Nísia Trindade: emergências sanitárias continuarão a desafiar a humanidade

Confira entrevista com a presidente da Fiocruz, Nísia trindade, uma das personagens do terceiro volume do e-book Mulher faz Ciência

Foto: Peter Ilicciev

Primeira mulher a presidir a Fundação Oswaldo Cruz em quase 120 anos, Nísia Trindade Lima assumiu papel decisivo no combate à pandemia da covid-19 no País. Ao final do primeiro mandato na presidência da instituição (ela foi reeleita para o cargo, de 2021 a 2024), comandou ações estratégicas para o controle da crise sanitária no Brasil, como a transferência tecnológica da vacina de Oxford, distribuída pela farmacêutica AstraZeneca, para produção no Instituto Bio-Manguinhos, da Fiocruz. A partir do dia 8 de fevereiro, está prevista a entrega de 1 milhão de doses produzidas no laboratório brasileiro para o Programa Nacional de Imunizações, do Ministério da Saúde. A meta é entregar 210 milhões de doses da vacina até o final de 2021.

No dia 1º de janeiro, Nísia Trindade Lima foi empossada como membro titular da Academia Brasileira de Ciências, na área de Ciências Sociais. Ela é uma das personagens do terceiro volume do e-book Mulher faz Ciência, cujo lançamento está marcado para 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Na entrevista a seguir,  a cientista social, mestra em Ciência Política e doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), fala sobre os desafios frente à pandemia, reflete sobre desigualdade de gênero, defende a valorização de abordagens científicas sociológicas, numa “agenda transdisciplinar”, e faz planos para o futuro.

Entrevista

Em 2017, a senhora foi a primeira mulher a tomar posse como presidente da Fiocruz, em quase 120 anos de história da Fundação. A que atribui esse hiato da presença feminina na posição de liderança da instituição?

Este hiato é muito acentuado nas ciências biomédicas e nas ciências exatas, ainda que seja uma realidade em mudança. No caso da Fiocruz, deve-se destacar que as categorias de pesquisadores e tecnologistas são constituídas majoritariamente por mulheres, também maioria entre as lideranças dos grupos de pesquisa. Entretanto, tal protagonismo não se expressa nos cargos de alta direção. Atribuo este quadro a dois fatores – a dificuldade para a valorização das mulheres em cargos de chefia e as dificuldades para nós, mulheres, assumirmos os múltiplos papéis – científicos, institucionais e da esfera doméstica – sem o adequado compartilhamento de responsabilidades e tarefas com os companheiros.

No caso do ambiente institucional, há um conjunto de estereótipos masculinos associados ao exercício dos cargos de direção: autoritarismo em lugar de autoridade; pouca abertura ao diálogo, entre outros. Superá-los é um desafio, especialmente para as novas gerações de servidores públicos.

Em seu primeiro mandato, a senhora defendeu alguma questão de interesse das mulheres que, até então, não havia sido tratada como prioridade na Fundação?

Dei mais prioridade ao fortalecimento do Comitê de Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz. Criado na gestão de Paulo Gadelha, o comitê precisava mais atenção da Presidência e valorização de suas atividades. Outra importante iniciativa foi a criação do Programa Meninas e Mulheres na Ciência e a participação no Comitê criado pelo Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) para a Conferência do Cairo + 25, realizado em 2019, em Nairóbi, com foco no direito das mulheres. Outra ação relevante foi a mudança nos editais de fomento à pesquisa, especificando outra forma de análise do currículo para mulheres que passaram por gestações e cuidados iniciais com os filhos. Há que haver equidade na análise da produtividade científica.

Em 2020, a senhora assumiu um papel estratégico para o País, à frente da tomada de decisões importantes para o enfrentamento da covid-19. Profissionalmente e também pessoalmente, quais foram os momentos mais desafiadores, desde o início da pandemia?

Como gestora, os momentos mais desafiadores foram as decisões de construção do Centro Hospitalar dedicado à covid-19 e vinculado ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI-Fiocruz); as unidades de apoio ao diagnóstico para reforço do Sistema de Vigilância; e o contrato de encomenda e transferência tecnológica da Vacina de Oxford, através da farmacêutica AstraZeneca.

Há um elemento estruturante para monitoramento e análise de epidemias e pandemias no mundo contemporâneo a que muitas vezes não se dá a necessária atenção. Refiro-me à pesquisa em todas as áreas de conhecimento e, sobretudo, à constituição de bases de dados. Um esforço para o qual epidemiologistas e outros especialistas têm papel fundamental, como se vê na Fiocruz e em outras instituições. Construímos o Observatório Covid-19 para reunir as informações sobre plataformas de dados e favorecer análises sobre essas informações. Na Bahia, o Centro de Integração de Dados e Análises em Saúde (Cidacs/Fiocruz), uma colaboração com a Universidade Federal da Bahia, também tem desempenhado importante papel e criou recentemente o “índice de privação”, instrumento fundamental para análise das desigualdades e definição de políticas públicas voltadas a sua redução.

Todos esses desafios foram de grande impacto e complexidade e todos constituem um aprendizado e um legado que vão muito além da necessária e fundamental resposta aos desafios do presente. Considero também uma conquista as ações junto a populações em situação de vulnerabilidade. Este conjunto de ações foi possível pelo aporte de recursos, através do Ministério da Saúde e de medidas provisórias, aprovadas posteriormente pelo Poder Legislativo, e também pela exemplar campanha de apoio junto ao setor privado, que pode ser bem avaliada na página institucional da Fiocruz.

Do ponto de vista pessoal, o grande desafio foi buscar manter meu ânimo e o de toda a equipe em um momento de angústia e luto para todos. Eu mesma perdi pessoas queridas para a covid-19 e tenho clareza que tristeza diante do infortúnio e força para superar esses imensos desafios conviverão ainda por um bom tempo no nosso cotidiano. Considero um privilégio presidir a Fiocruz, instituição em que tantos brasileiros e tantas brasileiras confiam e depositam esperanças, e, mobilizando a grande capacidade e o grande compromisso institucional, poder fazer algo para minorar esta crise sanitária, econômica, social e humanitária que enfrentamos.

O que está definido sobre a produção e distribuição de vacinas para a população brasileira, em 2021, com a participação da Fiocruz?

No caso das vacinas, bem público equiparável à água potável para o aumento da expectativa de vida em todo o mundo, na expressão da Organização Mundial de Saúde (OMS), a Fiocruz atua em frentes que vão da produção à pesquisa clínica, controle de qualidade, educação e divulgação científica.

A ação estratégica mais notável é a produção e incorporação tecnológica para termos autonomia e domínio da plataforma tecnológica da vacina da Universidade de Oxford, a vacina Fiocruz para Covid-19 a ser produzida pelo nosso Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-manguinhos/Fiocruz). Assim que recebermos o ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), nosso compromisso é entregar 50 milhões de doses até abril deste ano, 100,4 milhões até julho e mais 110 milhões ao longo do segundo semestre, totalizando 210,4 milhões de vacinas em 2021. Importante assinalar que essa plataforma, com nova tecnologia de vetor viral, poderá ser usada para novas vacinas e emergências sanitárias, que sabemos, infelizmente, continuarão a desafiar a humanidade.

Além dessa ação, a Fiocruz está colaborando, com a participação de seus grupos de pesquisadores com grande experiência em pesquisa clínica, nos estudos de fase III das vacinas do Instituto Butantan, em parceria com a Sinovac, e da farmacêutica Jansen. Contribui também para a análise de qualidade de todas as vacinas e testes diagnósticos, por meio do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz). Uma outra ação, muitas vezes pouco visível quando falamos sobre vacinas, é o próprio estudo sobre o vírus e suas possíveis mutações e aqui se destaca o papel do Laboratório de Vírus Respiratório e Sarampo, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

A distribuição das vacinas e as estratégias de imunização são de responsabilidade do Plano Nacional de Imunizações, do Ministério da Saúde. Além da produção de vacina Fiocruz para covid-19, a instituição, através de seu Campus Virtual, coordenará com o Programa do Ministério um curso para treinamento dos profissionais de saúde.

No imaginário social, a profissão de cientista costuma ser associada à ciência feita nos laboratórios e às ditas “ciências duras”, a exemplo das Ciências Exatas. Poderia falar sobre a importância das Ciências Sociais, especialmente em um momento como o que vivemos hoje, em meio a uma pandemia?

Podemos afirmar que epidemias e, sobretudo, pandemias são, a um só tempo, fenômenos biológicos, ecológicos e sociais. No caso de doenças provocadas por vírus, estamos diante de um patógeno, mas a transmissão se dá através de mediações sociais evidentes, que nem precisariam de explicações mais longas sobre seu caráter social e consequente importância de abordagens sociológicas. De fato, nosso imaginário e mesmo nossa prática científica é muito fragmentada, o que dificulta a construção de algo muito necessário hoje:  uma agenda interdisciplinar.

A pandemia da covid-19 evidenciou uma profunda mudança nas relações entre espaço, tempo e doenças infecciosas. Percebeu-se que o mundo estava mais vulnerável à ocorrência e à disseminação global, tanto de doenças conhecidas, como novas. A integração das economias em todo o planeta: permitiu um grande aumento de circulação de pessoas e de mercadorias; promoveu o uso intensivo e não sustentável dos recursos naturais; e acentuou mudanças sociais favoráveis ao contágio das doenças infeciosas, por exemplo, adensamento populacional urbano, massiva mobilidade de populações nestes espaços, agregação de grandes contingentes de pessoas em habitações precárias, com acesso limitado ao saneamento básico. Não se trata, obviamente, de fenômeno novo, mas da escala em que se verifica e das condições dessa urbanização. Estas condições permitiram o desenvolvimento da “globalização da doença” como a covid-19, tomando aqui de empréstimo a definição de Fidler (2004) relativa à pandemia de SARS, que ocorreu em 2002-2003.

Conceitos elaborados por sociólogos como Norbert Elias, notadamente o de “interdependência social”, revelam grande força explicativa para análise de fenômenos relacionados a doenças transmissíveis, como os que vivemos no passado e no presente. A pensarmos na contemporaneidade, temos também a notável contribuição de Anthony Giddens, que vem apontando a grande transformação advinda da sociedade da informação. Em suas palavras, a pandemia da covid-19 seria, ao mesmo tempo, uma epidemia digital, pois a informação e a comunicação passaram a ser constitutivas do próprio processo de configuração e história da pandemia.

A senhora foi eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências, na categoria Ciências Sociais. As mulheres ainda são minoria entre titulares da ABC e nesta eleição representaram 43% dos membros eleitos. Qual o significado de fazer parte da elite científica nacional, especialmente no contexto da menor participação das mulheres ao longo da história desta outra importante instituição para a ciência brasileira?

Recebi com muita satisfação minha eleição como membro titular da ABC, uma alegria que se ampliou por ter ingressado com minha colega Milena Soares, da Fiocruz Bahia. Represento na instituição dois grupos ainda minoritários – o dos cientistas sociais e o das mulheres e, por características pessoais, percebo, além do pertencimento à elite científica nacional, o que é motivo de orgulho, o sentimento de dever, de compromisso. Compromisso com a ampliação da presença de mulheres e de cientistas sociais e, sobretudo, compromisso com valores que permitam transformações no fazer científico na contemporaneidade. Pela minha inserção na Fiocruz, pretendo contribuir para uma agenda de desafios e objetos de pesquisa que nos permita lidar melhor com as inúmeras questões que a crise sanitária em curso traz para as sociedades, em geral, e para a sociedade brasileira, em particular.

Outra linha de atuação importante refere-se à valorização das mulheres na ciência brasileira. Mesmo na área de ciências sociais, nas quais a presença de mulheres apresenta uma história mais longa. Quando se aborda o pensamento brasileiro e a história das ciências sociais, áreas de pesquisa a que venho me dedicando há 30 anos, as referências às sociólogas, antropólogas e cientistas políticas não fazem jus a nossa contribuição intelectual e de construção institucional seja nas universidades, seja nas instituições de pesquisa. Atualmente coordeno, com André Botelho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) e temos o projeto de desenvolver, em colaboração com Heloisa Buarque de Holanda, a BVPS Mulher. Em meio a tantas atribuições na Fiocruz, espero poder me dedicar a esse trabalho que considero tão importante e que pode repercutir de forma positiva para a atuação na Academia Brasileira de Ciências.

*Texto atualizado em 20/01/2021, às 10h33. O cronograma de entrega das vacinas pela Fiocruz, com liberação dos primeiros lotes inicialmente prevista para a semana partir de 8 de fevereiro, será revisto, devido ao atraso de insumos provenientes da China.

Alessandra Ribeiro

Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH (2004). Especialista em Imagens e Culturas Midiáticas (2008) e mestra em Comunicação Social (2020) pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG . É jornalista do projeto Minas Faz Ciência desde 2015 e autora do e-book Mulher faz Ciência.

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