Trajetórias da parentalidade – Maternidade e ciência

Neste episódio do podcast Ondas da Ciência, confira uma discussão sobre maternidade e ciência e o projeto Parent in Science

Por Alessandra Ribeiro, Luiza Lages e Verônica Soares.

No episódio de hoje da temporada Trajetórias da Parentalidade, o assunto é maternidade e ciência. Conversamos com Fernanda Staniscuaski, fundadora e coordenadora do projeto Parent in Science, e com pesquisadoras que se tornaram mães durante a pós-graduação.

Confira também uma conversa com a Alessandra Ribeiro, pesquisadora e jornalista da Minas Faz Ciência, autora dos e-books Mulher Faz Ciência, volumes 1 e 2. No podcast, ela fala sobre sua pesquisa de mestrado, na UFMG, em que estudou o movimento Parent in Science.

Escute aqui:

Parent in Science: maternidade e ciência

O Parent in Science, movimento que surgiu em 2016, tem o objetivo de levantar o debate sobre a maternidade e a paternidade dentro do universo da ciência do Brasil. Durante o primeiro mês de isolamento social , o projeto publicou uma carta na revista Science alertando para os riscos de que a disparidade de gênero poderia ser aumentada após o início da pandemia, em função do cuidados com filhos e tarefas domésticas, muitas vezes atribuídos a mulheres. Além disso, o grupo realizou um levantamento sobre as condições de trabalho remoto com a participação de mais de 14 mil cientistas do Brasil.

Além de bióloga e professora do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS, Fernanda Staniscuaski é mãe de três filhos, e ficou de licença maternidade em 2013, 2015 e 2018. Em entrevista à Minas Faz Ciência, a fundadora do Parent in Science contou um pouco sobre as contribuição mais relevantes do movimento, do seu protagonismo e da atuação de tantas outras mulheres e grupos no projeto e nos debates sobre maternidade e ciência.

MFC: Quais foram as grandes conquistas do Parent in Science nesses últimos anos?

Fernanda Staniscuaski: Acho que não existe nenhum dos nossos avanços que seja melhor do que a gente ter trazido esse assunto à tona, porque teve muita gente que, por muito tempo, se sentiu a única pessoa que não conseguia produzir depois de se tornar mãe. Para mim, não há dúvidas que o principal avanço que a gente teve foi mostrar que é uma questão geral, e não de esforço pessoal. Muito pelo contrário, estamos falando de uma questão social, de uma questão de apoio dentro de nossas instituições de pesquisa.

Falando de coisas mais específicas, acho que dois momentos foram essenciais. O primeiro foi o compromisso do CNPq (que não saiu do papel ainda, infelizmente) de que o Lattes vai ter um espaço para informação dos períodos de licença maternidade. Por que isso é importante? Porque os nossos dados mostram que depois que a cientista se torna mãe ocorre uma queda na produção. Se não há nenhuma sinalização no Lattes, fica um buraco no currículo que não é justificado de nenhuma maneira. Então uma das principais conquistas foi essa sinalização.

Outra ação que certamente foi uma vitória é que vários editais de seleção passaram a incluir critérios que levam em consideração a maternidade. Primeiro, para aqueles editais em que há um limite de tempo para ser elegível à seleção, há uma extensão para quem tirou licença maternidade. E a outra abordagem é na análise do currículo. Via de regra, editais de financiamento analisam cinco anos de produtividade. Para aquelas que saíram de licença, essa análise do currículo é estendida por mais um ou dois anos. A gente ainda não sabe se são medidas que resolvem todos os problemas, muito provavelmente não, porque é uma questão muito complexa, mas é um avanço.

MFC: Quais as consequências do período de pandemia nessas discussões?

F.S.: Não há dúvidas de que a pandemia vai exacerbar qualquer diferença que a gente já tinha na questão de gênero dentro da ciência. No Brasil, há uma diferença entre homens e mulheres, entre quem faz as tarefas domésticas e quem cuida dos filhos. Isso tem mudado ao longo do tempo, mas ainda é muito atribuído às mulheres. Então, nesse momento em que a gente não tem mais escola para os filhos (que permaneciam um ou dois turnos na escola) e em que as redes de apoio foram reduzidas, as mulheres vão sofrer muito.

Todos os avanços que a gente teve em questões de equidade de gênero vão sofrer um impacto se a gente não fizer nada. E essa era uma das principais razões de querer que essa carta chegasse onde chegou. Aquelas exigências que a gente faz, de considerar a maternidade em editais de financiamento, por exemplo, mais do que nunca são necessárias. A gente vai ter um aumento muito grande nessa diferença de participação de homens e mulheres em termos de produtividade, algo que já está sendo mostrado: mulheres estão submetendo menos artigos do que homens, e não apenas no Brasil.

MFC: Você se tornou protagonista em discussões sobre maternidade e ciência, relacionadas ao Parent in Science. O que você imagina como mãe, cientista, pesquisadora, sobre os próximos passos necessários para o movimento?

F.S.: Acabei me tornando a cara do movimento, mas ele não sou só eu. É importante deixar claro que é um esforço de todo mundo, mesmo de quem não faz parte do grupo Parent in Science. Foi o apoio que a gente recebeu e todas as portas abertas que permitiram que a gente avançasse nessa discussão. E vai ser essencial esse apoio daqui para frente, para que nossas medidas possam mitigar os efeitos da pandemia nessa questão de gênero dentro da ciência. Essa visibilidade tem a função de garantir que mudanças aconteçam.

Eu acho que uma das principais razões do Parent in Science ter conseguido avançar é porque essas discussões já existiam no background. Quando a gente vai discutir com agência de fomento, a gente precisa de números. Mas além de mostrar dados, acho que a gente teve tanto apoio porque mostramos que não dá mais. Obviamente existem limites entre a vida profissional e a vida pessoal, mas esse limite é super tênue e a maternidade influencia o profissional que a gente é, nossa profissão influencia como a gente vê a maternidade, então, são coisas inseparáveis.

E, por fim, a única coisa que eu gosto sempre de lembrar é que a gente está falando de mudanças na ciência, no nosso ambiente, mas também, e principalmente, de uma mudança social muito grande que precisa acontecer, sobre quem cuida dos filhos. Isso não é uma responsabilidade pessoal, não é só a mãe que tem que cuidar do filho, e também não é só a família. Ter filhos é um projeto social que precisa ser considerado como tal, porque os impactos não são só na família, os impactos são na sociedade, como um todo.

Trajetórias da Parentalidade

O episódio Maternidade e Ciência é o oitavo da temporada Trajetórias da Parentalidade, do podcast Ondas da Ciência. Apresentamos, sob a ótica das ciências, assuntos que tratam de aspectos relevantes nos debates sobre a parentalidade.

Escute também:

  1. Fertilidade
  2. Gestação
  3. Parto
  4. Amamentação e nutrição
  5. Bebês: cognição e aprendizado
  6. Autoridade parental
  7. Novas formas da parentalidade

Ondas da Ciência é uma produção do projeto Minas Faz Ciência, da Fapemig, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.

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