Vozes e saberes da África

Em livro fundamental à construção de novos olhares sobre o mundo e o tempo, Muryatan S. Barbosa se dedica à história do pensamento africano contemporâneo

Ciência na Estante

Visões de mundo – e/ou construções intelectuais acerca das coisas, dos seres, do tempo – são narrativas alimentadas por teorias, práticas e princípios aos quais, ao longo da história, nos percebemos sujeitos.

Daí a importância da permanente diversificação de fontes, olhares e, claro, “lugares de fala”. Afinal, já passou da hora de as leitoras e os leitores brasileiros buscarem outros tantos modos de compreensão do mundo, para além das bússolas eurocêntricas.

Para muitos de nós, portanto, ler A razão africana – Breve história do pensamento africano contemporâneo, do historiador Muryatan S. Barbosa, pode significar a possibilidade de navegação em oceanos conceituais inovadores.

Ainda sob a metáfora “oceânica”, trata-se do passaporte à descoberta de correntes epistemológicas capazes de desestabilizar paradigmas de nossa ilha de saberes – ou, ainda, de nos levar a inéditas penínsulas, repletas de pensamento articulado e vigoroso.

No livro, o autor – nascido em Lund, na Suécia, e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) – revela que “o “colonialismo não se ocupou apenas de territórios”, mas também “se provou bastante eficaz em povoar as mentes”.

Ao buscar ir além da produção cultural da “hegemonia europeia e branca”, Barbosa aborda temas fundamentais à filosofia africana da contemporaneidade, como “nação, autonomia cultural, racismo, identidade e entendimento da questão negra”.

Para além das seções “introdução” e conclusão, tal articulado panorama do pensamento produzido na África, durante os últimos dois séculos, é dividido, no livro, nos capítulos “A personalidade africana”, “O reino político” e “O autodesenvolvimento”.

Trecho

“Ao realizar uma (breve) história do pensamento africano contemporâneo, me atenho aos intelectuais africanos ‘modernos’, entendendo por isso aqueles que o são por sua qualificação e especialização profissional. Ou seja, aqueles que surgiram com o avanço das relações de produção capitalistas e da divisão social do trabalho. Falo, portanto, do intelectual contemporâneo, individualizado, e não daquele que é parte da intelectualidade social africana, milenar, ainda tão comum em diversas localidades do continente. […] Neste ensaio, busco analisar a razão africana que se pode desvelar dessa intelectualidade ‘moderna’; o que não significa dizer que só há racionalidade nessa camada social específica. Para isso, construí uma reflexão breve e fundamentada sobre o assunto, destacando aqueles intelectuais que trouxeram a ideia de África para o centro de suas preocupações.”

O livro

Livro: A razão africana – Breve história do pensamento africano contemporâneo
Autor: Muryatan S. Barbosa
Editora: Todavia
Páginas: 216
Ano: 2020

Imagem: Divulgação

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