fundamentais para formatação econômica do Novo Mundo.

No projeto, é citada a obra do índio D. Felipe Guaman Poma de Ayala, do início do século XVI, que lia e escrevia em espanhol, tornou-se um cronista e identificava-se como o príncipe descendente dos incas, por isso enviava cartas ao rei em favor dos nativos do Peru. Ele dizia que os mesticillos” (mestiçozinhos), filhos de índias estupradas por conquistadores, eram explorados e forçados a trabalhos por serem de “qualidade” inferior. Uma forma de categorização além do que a fenotípica.

O pesquisador frisa que o intuito do estudo não é modificar a historicidade, causando anacronismo, mas enriquecer o léxico, fomentar o campo de análise sobre o assunto e produzir material balizador para os interessados. Um dos produtos em que se espraia a pesquisa é o “Dicionário das Mestiçagens na Ibero-América”, que apesar de não concluído, já possui entre 350 e 400 vocábulos mapeados.

“Em termos históricos nós não podemos olhar só de hoje para o passado e julgar se é ruim, se bom, se é errado, se é certo. O passado tem suas lógicas. Tem suas formas de pensar, maneiras de viver. É preciso contextualizar melhor para entender por que nesse passado esses termos foram usados para classificar, hierarquizar e diferenciar indivíduos e grupos sociais”, afirma Paiva.