Câncer de mama: mulheres negras e sobrevivência

Estudo da UFMG mostra que mulheres negras têm 10% menos chances de sobrevida em relação a mulheres brancas em casos de câncer de mama

National Cancer Institute/Wikimedia

Uma pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Saúde Pública, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revelou que mulheres pretas têm chances menores de sobreviver ao câncer de mama.

A tese de Lívia Lemos intitulada “Diagnóstico em estádio avançado do câncer de mama na América Latina e Caribe e sobrevida de mulheres tratadas para essa doença pelo Sistema Único de Saúde segundo raça/cor” teve como base dados administrativos do Sistema Único de Saúde (SUS).   

“Utilizamos tais dados para identificar as mulheres que iniciaram tratamento pelo SUS entre 2008 e 2010. Essas mulheres foram acompanhadas até 2015. Após identificar as pacientes, nós as separamos conforme a variável de raça/cor utilizada pelo IBGE. Assim, avaliamos a probabilidade de vida dessas mulheres em 5 anos. Verificamos que para as mulheres de cor de pele branca, a probabilidade de estar viva no final desses cinco anos de acompanhamento é 10% maior do que para as mulheres de cor de pele preta”, detalha a pesquisadora.

Modelo de regressão e variáveis

Lívia Lemos explica, também, que foi utilizado um modelo de regressão para a verificação de outras variáveis que poderiam estar associadas a sobrevida. Foram analisados também informações sobre idade, local de residência, modalidade de tratamento, número de comorbidades no primeiro ano de tratamento e estágio da doença. Ainda sim, observou-se que a diferença entre as mulheres de cor de pele preta e cor de pele branca permaneceu.

O estudo sugere que a diferença de sobrevida é maior quando a doença está em estágio mais avançado no momento do diagnóstico. Além disso,  as mulheres de cor de pele preta são, normalmente, diagnosticadas em maior proporção em estágio avançado da doença em relação às mulheres brancas. Já as mulheres pardas ocupam posição intermediária.

“A doença é dividida em 4 estágios globais sendo o número 1 o estágio inicial, e o 4, o metastático. A diferença a respeito da sobrevida fica maior quanto mais avançada a doença é diagnosticada. Isso ainda precisa ser mais explorado, mas diz sobre a importância do diagnóstico precoce“, comenta Lívia.

Iniquidade racial, mulheres e saúde

Um resultado que surpreendeu a pesquisadoras foi a diferença de sobrevida entre mulheres pardas e mulheres brancas. Diferentemente do esperado por Lívia, o estudo mostrou que a diferença foi pouco significativa. Esse foi um aspecto que mostrou a importância da pesquisa ter separado as mulheres em três categorias raciais.

“Outras pesquisas que trabalham com iniquidade racial e saúde, muitas vezes, juntam mulheres pretas e pardas e observam as diferenças que as negras como um conjunto elas têm em relação às mulheres brancas. E no nosso trabalho a gente optou por respeitar a forma como a mulher tinha se autodeclarado e, por isso, nós observamos essa diferença. Se tivéssemos feito de outra maneira o resultado seria outro. Então foi muito importante a gente respeitar a forma que as mulheres se autodeclararam“, comenta a pesquisadora.

De um modo geral, Lívia admite que a diferença de sobrevida entre mulheres autodeclaradas pretas e brancas já era esperada. O objetivo da pesquisa foi chamar atenção para o problema e tentar encontrar possibilidades de melhoria. E um ponto importante que precisa ser trabalhado é a detecção precoce da doença.

“Nosso estudo é quantitativo, mas as mulheres têm cara, têm história e precisam ser protagonistas das discussões. As mulheres negras têm que ser chamadas para conversa. Elas têm que ter o papel principal no desenho de políticas de saúde que vão resolver a iniquidade”, conclui a pesquisadora.

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