Autoexame é uma das principais formas de prevenção do câncer de mama. Foto: Bill Branson/ Wikimedia Commons

Uma medida simples pode evitar lesões na pele de mulheres com câncer de mama submetidas à radioterapia – radiação ionizante que combate células cancerígenas, empregada no tratamento de 60% das pacientes. Pesquisadoras da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo Mineiro, propõem a realização das sessões no horário da manhã, para diminuir a incidência de vermelhidão, descamação e úlceras chamadas de radiodermatites, que provocam desconforto e dor no local irradiado e, conforme a gravidade, até mesmo a interrupção do tratamento.

A observação de cem mulheres em tratamento no Hospital das Clínicas da UFU, no período de 2016 a 2017, revelou que a realização das sessões de radioterapia no período da tarde era um dos fatores de risco para a ocorrência de radiodermatites severas. A explicação é a influência do ritmo circadiano – o relógio biológico que regula o metabolismo das células do corpo humano.

O maior tamanho da mama (que implica numa maior área irradiada) e a pele escura foram outras características observadas nas pacientes com lesões cutâneas mais graves. Nas mulheres negras e pardas, a hipótese é que as radiodermatites estejam associadas ao efeito da radiação no melanócito, célula produtora da melanina, que dá coloração da pele.

A autora da pesquisa, Marceila de Andrade Fuzissaki (à esquerda) e a orientadora, Yara Cristina de Paiva Maia.

A alteração no horário das sessões poderia garantir continuidade da radioterapia, com a redução dos danos à pele, analisa a enfermeira Marceila de Andrade Fuzissaki, autora da pesquisa.

“Essa simples ação levaria a uma possível redução na ocorrência desse evento adverso, com melhoria na qualidade de vida. Além disso, permitiria a realização de um tratamento mais efetivo, pois não seria necessário interrompê-lo em função da presença de radiodermatites severas e não haveria prejuízos na resposta e no controle tumoral”.

A sugestão é que a mudança no protocolo de atendimento das pacientes do grupo de risco seja analisada com o envolvimento dos profissionais de saúde. “É importante a avaliação das alterações na prática clínica, com o objetivo de verificar o impacto na ocorrência desse evento, bem como nos recursos financeiros gastos em saúde”, pondera Yara Cristina de Paiva Maia, professora da Faculdade de Medicina da UFU que orientou o trabalho. A tese de doutorado foi coorientada pela oncologista Paula Philbert Lajolo Canto e defendida em junho deste ano junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde.

Proteção para o coração

A cardiologista Ariane Macedo observou que algumas mulheres submetidas à quimioterapia desenvolvem insuficiência cardíaca. Foto: Carol Morena

Ao acompanhar pacientes em terapia oncológica, a cardiologista Ariane Vieira Scarlatelli Macedo percebeu a recorrência de mulheres sem histórico de doenças do coração que desenvolviam insuficiência cardíaca durante ou após o tratamento do câncer. “Algumas pacientes podem ter que parar a quimioterapia. Então, são dois problemas sérios: o tratamento interrompido e uma doença do coração, que pode até ser grave”, alerta. Os índices de pacientes com este quadro variam de 3% a 5%.

Em busca de soluções preventivas, Ariane observou que um medicamento desenvolvido para proteger o coração dos efeitos tóxicos da antraciclina (substância quimioterápica) não costumava ser prescrito nesses casos. Trata-se do dexrazoxano, que começou a ser estudado ainda na década de 1990 – o auge das pesquisas foi no início dos anos 2000. “Hoje, no Brasil, essa medicação é usada para pacientes que já trataram o câncer de mama e vão precisar usar a antraciclina de novo, em razão da recorrência da doença”, explica Ariane. Ou seja, a prescrição ocorre somente quando a pessoa é submetida a altas doses do quimioterápico.

Segundo a médica, as revisões da literatura especializada sobre drogas cardioprotetoras associadas ao tratamento com as antraciclinas já demonstravam a eficácia do desrazoxano, mas envolviam grupos heterogêneos, que reuniam adultos e crianças, com diferentes tipos de tumores e submetidos a doses variáveis do quimioterápico.

“Nós optamos por fazer uma revisão bibliográfica que tivesse aplicabilidade exclusivamente para pacientes com câncer de mama, para trazer a evidência em relação ao benefício da medicação num grupo específico”.

Eficácia

O estudo demonstrou que o uso do dexrazoxano pode reduzir em 80% o risco de insuficiência cardíaca e em até 70% as chances de outros eventos cardíacos. Além disso, a taxa de resposta oncológica, ou seja, a redução do tumor durante o tratamento, não foi prejudicada.

O trabalho foi apresentado como dissertação de mestrado, defendida em maio de 2018, junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob orientação do professor Antônio Luiz Pinho Ribeiro.

 

 

Alessandra Ribeiro

Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH (2004). Especialista em Imagens e Culturas Midiáticas (2008) e mestra em Comunicação Social (2020) pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG . É jornalista do projeto Minas Faz Ciência desde 2015 e autora do e-book Mulher faz Ciência.

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