Autismo e educação: desafios e superação

Alunos autistas respondem bem a uma rotina organizada e planejada no sentido de promover a sua interação no ambiente escolar

Por Heloísa de Paula, Paulo Henrique Dias e Rafaela Silva**

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o transtorno do espectro do autismo (TEA) refere-se a um conjunto de condições caracterizadas por algum grau de comportamento social prejudicado, comunicação e linguagem, e uma gama estreita de interesses e atividades que são exclusivos do indivíduo e realizados repetidamente.

Os distúrbios  começam na infância e tendem a persistir na adolescência e na idade adulta. Na maioria dos casos, as condições são aparentes durante os primeiros cinco anos de vida.

As pessoas com TEA frequentemente apresentam outras condições co-ocorrentes, incluindo epilepsia, depressão, ansiedade e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O nível de funcionamento intelectual em indivíduos com TEA também é extremamente variável.

Ainda de acordo com  a OMS, estima-se que uma em cada 160 crianças do mundo tenha autismo. Entretanto, esta estimativas são uma média de vários estudos realizados no mundo. Estes números podem ser bem mais altos, porque a prevalência do transtorno em países de baixa e média renda é até agora desconhecida.

Os estudos da OMS, concluem que:

  • Enquanto algumas pessoas com TEA podem viver de forma independente, outras têm deficiências graves e requerem cuidados e apoio ao longo da vida.
  • Intervenções psicossociais baseadas em evidências, como programas de tratamento comportamental e treinamento de habilidades dos pais, podem reduzir as dificuldades na comunicação e no comportamento social, com um impacto positivo no bem-estar e na qualidade de vida das pessoas com TEA e seus cuidadores.
  • As intervenções para pessoas com TEA precisam ser acompanhadas de ações mais amplas para tornar os ambientes físicos, sociais e atitudinais mais acessíveis, inclusivos e de apoio.
  • Em todo o mundo, as pessoas com TEA estão frequentemente sujeitas a estigma, discriminação e violações dos direitos humanos.

Globalmente, o acesso a serviços e suporte para pessoas com TEA é inadequado e isso inclui o sistema educacional.

Desafios na Educação

As dificuldades enfrentadas pelo autista (independente do grau diagnosticado) acontecem em todas as áreas de sua vida – inclusive no ambiente escolar. 

Roberta Flávia Ferreira, mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais,  estuda os desafios da inclusão de crianças autistas na educação infantil e a formação de professores para lidar com estes alunos nas escolas públicas. A pesquisadora destaca a importância do processo educacional para evolução e socialização do aluno e como o professor pode ajudar nestas questões. Porém, em sua pesquisa de mestrado, aponta a dificuldade de profissionais da rede pública de ensino, por falta de conhecimento e por não receberem formação específica para enfrentar este desafio em sala de aula.

Pensando na inclusão e estratégias para alunos com autismo na rede regular de ensino, Roberta considera fundamental a preparação dos profissionais de ensino para trabalhar com estes estudantes, já que demandam atenção diferenciada em todos os ciclos de formação.

Para Ana Flávia Ferreira Pascotto, psicóloga responsável pela educação assistiva, no Núcleo de Orientação Psicopedagógica e Inclusão (Nopi), do Centro Universitário de Belo Horizonte, é importante que haja este acompanhamento e que se tenha uma atenção voltada para estes alunos.

“É necessário entender o que é o transtorno do espectro autista, suas características e especificidades, para podermos pensar nas adaptações e auxílios necessários e cabíveis para o aluno. Mas, além disso, é de extrema importância olhar para o aluno como uma pessoa, não apenas para o TEA, e as dificuldades que ele possui, mas para todos seus pontos positivos para um acolhimento efetivo”.

Dentre  de todos os conceitos e aspectos abordados, ela destaca a capacidade de uma criança com TEA e como a interação no ambiente escolar ocorre em grupo, a partir do acompanhamento do professor, responsável por elaborar atividades e desenvolver novas habilidades.

 “O acompanhamento do aluno deve ser continuo, principalmente no que tange ao apoio psicopedagógico, revisando sempre as adaptações e obtendo um feedback do aluno para melhor acompanhamento.  Lembrando que ter intérprete e mediador em sala de aula é direito, mas o aluno pode não solicitar o serviço.  Principalmente, visa-se a autonomia desse aluno, não somente no processo de ensino aprendizagem, mas como um ser biopsicossocial”, destaca Ana Flávia.

Além disso, a psicóloga destaca que os profissionais da educação devem ficar atentos ao apresentarem estímulos visuais, sonoros e espaciais que podem causar grande impacto no aluno com TEA. ”É de extrema importância que haja sensibilização com os colegas de sala, principalmente quando houver exaltação de vozes e trabalhos em grupo”.

Estudos demonstram que os alunos autistas respondem bem a uma rotina organizada e planejada no sentido de promover a sua interação. Ou seja, com esta viabilidade de melhor proveito por parte destes alunos em ambientes mais organizados, a sala de aula e qualquer outro espaço podem ajudar o estudante autista a compreender melhor o espaço escolar e diminuir suas dificuldades, resultando em um melhor aproveitamento do aprendizado, independentemente da idade.

Depoimento de quem enfrentou a escola

O jornalista e mestrando em Comunicação Social pela UFMG, Victor Mendonça, afirma, por experiência própria, que a inserção de um autista no ambiente educacional não é fácil.

Para ele, superar as barreira e fazer esta oportunidade acontecer foi um grande desafio, uma vez que o autista vê o mundo de forma diferenciada e as próprias dificuldades sensoriais e comportamentais são agravantes.

“Eu acredito que, a priori, ninguém é capacitado para lidar com algo que é muito diferente do padrão, com a inclusão de maneira geral. Eu também acredito que esta questão da homogeneidade, eu já até entrevistei alguns médicos sobre o ponto de vista da heterogeneidade neurológica e biológica que faz parte da nossa espécie, ela não existe em nenhum nível. Então, o que eu acredito que seja essencial, é o profissional entender de gente, do ser humano, deste relacionamento humano e de educação. E aí, ele vai perceber as nuances e as especificidades deste aluno autista ou com alguma deficiência ou transtorno do desenvolvimento e vai aprender a lidar com estas especificidades”.

Victor conta que, ao longo da sua vida educacional, pensou em alguns momentos que nunca conseguiria fazer uma faculdade, por enfrentar forte fobia social, entre outros aspectos que o fizeram ficar em casa durante boa parte do ensino médio. O caminho até a faculdade para ele parecia distante.

“Era muito desafiador simplesmente levantar e fazer as questões da vida diária. E, a faculdade exigiria de mim um profissionalismo com um grau de responsabilidade que talvez eu não conseguisse atingir”, contou Victor.

 



Entretanto, Victor não só enfrentou o desafio, como tornou-se escritor e hoje mantém, junto com a mãe, Selma Sueli, o canal no YouTube Mundo Autista, onde  “discutem o autismo com leveza e respeito .

Selma Sueli, diagnostica com autismo depois de adulta, afirma que, na própria experiência de vida, não há inclusão nas escolas, e sim pessoas inclusivas e preocupadas com cada indivíduo. A partir da vivência, as percepções moldam a forma de conduzir o aprendizado daquele aluno que demanda uma atenção especial, seja um autista de grau leve ou mais severo.

Portanto, segundo ela, não se trata apenas de colocar uma criança com deficiência na escola regular. É preciso também dar a ela as mesmas oportunidades e atenção que são dispensadas às demais, sempre respeitando suas necessidades e levando em consideração o seu ritmo de desenvolvimento.

Sobre a adaptação e inclusão, Selma afirma que um profissional pensar que já está preparado para lidar com uma pessoa que demanda uma atenção é errôneo, pois cada pessoa é única, assim como sua demanda. Ela diz ainda que, pela sua importância, o professor deve estar atento a cada aluno para perceber suas dificuldades e proporcionar um direcionamento mais específico na caminhada educacional.

Leis e conquistas 

Berenice Piana é a face humana da Lei Federal 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção aos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Sancionada em 2012, a Lei Berenice Piana se tornou o primeiro caso de sucesso no Senado como legislação participativa e até hoje constitui-se como objeto de estudo de advogados, juristas e estudantes de Direito. Tudo começou com o olhar materno de Berenice acerca das necessidades pelas quais seu filho, Dayan, e os outros autistas passam diariamente.“Ser mãe de um autista é ser mãe amor, mãe sentimento, mãe doação.

Ouça a conversa de Berenice Piana com a repórter Heloísa de Paula.


Conheça a evolução histórica do TEA


Saiba mais

Como forma de contribuir com esta formação de professores e profissionais envolvidos com educação, Roberta desenvolveu uma cartilha, na qual apresenta informações sobre o transtorno, as principais leis e orientações que regulamentam ao atendimento educacional da pessoa com deficiência, além de estratégias pedagógicas que podem ser utilizadas por profissionais do ensino.

 

**Esta reportagem foi produzida por alunos do oitavo período do Centro Universitário de Belo Horizonte, em parceria com o projeto Minas Faz Ciência. Orientação: Lorena Tárcia.

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