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Ao mesclar emoções contraditórias, a data desperta a atenção da psicologia, da sociologia, da comunicação e até da matemática e da computação.

POSITIVAS

1 Altruísmo

As mulheres se importam mais do que os homens com o dia dos namorados, embora os homens presenteiem mais do que elas. Esta é a conclusão a que chegou Shirley Matile Ogletree, da Universidade do Texas. A pesquisadora fez 95 entrevistas com jovens na faixa dos 23 anos.

As pesquisas indicaram que elas gostam de receber presentes, mas também se sentem muitos felizes ao presentear os companheiros. Além disso, segundo Ogletree, “indivíduos com atitudes mais femininas, independente do sexo, têm comportamentos mais românticos em relação à data.”

Por outro lado, a pesquisadora Angeline Close, professora assistente no curso de Publicidade,  The University of Texas at Austin College of Communication, concluiu que as mulheres geralmente se sentem mais compelidas do que os homens a comprarem presentes para várias pessoas como crianças, pais, amigos, colegas de classe das crianças, professores e animais de estimação.

Para o psicólogo Rafael Schieber o mais importante é o romantismo e o altruísmo presentes diariamente nas relações.

“Chocolates, flores, jantares, corações e cupidos não são símbolos de amor… são objetos de cena em uma peça chamada romantismo. O Amor não precisa de comprovação, juras, testes… O Amor não se mede, se sente. Se entrega, livremente. Neste dia dos namorados, não peça nada. Apenas dê… Amor”

2 Diálogo

O psicólogo português Nuno Augusto, em entrevista, considera que a  carga de importância deste dia também depende da “dinâmica de cada casal”.

“Do diálogo entre os parceiros até pode sair a conclusão de não querer comemorar o dia, não ligar para a data, e isso não significa que a relação esteja em crise.”

Mas quando o caso é de crise, a data pode ser ser vista como um último recurso para salvar o casamento ou o namoro e ganhar um sinônimo de “ignição”, para que a relação volte a funcionar. No fundo, como diz o psicólogo, “não existe um  manual” e cada casal é um casal, mas qualquer motivo para desencadear conversas sobre a relação é visto como positivo.

3 Afetividade

Outra leitura a ser feita do Dia dos Namorados ou dos solteiros é de um “lembrete de que o ser humano é racional e vive bem em comunidade”, considera Nuno Augusto.

“Precisamos  estar em relação com os outros. O ser humano funciona melhor com os outros, em equipe. Afinal, descendemos dos primatas e eles viviam em comunidade.”

Did Sanchez, no paper Introdução ao Dia dos Namorados,  vê a data como parte de um sistema capitalista de consumo, mas também como um momento de celebração das amizades na cultura anglo-saxônica.

“Neste dia, expressamos nosso amor por nossos amigos, por meio de troca de presentes, jantares, cinemas ou curtindo momentos prazerosos em casa.”

O psicólogo Nuno Augusto aconselha “cultivar todos os dias uma relação romântica saudável, como elogiar, agradecer e pedir desculpa”, bem como “aceitar as diferenças e não esperar que o outro realize todas as nossas expetativas e desejos”.

4 Felicidade

Os relacionamentos podem ser uma das mais importantes fontes de alegria em nossas vidas, com conexões sociais que servem como um importante fator de felicidade e significado . Não surpreendentemente, os seres humanos têm uma capacidade  poderosa para formar e manter relacionamentos . Afinal, o futuro da humanidade depende de pessoas concebendo e criando as próximas gerações.

Pesquisadores de computação e matemática, trabalhando com big data no paper “Padrões temporais de felicidade e informações em um Rede Global Social: hedenométricas e Twitter” , mediram indicadores de felicidade em 46 milhões de palavras contidas em quase 4,6 bilhões de expressões postadas em um período de 33 meses, por mais de 63 milhões de usuários únicos do Twitter.

Os resultados mostram expressões de felicidade no entorno de datas sociais, entre elas o Dia dos Namorados.

Para a pesquisadora Did Sanches, a data vai além da relação entre duas pessoas.

“Trata-se de uma excelente oportunidade para mostrar àqueles que amamos  e aos amigos, amor, afeição, admiração. Amor deveria ser expresso todos os dias, todos os momentos, em todas as chances de encontro social com aqueles que nos cercam, sejam as crianças, familiares, amigos, para como mundo em geral e, especialmente, com nossos parceiros de vida.” (SANCHES, Did.  Valentine´s Day Introduction)

5 Romance e saúde

Nossos relacionamentos sociais afetam positivamente a nossa saúde física , incluindo proteção contra a hipertensão arterial e doenças cardíacas, e melhora na saúde mental , diminuindo a depressão, ansiedade e abuso de substâncias químicas. A tudo isso, acrescenta-se a construção de uma vida saudável e significativa junto a alguém.

Um bom relacionamento também ajuda uma pessoa  a se tornar um ser humano melhor. Os investigadores referem-se a esta experiência como auto-expansão . É a capacidade de um relacionamento  proporcionar oportunidades de auto-crescimento.

Relacionamentos que incluem mais auto-expansão são mais satisfatórios, mais comprometidos, têm níveis mais elevados de amor apaixonado, menos tédio e são menos propensos a traições.(Se você está querendo saber quanto desta qualidade valiosa existe em seu relacionamento, confira o questionário auto-expansão , em inglês.)

NEGATIVAS

1 Estímulo ao consumo

Considerado data-âncora no comércio, o Dia dos Namorados está entre os hábitos culturais da sociedade tradicional, que passaram a ser comandados pelas relações mediadas de mercado.

“Nessa sociedade em que produtos e serviços são consumidos com a mesma intensidade e créditos são tomados em ritmo acelerado, o ato de presentear transformou-se numa instituição capitalista.” (GUERRA, 2010, p. 59)

Estas datas, entre elas o 12 de junho, foram objeto da tese Dimensões do consumo na vida social, de Renata de Souza Guerra, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

De acordo com Bauman, citado pela autora, a sociedade de consumo teria reduzido o indivíduo à simples condição de comprador, moldando e encorajando comportamentos e estilos de vida fundados em uma perspectiva consumista.

Numa sociedade de consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um consumidor por vocação (ou seja, ver e tratar o consumo como vocação). Nessa sociedade, o consumo visto e tratado como vocação é ao mesmo tempo um direito e um dever humano universal que não conhece exceção. (BAUMAN, 2008, p.71)

Neste sentido, proliferam-se as pesquisas sobre volume de vendas e comportamento do consumidor nesta e em outras datas chaves do sistema comercial.

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2 Ansiedade

“O medo de falhar pode fazer deste dia um fator de risco de stress, de acordo com o psicólogo” português Nuno Augusto. “Mesmo as questões monetárias podem ser um elemento potenciador desta ansiedade, ao não conseguir fazer face às despesas.”

Outra preocupação da ciência é com aqueles que se encontram em ambiente hospitalar, em datas de celebração. Algumas iniciativas têm buscado realizar atividades especiais nestas datas, como forma de melhorar o processo de recuperação, cura e valorização da vida, conforme sustentam pesquisadores do curso de Enfermagem da UFMG, no artigo Atividades Lúdicas e Incentivo para o Autocuidado na Minimização das Tensões do Ambiente Hospitalar: Relato de Experiência 

3 Egoísmo

Estudo de 2006, da autoria de Robert Rugimbana e outros, intitulado O papel das relações sociais de poder no presentear do Dia dos Namorados,  conclui que, além de estar permeado pelas relações sociais de poder, o ato de presentear, principalmente para o sexo masculino, carrega sentimentos de egoísmo.

Outro estudo do mesmo grupo, “A importância dos presentes do Dia dos Namorados nas relações”, concluiu que “a maioria dos jovens do sexo masculino considera que dar um presente do Dia dos Namorados é uma obrigação”. Além disso, “25% assumiu que esperava algo em troca, de natureza não material, com uma conotação sexual”.

4 Conflito

Os pesquisadores Katherine A. Morse e Steven L. Neuberg, da Universidade do Arizona, estudaram o efeito das datas festivas nas relações, principalmente o Dia dos Namorados. Esta data, segundo concluem, pode ser um catalisador para o término das relações daqueles que já enfrentam problemas.

“Dia dos Namorados facilita a trajetória de queda a partir de dificuldades de relacionamento em curso para dissolução”, escrevem eles.

“Acreditamos que o Dia dos Namorados coloca relacionamentos românticos em risco, porque, ao contrário da percepção popular, instiga um conjunto de processos, muitas vezes prejudiciais para os relacionamentos românticos e catalisa dificuldades de relacionamento existentes, tornando mais provável que estas dificuldades levará à dissolução.”

Se as expectativas de um parceiro estão baixas ou se existem outros possíveis parceiros que se mostram desejáveis, então o esforço para levar adiante um dia dos namorados com tudo o que a data  demanda pode parecer  demasiado, já que “os custos psicológicos e monetários de organizar um encontro do Dia dos Namorados não justificam o benefício” e, nesse caso, em vez de comemorar a relação, a conclusão é de que o melhor é acabar com ela. .

5 Depressão

Muitas pessoas sofrem com o Dia dos Namorados, porque não têm um companheiro ou terminaram um relacionamento significativo. A data, segundo o psicólogo português Nuno Augusto, pode funcionar como um “catalisador” de emoções reprimidas, desencadeando ou intensificando casos de depressão.

Dr. Asanga Wijeratne, membro do Conselho Médico do Reino Unido, afirma haver um aumento perceptível nas taxas de suicídio entre mulheres com menos de 26 anos, no dia seguinte ao Dia dos Namorados. Esses índices são perceptíveis principalmente em culturas conservadoras, já que em países como o Sri Lanka, “cerca de 9.000 mulheres perdem a virgindade no Dia dos Namorados e isso faz com que algumas delas tomem decisões drásticas, como acabar com suas vidas.”