As bandeiras penduradas nas janelas,as ruas pintadas de verde e amarelo e o clima de festa anunciam que é tempo de Copa do Mundo. Ainda que em 2018, os brasileiros não estejam, aparentemente, tão empolgados com o evento esportivo, nem sempre isso foi assim. Uma pesquisa realizada por Euclides Couto, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei, mostrou como os discursos produzidos em torno da Copa do Mundo de 1950 foram apropriados pelo poder público na defesa da realização do evento em terras nacionais.

Intitulada “Belo Horizonte e a Copa do Mundo de 1950: esporte, sociedade e política“, a pesquisa reuniu e catalogou diferentes reportagens de jornais impressos mineiros que traziam a Copa de 50 como destaque. “Rastreamos os jornais de julho de 1949 até julho de 1950, principalmente o Estado de Minas. Por meio desses periódicos, conseguimos mapear alguns pontos que nos interessaram, por exemplo, como o poder publico se mobilizou, quais foram os discursos produzidos e quais foram a justificativa do poder público para construir um estádio aqui em Belo Horizonte, o Independência”, afirma Couto.

O pesquisador também explica que em 1950 o futebol já era bastante popular no Estado, portanto havia um anseio dos clubes para que o governo pudesse bancar um grande estádio para a cidade. À época, o maior estádio que existia, era o estádio do Atlético Mineiro, construído em 1929 e localizado no bairro de Lourdes, onde hoje é o shopping Diamond Mall. Esse estádio tinha capacidade de receber cerca de 10 mil pessoas, o que para a década de 50 era pouco.

“Quando houve a notícia que a Copa do Mundo seria sediada no Brasil, houve uma disputa para saber qual dos clubes que iria o estádio. Houve uma grande disputa entre o Atlético e o América, os dois maiores clubes mineiros da época. Mas por questões políticas o governo resolveu ceder o estádio para o Clube Sete de Setembro, um time de futebol pequeno que não existe mais”, conta o pesquisador.

Legado da Copa

Para justificar a utilização do dinheiro público na construção de um novo estádio na capital, os governantes utilizaram o discurso do legado da Copa. O levantamento feito durante a pesquisa, mostrou que, à época, defendia-se que a construção do Independência seria benéfica para a cidade, uma vez que, após a Copa, o local seria bastante utilizado pela população belo horizontina.

Contudo, Euclides Couto explica que a construção do estádio não foi fácil. A proposta inicial, era de que o estádio suportasse cerca de 30 mil pessoas. O estádio também teria todas as laterais fechadas. Entretanto, devido a falta de verba, o projeto teve que ser alterado. Houve várias paralisações na obra, e, com isso, o discurso de legado foi potencializado para conter os ânimos da população.

Outro discurso defendido pelo poder público foi o do “cosmopolitismo” da cidade. Essa ideia também foi defendida pelos governantes no contexto da Copa do Mundo de 2014. Nas duas ocasiões, defendeu-se que um evento internacional como a Copa seria capaz de abrir as portas de BH para o mundo.

“Tanto em 1950 quanto em 2014, existia a ideia de que BH era apagada em comparação com outras metópoles, e a Copa iria mudar isso. Mas em nenhum dos casos o marketing da cidade funcionou. Outro ponto em comum entre as duas Copas foi a questão da ‘mineiridade’. Vendeu-se bastante a ideia de que BH estaria de braços abertos para o turismo por ser uma cidade mais receptiva que outros lugares do país”, comenta.