Transição para o veganismo exige acompanhamento profissional

Pesquisas apontam aumento no número de pessoas que se declaram vegetarianas ou veganas no Brasil e no mundo.

Por Arthur Lobo, Edson Barbosa, Giulio Lopes, José Carlos Oliveira Santos, Luiz Gabriel Valadares Fabiano, Pedro Henrique de Oliveira Santos**

Apesar da popularidade, muitas pessoas ainda confundem vegetarianismo com veganismo. Então, vamos começar com algumas definições.

Vegetarianismo é o regime alimentar que exclui todo tipo de carne, mas há diversas maneiras de ser vegetariano. 

  • Ovolacto vegetarianos: utilizam ovos, leite e laticínios na sua alimentação;
  • Lacto vegetarianos: utilizam leite e laticínios;
  • Ovo vegetarianos: utilizam ovos;
  • Vegetarianos estritos: não utilizam nenhum produto de origem animal na sua alimentação.

Já no veganismo, assume-se uma postura contra o consumo de qualquer tipo de produto ou alimento que contenha traços de origem animal, como carnes e derivados, vestuários, acessórios, cosméticos, produtos de limpeza e higiene pessoal, relacionados à exploração animal de qualquer natureza.

Os veganos são pessoas ligadas  aos cuidados com a vida e o meio ambiente. Muitos também não frequentam circos, zoológicos e até condenam a posse de animais de estimação.

Segundo a nutricionista Daniela Pala, doutora em Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o veganismo diz respeito a um modo de vida ou uma escolha, que busca excluir todas as formas de exploração e crueldade contra o meio ambiente e os animais . 

Mudanças de hábito

Pesquisa realizada pelo  Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas (Ibope), em 2018, mostrou a mudança nos hábitos alimentares dos brasileiros. Entre 2012 e 2018, houve um aumento de 75% no número de pessoas que se declaram como vegetarianas ou veganas.

Além disso,  14% da população brasileira já mudou seus hábitos alimentares ou está em processo de mudança. Outro dado importante é que, nas regiões urbanas, houve o aumento de 75% de adesão. 

Pesquisa realizada pela Global Data, a pedido da Forbes, aponta, ainda, que 70% da população mundial está reduzindo ou parando de consumir  proteína animal. A pesquisa revela mostra que o número de jovens adeptos subiu  600%, nos últimos três anos.

Os países com maior número de  vegetarianos e veganos são Espanha, Reino Unido, Suécia, Israel, Alemanha, Índia, Canadá, EUA e Nova Zelândia.

Natália Galdino, doutora em nutrição pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) comenta sobre os motivos que têm levado as pessoas a aderirem ao veganismo e vegetarianismo.

Benefícios e cuidados

Enquanto muitos já aderiram, outros resistem em mudar, por causa das dúvidas relativas aos benefícios e malefícios, principalmente entre aqueles que pensam em fazer a transição de uma dieta tradicional para aquelas restritivas aos alimentos de origem animal. 

Daniela Pala afirma que a prática vegana pode oferecer benefícios, além dos alcançados em uma alimentação tradicional. Porém, para isso, o vegano precisa manter disciplina rígida  e acompanhamento nutricional de maneiras a incluir, diariamente, na dieta, alternativas para reposição de nutrientes.

Ao pesquisar os benéficos relacionados à mudança de alimentação à base de vitaminas e nutrientes de origem animal, para vegetal, Daniela Pala identificou  que tal opção alimentar pode ajudar na prevenção de doenças crônicas, como de coração, diabetes, câncer e controle de obesidade, além de considerar os efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes encontrados nos alimentos de origem vegetal. 

Mas existem também desafios, caso não haja planejamento alimentar e o devido acompanhamento nutricional. 

A anemia pode ser o primeiro sintoma de uma deficiência nutricional, além de fraqueza, tontura, falta de concentração, formigamento nos pés, alteração no funcionamento do intestino, perda de peso e inflamações pelo corpo.

Natália Galdino esclarece os benefícios e riscos na adoção das dietas veganas e vegetarianas.

Veganismo na infância

E as crianças? Podem seguir uma dieta restritiva sem riscos para a saúde?

Para muitas pessoas os riscos podem ser grandes, por se tratar de um período em que o corpo está em desenvolvimento e a falta de certos nutrientes pode acarretar deficiências na formação física e psicológicas. Mas o que dizem as pesquisas e os especialistas?

Em pareceres de 2009 e 2016, a Academia de Nutrição e Dietética dos Estados Unidos endossou as dietas vegetariana e vegana para “todas as fases do ciclo da vida, incluindo gravidez, lactação, infância, adolescência e atletas”. Outros institutos de referência em todo o mundo também seguem esta orientação.

Na opinião de Daniela Pala,  é possível uma criança vegana se desenvolver sem distinções em relação a outras crianças que se alimentam com proteínas e derivados de origem animal.

Entretanto, para garantir a saúde infantil, essa criança deve ser acompanhada de perto. Caso apresente alguma deficiência nutricional, devidamente exposta através de exames clínicos, deverá haver intervenção na dieta.

Natália Galdino também ressalta a importância do acompanhamento nutricional no caso de crianças.

Papel dos pais

Segundo Daniela Pala, a conscientização dos pais e de todos os membros da família é de grande importância, principalmente na fase dos zero (0) aos cinco (5) anos. 

A participação dos pais veganos de forma consciente, desde o nascimento da criança, facilita o reconhecimento perante alguns sinais de deficiência nutricional que a criança possa apresentar.  Sendo também possível observar os benefícios no desenvolvimento e crescimento num ambiente sem produtos de origem animal”.

Daniela aconselha que os pais de crianças veganas procurem um profissional, caso a criança apresente sintomas como cansaço, fraqueza, tontura, irritabilidade, esquecimento, distração, excesso de sono, formigamento das extremidades do corpo (paresia) e rigidez da pele.  

Crianças em fase de crescimento até os cinco anos de idade, que não consomem alimentos de origem animal, podem apresentar deficiência de vitamina B12. Neste caso, o acompanhamento individualizado garante um desenvolvimento normal ”,  conclui Daniela . 

Um pilar do corpo chamado Vitamina B12

A vitamina B12 está ligada diretamente ao desenvolvimento estrutural e neural, sendo a vitamina mais carente em uma dieta vegana. A deficiência dessa vitamina pode começar com as mães veganas, o que pode refletir diretamente nas crianças.

Os problemas incluem hiporreatividade muscular e hipotonia muscular (redução do músculo e perda da força motora). Esses sintomas são  frequentemente relacionados à paralisia infantil ou outras complicações neuromusculares. Isso pode refletir nas atividades básicas da criança como falar, andar e correr.

Daniela Pala, esclarece sobre a importância da vitamina B12:

E os idosos?

É importante salientar que a mudança de hábitos alimentares significativos necessita de estudos, de dedicação e referência teórica por parte de quem pretende aderir a dietas muito diferenciadas. Isso inclui os idosos que precisam estar cientes de todos os aspectos necessários para iniciar uma dieta vegana de forma saudável.

A exclusão de produtos animais, requer que sejam inseridos produtos com altos teores  de proteínas, cereais, verduras, hortaliças e algumas frutas”, explica Daniela.

Com expectativa de vida cada vez maior, é natural a busca dos idosos por novas formas alimentares em uma fase da vida, na qual já apresentam alguma deficiência de nutrientes. Por isso, os cuidados precisam ser intensificados .

Risco dos alimentos processados

No mesmo ritmo de mudança dos hábitos alimentares dos brasileiros, cresce também a disponibilidade de restaurantes vegetarianos/veganos, além de produtos nos supermercados.

Natália Galdino fala sobre os perigos de se consumir alimentos veganos produzidos pela indústria alimentícia, em um processo de “gourmetização do veganismo”.

De repente, vegana!

Reaprender qualquer aspecto da vida, ainda que tão instintivo quanto o hábito de se alimentar, não é fácil.

A estudante Sara Silva, 22, viu sua rotina mudar completamente, após decidir aderir aos princípios da dieta vegana. Naquele momento, ela não imaginava que o estilo vegano envolvia tantas questões, para além da alimentação.

De início não tinha nenhum motivo, simplesmente decidi parar. Fui eliminando aos poucos os produtos de origem animal“, disse.

Uma das dificuldades relatadas por Sara foi encontrar restaurantes especializados ou com opções veganas, além do alto custo dos produtos orgânicos de origem vegetal.

Então, eu procurei adaptar receitas, fazendo uso do que me era acessível. substituindo os alimentos de origem animal e consumindo mais alimentos orgânicos, passei também a ingerir alimentos que desconhecia, como por exemplo, o Tofu (alimento feito à base de soja).”

Novos adeptos logo descobrem que ser vegano vai muito além de não consumir nada de origem animal. Os adeptos desse estilo de vida são pessoas engajadas em questões sociais e econômicas com prioridade ao meio ambiente a aos animais.

Sara ficou foi surpreendida por esta vertente ativista do veganismo.

A princípio imaginei que a alimentação seria minha única preocupação, mas descobri, estudando, que esse estilo de vida vegano vai além, tem o cuidado com os animais e principalmente com o meio ambiente.”

Atualmente, já mais acostumada ao cenário alimentar vegano e preocupada com as questões ambientais que o impacto alimentar tem causado no planeta, Sara Silva se dedica ao voluntariado na Mercy for Animals (MFA), organização não governamental, fundado em 1999, que visa combater, sistematicamente, o sofrimento e a exploração de animais para alimentação – em particular, as fazendas industriais, a aquicultura e a pesca.

Houve vários acontecimentos importantes durante esse caminho que me despertaram para esta causa. O conhecimento que adquirimos ao longo desse percurso de transição, nos faz pensar e passamos a nos preocupar com futuro do planeta”, relata a estudante.


Conheça a história do vegetarianismo e do veganismo


Saiba mais

**Esta reportagem foi produzida por alunos do oitavo período do Centro Universitário de Belo Horizonte, em parceria com o projeto Minas Faz Ciência. Orientação: Lorena Tárcia. 


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