Trajetórias da parentalidade – Parto

No episódio Parto do podcast Ondas da Ciência, confira uma discussão sobre os sinais do nascimento, os diferentes procedimentos e o protagonismo da mulher

Por Alessandra Ribeiro, Luiza Lages e Verônica Soares

No episódio de hoje da temporada Trajetórias da Parentalidade, o assunto é parto. Conversamos com Augusto Brandão, professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, e com Lívia Gomes Laudares, doula, pesquisadora e jornalista.

Confira uma discussão sobre os sinais que precedem o nascimento, os diferentes procedimentos possíveis e o protagonismo da mulher durante o parto.

Escute aqui:

O momento do parto

Durante 40 semanas, o feto passa por um processo de formação e amadurecimento, até o momento do nascimento. Augusto Brandão fala sobre os sinais que apontam para a chegada do parto. O médico explica que não existe nenhum indicador incontestável para a gestante. Essa certeza só vem quando ela é examinada.

Apesar disso, alguns sinais servem como base para a gestante definir o momento de ir para a maternidade, e então verificar se está em trabalho de parto. O primeiro deles são as contrações. “A gente recomenda que quando a gestante suspeite que está tendo contrações, ela deite de barriga de lado e faça uma avaliação durante dez minutos. Se em dez minutos ela percebe que está tendo três, quatro, cinco contrações, isso já é um sinal bem provável de trabalho de parto”, diz Brandão.

Outro sinal, não tão comum, mas sempre representado em filmes e na televisão, é a ruptura da bolsa. Sangramentos também podem ser indicadores. Além disso, a redução dos movimentos do bebê. “E a gestante não precisa ficar necessariamente preocupada com isso. Na hora que está encaixando pela bacia, o bebê perde um pouco a capacidade de se movimentar, e isso faz com que a mãe tenha uma percepção menor da movimentação fetal”, explica o médico. Mas ele lembra que ao perceber qualquer alteração que a gestante julgue ser grave o suficiente, ela deve procurar assistência médica.

Índice de cesarianas

Existem diferentes procedimentos possíveis e níveis de intervenção médica à parturiente. Um dos grandes debates que existe sobre o parto no Brasil é o elevado número de cesarianas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o índice razoável de cesáreas é de 15% dos nascimentos. No Brasil, 55,6% dos 2,9 milhões de partos realizados anualmente são cirúrgicos.

Nessa discussão, é importante lembrar que, desde 2016, a cesárea não pode ser agendada no Brasil antes das 39 semanas de gestação, desde que não haja motivo médico para interromper a gravidez. “Apesar do feto deixar de ser prematuro com 37 semanas, hoje sabemos que o desenvolvimento completo dele só se dá com 39. Então, não se justifica fazer uma interrupção de gestação antes das 39 semanas, quando a gestante e o feto estão saudáveis”, afirma.

Augusto Brandão explica que a justificativa para a alta taxa de cesarianas no Brasil tem diversos fatores associados. Uma delas está relacionada ao tempo de dedicação do profissional de saúde a uma paciente durante o parto normal. “Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, o parto vaginal, hoje, remunera melhor o profissional do que a maioria dos casos de cesariana. Mas o problema é o tempo que o profissional tem que ficar na instituição, os compromissos que ele tem que cancelar para prestar a assistência”, diz.

Benefícios do parto normal

Outro fator associado ao índice de cesáreas é a orientação à paciente. Segundo o médico, muitas vezes ela não é adequadamente informada dos benefícios do parto vaginal durante o pré-natal. “Não adianta a gestante ser orientada sobre os benefícios do parto vaginal no momento do parto. Ela tem que ser constantemente orientada e lembrada que esse é o melhor desfecho para ela e para o recém-nascido dela”, afirma Brandão. Para o pesquisador, esse é um processo de convencimento que tem que começar no início da gestação.

O parto vaginal é fisiológico, natural, por isso, a recuperação é melhor do que de uma cesariana. A gestante volta a realizar as atividades habituais dela mais cedo, se comparada àquela que é submetida a uma intervenção cirúrgica. “A gente tem que lembrar que as complicações da cesariana, em linhas gerais, são muito maiores. A hemorragia puerperal, o sangramento aumentado, as taxas de infecção em cesariana são infinitamente maiores que no parto vaginal”, explica Brandão. O médico lembra ainda que o período de trabalho de parto traz benefícios ao recém-nascido, relacionados à adaptação à respiração e à vida extrauterina.

Protagonismo e plano de parto

No cuidado pré-natal, para garantir as vontades da mulher, é interessante que a gestante construa junto com profissionais de saúde um plano de parto. A médica Zilma Reis, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, explica que é uma estratégia interessante e recomendada pela OMS, para que os pais se preparem para o parto. Nesse documento, a gestante declara suas expectativas e preferências para o momento do nascimento.

“Isso deve ser formalizado em um documento, porque na hora, é contração, dor, são muitas coisas para pensar. E muitas vezes ela acaba esquecendo de falar tudo aquilo que ela tinha planejado. Então, se ela levar aquilo por escrito, de alguma maneira, e discutir com a equipe que vai estar lá para atender, é bastante positivo e interessante”, diz a pesquisadora.

Augusto Brandão afirma que, para manter o protagonismo sobre o próprio parto, informação é chave. “Ser protagonista é ter o direito de escolha, que implica que ela pode optar por aquelas condutas que são de alguma forma opcionais: a própria analgesia para o trabalho de parto, o posicionamento, ela tem o direito de escolher o ambiente com quem ela vai ficar, quem vai estar com ela”, explica.

Condutas violentas

Existem diversas violências de parto, que vão desde a dificuldade no acesso ao pré-natal, insultos verbais e procedimentos desnecessários ou más indicações de cesariana. Mas diversos procedimentos adotados na hora do parto podem ser benéficos, a depender do contexto e da avaliação da equipe de saúde. Brandão lembra que é importante o entendimento de que, muitas vezes, essas condutas não previstas devem ser tomadas, com o intuito de garantir o bem-estar final da mãe e do recém-nascido.

“O segredo para a paciente não encarar qualquer conduta como uma agressão e manter esse papel de protagonismo é ela ser previamente orientada sobre a possibilidade ou a probabilidade da realização de qualquer uma dessas práticas”, diz. Um dos exemplos dados pelo médico é o uso de ocitocina, um hormônio que pode ser administrado no soro da paciente, para promover o aumento de contrações. A grande polêmica da ocitocina é que o hormônio já foi administrado de forma indiscriminada para as gestantes, apenas para acelerar o parto. Mas, em determinados casos, o seu uso é benéfico.

Parto humanizado

Dentro do universo do parto humanizado, existe uma figura importante, que é a doula. Segundo Lívia Gomes Laudares, doula, pesquisadora e jornalista, essa profissional é responsável por uma atenção individualizada para as gestantes na hora do parto.

A doula trabalha com a educação da mulher. Ela explica como funciona o trabalho de parto e questões fisiológicas. Opera como uma ponte entre a equipe médica, a família e a mulher, para passar informações (que são resultado de muito estudo e pesquisa). “O que a gente pode fazer pela gestante é levar a nossa experiência em sala de parto, com outras gestantes e também com o estudo de artigos. É desejável que uma doula esteja sempre em formação”, explica.

Para Lívia Laudares, o fato da gestante ter que ir muito informada para o parto é um tipo de violência contra a mulher. “É um tipo de violência, porque não necessariamente a mulher tem que ser uma expert sobre o parto. Mas, infelizmente, por uma deficiência de diversos profissionais, que não seguem a medicina baseada em evidências, a mulher tem que ir preparada. E muitas vezes a gente tem que preparar ela para um cenário de guerra, dependendo do hospital”, relata.

Puerpério

Depois do parto vem o puerpério. É um período que muita gente conhece como resguardo, que acontece no pós-parto. A mulher vive diversas transformações, até que os órgãos reprodutores voltem ao estado anterior à gravidez. E são transformações psicológicas também. Lívia Laudares explica que é uma transição para uma nova fase na vida da mulher.

“São processos que a gente chama de enlutamento. Ela precisa entender quem é a nova mulher que nasceu no trabalho de parto, e quem é a mulher que ela deixou para trás. O que eu posso pegar dessa mulher que eu deixei para trás e trazer para minha vida hoje? E como eu posso fazer isso no meio de um turbilhão de hormônios e de preocupações com aquela criança que nasceu? A doula está ali para lembrá-la disso e para auxiliar nessa nova etapa, nas novas tarefas e na nova vida que surge”, diz Laudares.

Trajetórias da Parentalidade

O episódio Gestação é o terceiro da temporada Trajetórias da Parentalidade, do podcast Ondas da Ciência. Vamos trazer, sob a ótica das ciências, assuntos que tratam de aspectos relevantes nos debates sobre a parentalidade.

Escute também:

  1. Fertilidade
  2. Gestação

O Ondas da Ciência é uma produção do projeto Minas Faz Ciência, da Fapemig, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.

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