Duas pesquisadoras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma da Universidade Federal de Lavras (UFLA) conquistaram o prêmio Para Mulheres na Ciência 2017 (L’Oreal For Women in Science), uma premiação dedicada exclusivamente a mulheres e que já reconheceu mais de 70 cientistas brasileiras desde 2006.

Rafaela Salgado Ferreira foi vencedora na categoria Química, Fernanda Tonelli ganhou na categoria Ciências da Vida e Jenaina Ribeiro Soares venceu na área de Física. . Outras quatro pesquisadoras foram premiadas, fechando uma lista de sete vitoriosas.

O prêmio é uma parceria entre a L’Oréal, Unesco e ABC. As ganhadoras foram escolhidas por um júri acadêmico formado por importantes nomes da Academia Brasileira de Ciências. Elas foram avaliadas pelo potencial das pesquisas e pela trajetória que já desenvolveram em suas áreas de atuação.

Cada cientista receberá uma bolsa-auxílio de R$50 mil para fundamentar e dar continuidade às pesquisas. Agora, as brasileiras concorrem à edição mundial chamada de Rising Talents. Em 19 edições, 6 brasileiras já estiveram entre as vencedoras da edição internacional.

Rafaela Salgado Ferreira – Na busca por tratamentos mais eficazes para zika e doença de Chagas, a mineira Rafaela Salgado Ferreira (UFMG) desenha moléculas potencialmente capazes de inibir o funcionamento de proteínas essenciais na fisiologia do vírus e do protozoário Trypanosoma cruzi. Foto: Assessoria de Comunicação e Divulgação Científica
Instituto de Ciências Biológicas – UFMG

Bioinformática: desenvolvimento racional de fármacos

Rafaela Salgado Ferreira atua no Laboratório de Biologia Computacional de Proteínas, do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e investiga fármacos para tratamento e cura de doenças negligenciadas.

A pesquisadora usa técnicas computacionais para avaliar diversas proteínas antes mesmo de levá-las aos testes experimentais no laboratório. Essa é a técnica chamada de desenvolvimento racional de fármacos, usada pela equipe de Rafaela.

No projeto que a conferiu o prêmio, Rafaela pesquisa especificamente tratamentos mais eficazes para Zika e Doença de Chagas. A equipe desenha moléculas capazes de inibir proteínas essenciais para essas duas doenças. “Se a proteína é essencial para a doença, e nós conseguimos inibi-la, esperamos matar o patógeno e curar a doença”, explica a pesquisadora.

Rafaela desenvolve pesquisas nessa área desde o fim da graduação e com o passar do tempo incluiu mais doenças no campo de investigação. “Esse prêmio sem dúvida vai ajudar muito no projeto. Nos últimos 3 anos os financiamentos diminuíram e as dificuldades aumentaram, de maneira geral. O valor do prêmio é  bem representativo e vai ser essencial para que a gente possa continuar produzindo as linhas de pesquisa do grupo”. Além do suporte financeiro, a pesquisadora afirma que o prêmio é motivador e muito gratificante.

“Desde que eu recebi o prêmio, várias mulheres já entraram em contato comigo, falando que com certeza dá uma certa inspiração. Então eu acho que a gente precisa mais de iniciativas que reconheçam e incentivem as mulheres. Existe uma desistência maior das mulheres ao longo da carreira. Se a gente for olhar em vários dos programas de pós-graduação, tem muita participação de mulheres. Pelo que eu percebo, geralmente no início da carreira tem uma equidade maior, e na medida que vai acontecendo a progressão, ocorre esse fenômeno de homens atingirem as posições mais altas, explica Rafaela”.

Fernanda Maria Policarpo Tonelli – bioquímica e pós-doutoranda na UFMG, quer revolucionar a biotecnologia brasileira. Seu plano é utilizar tilápias-do-Nilo como biofábricas para a produção de substâncias como o hormônio do crescimento humano – uma inovação que pode economizar milhões de reais por ano ao sistema público de saúde. Foto: Assessoria de Comunicação e Divulgação Científica
Instituto de Ciências Biológicas UFMG

Tilápias transgênicas

A pós-doutoranda Fernanda Maria Policarpo Tonelli também atua no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e estuda a utilização de tilápias-do-Nilo como biofábricas para a produção de substâncias como o hormônio do crescimento humano.

“Pacientes que sofrem com a deficiência de hormônio de crescimento (GH), Síndrome de Turner ou insuficiência renal grave realizam tratamento com hormônio de crescimento humano recombinante (rhGH), geralmente produzido em bactérias ou leveduras. Só em 2014, o Sistema Único de Saúde (SUS)  gastou mais de R$125 milhões com a importação dessa proteína”, afirma Fernanda.

Esse foi o problema que chamou a atenção da pesquisadora, por isso ela investiga uma alternativa capaz de diminuir custos e acelerar o processo de produção da proteína. “A ideia é modificar o DNA de tilápias-do-Nilo, fazendo com que elas produzam o rhGH e liberem na urina. Dessa forma, será possível obter a proteína sem sacrificar o animal e com redução de custo do processo de purificação”, explica.

Ela também comenta o quanto motivador é receber um prêmio como cientistas: “o prêmio representa o reconhecimento do trabalho de toda a equipe. É um sinal de que a pesquisa que desenvolvemos atende a uma necessidade e possui potencial inovador. Além disso, nesse período em que os recursos financeiros são escassos, o prêmio é muito importante para dar continuidade às pesquisas”.

Fernanda também considera extremamente importante a valorização das mulheres na ciência. “Prêmios como este valorizam a participação feminina, tantas vezes desprezada ou subestimada pela sociedade em geral, não apenas no meio científico. É uma forma de reforçar a capacidade intelectual feminina e incentivar a mulher que desde antes de Marie Curie tem feito importantes descobertas que levaram à melhora da qualidade de vida humana”.

Física

Além das pesquisadoras da UFMG, a Jenaina Ribeiro Soares, cientista da UFLA, venceu o prêmio na categoria Física. Ela estuda a estrutura de novos nanomateriais com perspectivas de aplicações em diferentes indústrias, em especial a eletrônica. Desenvolve também equipamentos para produzir esses nanomateriais, formados por uma ou por poucas camadas atômicas.