MicrouniVersos | Incólumes


Publicado em 25/10/2019 às 08:00 | Por Maurício Guilherme Silva Jr

Dia a dia, ao primeiro arfar do crepúsculo, Helena segue, voluptuosa, ao encontro da companheira, a quem envolve com longos braços de seda.

Já com o rosto colado ao corpo da amiga, sussurra-lhe versos suaves, como a invocar os cem mil deuses matreiros da floresta profunda.

Desde o primeiro passo em solo amazônico, atracar-se à pele de sua ninfa fez com que aquela jovem bióloga se sentisse atada aos movimentos do Cosmos.

De sua diva, afinal, respinga a seiva a lhe nutrir as pulsões. De seus cantares ao vento infindo, brotam as juras de férteis limiares. Em suas raízes, fermenta-se a libido de ancestrais esperanças.

Dia após dia, portanto, pouco antes de a Lua se entregar aos tentáculos da noite, Helena avança, lasciva, aos cuidados da companheira, a quem enovela com sábios braços de Atenas.

Que o fogo arda ou as serras se desumanizem. Que a grana gargalhe ou a foice se afie. Que a indignidade se erga ou a vileza se alastre.

Qual seja a infâmia do tempo, nada há de lhe afrouxar os abraços. Mesmo que se revigore a baixeza dos homens, ela jamais se curvará.

Em meio às artes do caos ou aos gracejos da aurora, ainda há de nascer quem ousará lanhar a alma de sua amada Dinizia excelsa.

Afinal, de tão enlaçada ao ofegar daquela gigantesca árvore da mata – cujos 88 metros também a tornam senhora dos céus –, Helena aprendera, como poucos, a transmutar os próprios pés em raízes tão imaculadas quanto as de sua amiga, diva, ninfa e companheira.

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