Cientistas mineiros buscam soluções sustentáveis para substituir plástico e reduzir poluição

Saiba como você também pode contribuir com o meio ambiente ao reciclar e reaproveitar embalagens.

Por Gabrielle Rodrigues, Luciano Neto, Rafaela Zardini, Victor Veloso, Vitor Fernandes**

Em uma ida ao supermercado, ao passar pelos setores de hortifrúti, açougue e bebidas, nos deparamos com diversos tipos de embalagens. Mas, você sabia que tais embalagens demoram mais de três séculos para se decompor?

Para agravar ainda mais a situação, ao deixar o estabelecimento, as compras são transportadas em sacolas plásticas, o que completa o combo de materiais poluidores do nosso planeta. Em todo o mundo, são consumidas mais de cinco trilhões de sacolas por ano em todo o mundo.

Num mundo em que as pessoas buscam por sustentabilidade, esse cenário é assustador e tem preocupado os cientistas.

Por isso, já passou da hora de pensarmos na sustentabilidade ambiental. Diversos estudos e ações estão em curso para repensar o consumo desenfreado de produtos plásticos e a poluição no mundo gerada por seu descarte inadequado.

O tamanho do problema

Devido ao baixo custo e facilidade de produção, o plástico tradicional, como conhecemos, ainda é o mais utilizado pela indústria nas embalagens, ocasionando problemas ao meio ambiente.

Entre os danos, conforme aponta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) ,o plástico representa cerca de 80% de todo lixo dos oceanos.

Além disso, um dos estudos mais completos sobre o tema, realizado pelo físico Roland Geyer, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e publicado na revista Science Advances, estimou que 8,9 bilhões de toneladas de plásticos primários (ou virgens) e secundários (produzidos a partir de material reciclável), já foram fabricados desde meados do século passado, quando os plásticos começaram a ser produzidos em escala industrial.

Cerca de dois terços deste total, o correspondente a 6,3 bilhões de toneladas, viraram lixo, enquanto 2,6 bilhões de toneladas ainda estão em uso.

Para mudar este cenário, cientistas se mobilizam ao redor do mundo em busca de alternativas sustentáveis.

Iniciativas mineiras
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Uma destas propostas sustentáveis e inovadora está sendo desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), no Sul de Minas. O estudo permite ao consumidor levar para casa embalagens fabricadas a partir de fontes renováveis, além de mostrar ao cliente se o produto está ou não apto para o consumo.

Projetos como este estão sendo desenvolvidos em todo o mundo e são conhecidos como Smart Packaging (Embalagem Inteligente). Tais embalagens são utilizadas para prolongar a vida útil dos produtos, exibir informações sobre a qualidade e melhorar a segurança.

O mercado global de embalagens inteligentes deve chegar a cerca de 27 bilhões de dólares, até 2024, segundo artigo publicado na revista Science Direct.

Em Lavras, o processo segue os ritos científicos, com a participação de professores e alunos.

“Primeiro, são realizadas pesquisas em bases de dados científicos. Em seguida, são propostos experimentos para validar a teoria proposta e, após a execução de uma metodologia reprodutível e rígida, são obtidos dados e informações que nos auxiliam na conclusão de um dado problema”, explica o professor Juliano Elvis de Oliveira, do Departamento de Engenharia da UFLA, um dos responsáveis pela orientação dos estudantes no desenvolvimento do projeto.

A produção das embalagens sustentáveis utiliza como matéria-prima produtos facilmente encontrados na natureza.

“Trabalhamos com duas categorias principais de materiais: polímeros de origem natural (como amido, celulose, alginato, pectina, zeína, gelatina) e polímeros de origem sintética (poli(ácido lático)). Nos dois casos, os materiais poliméricos que trabalhamos são considerados biodegradáveis”, explica o professor.

A engenheira e pós-doutoranda em Química, Marys Lane Braga explica com mais detalhes o que são polímeros naturais e sintetizados e suas propriedades. 

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A embalagem desenvolvida pelos pesquisadores não tem prazo para ser comercializada, pois depende de recursos para continuidade das pesquisas.

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Espuma do bem

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Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a busca por soluções levou ao desenvolvimento de uma espuma capaz de reconhecer e absorver herbicidas dos alimentos e da água.

A espuma é de poliuretano, um tipo de matéria plástica utilizada para criar esponjas, espumas isolantes térmicas e acústicas, além de solados de calçados.

Segundo Marys Lane Braga,

“o trabalho foi a síntese de uma espuma de poliuretano com propriedades específicas para remover, microcontaminantes, que são os agrotóxicos”, explica.

O desafio para desenvolver a espuma foi desde o processo para a elaboração de um material sustentável de baixo custo, até as formas para que ele se tornasse eficaz na remoção apenas do contaminante.

“O material teria que ser recuperável para ser reutilizado em novos processo de absorção e ele ainda precisava apresentar uma elevada eficiência nesse processo de remoção dos pesticidas”, conta Marys.

A conclusão dos estudos apontou que a espuma sustentável idealizada pelos pesquisadora é capaz de retirar os agrotóxicos dos alimentos sem comprometer os nutrientes, com eficiência em torno de 70%.

Conheça o processo

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PET moído contra a corrosão

Essa foi a tese de doutorado de Elisângela Aparecida da Silva, realizada no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da UFMG, concluída em 2019. A pesquisadora estudou a possibilidade de aplicar o PET pós-consumo como revestimento anticorrosivo para aço.

O processo de moagem da garrafa já existia desde 1990. Porém, Elisângela percebeu que ele poderia ser melhorado ao reduzir o PET a partículas ainda menores. O material produzido poderia ter diversas aplicações, como a fabricação de tintas de melhor qualidade, por exemplo.

O foco do estudo, porém, estava na aplicação das partículas em superfícies de metal, formando uma camada que protege o aço e retarda o processo de corrosão do material.

Produção x reciclagem

O Brasil é um dos maiores produtores de plástico do mundo, de acordo com estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF, sigla em inglês), divulgado no ano passado. Ainda assim, é um dos que menos recicla. O país ocupa a 4º posição neste ranking, mas no quesito reciclagem, fica atrás de países que produzem bem menos.

Conforme aponta o relatório Solucionar a Poluição Plástica: Transparência e Responsabilização”, produzimos, no Brasil, 11.355.220 milhões de toneladas de lixo plástico por ano, o que dá uma média de 1 kg por brasileiro no período de uma semana. Porém, desse total, apenas 145.043 toneladas são recicladas, o que equivale a 1,2% do total.

 


Na comparação com outros países, o Brasil dá aula de como errar nesse quesito. Dos milhões de toneladas produzidas, reciclamos pouco mais de 1%. No Canadá, que produz quase metade, ou seja,  6.696.763, são reciclados 21,25% de todo o material plástico descartado.

Na lista dos países que mais produzem lixo plástico, o Brasil perde posto no pódio apenas para Estados Unidos, China e Índia. A reciclagem do plástico nestes países mostra que o Brasil é o que menos se preocupa com a causa. Na América do Norte, EUA recicla 34,60% do que produz; China, na Ásia, 21,92% e a Índia, também na Ásia, 5,73%.

Já com relação ao uso das sacolas plástica, mais de 50 países do mundo já adotaram a medida. 

Vamos melhorar este cenário?

O professor do departamento de engenharia da UFLA, Juliano Elvis alerta sobre a conscientização em relação ao uso do plástico, seu descarte correto e necessidade de soluções sustentáveis.

“É fundamental a educação ambiental para que a população faça o descarte adequado de seus resíduos (coleta seletiva, por exemplo). O descarte adequado se faz necessário mesmo para materiais poliméricos biodegradáveis. A redução consciente do uso de produtos descartáveis também é fundamental”, ressalta o pesquisador.

#Façasuaparte

Veja o que você pode fazer para contribuir com a redução do volume de plástico descartado no planeta.



Aprenda a reutilizar as garrafas PET

Outra maneira de colaborar com o meio ambiente é por meio da reutilização de objetos que você jogaria fora. As garrafas PET, por exemplo, podem ser transformadas em vassouras. Saiba como reciclar.


Um pouco de história

O que começou como uma experiência de adicionar enxofre à borracha bruta, acabou evoluindo até chegar à fabricação de materiais como o Nylon e a Lycra, presentes nas roupas que utilizamos no nosso dia-a-dia. Contamos mais sobre a evolução do plástico na timeline:

Após ler a reportagem, teste seu conhecimento sobre o plástico


Você se interessa pelo assunto? Então confira a dica abaixo.

Oceano de Plástico”: o documentário de aventura foi filmado em 20 diferentes regiões ao longo de quatro anos. Os exploradores Craig Leeson e Tanya Streeter, que têm uma ligação especial com o oceano, juntamente com uma equipe de cientistas internacionais, abordam a poluição pelo plástico, suas causas, consequências e soluções para o futuro.

 

**Esta reportagem foi produzida por alunos do oitavo período do Centro Universitário de Belo Horizonte, em parceria com o projeto Minas Faz Ciência. Orientação: Lorena Tárcia. 

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