Ciência divertida: inspirações na infância para construção do conhecimento

Quem disse que não dá para unir produção de conhecimento científico e diversão? A professora Ana Paula Bossler se dedica a levar mais alegria às aulas de universitários que estão se formando para serem educadores. Ela coordena um projeto de usos de animações com massinha de modelar e mapas conceituais no processo de ensino-aprendizagem em Ciências da Natureza, aplicado aos cursos de licenciatura da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Além dessa iniciativa, desenvolve pesquisas e outros projetos que trazem um pouco do universo lúdico infantil para dentro da sala de aula.

A pesquisadora trabalha com a noção de “ciência divertida” desde as pesquisas do doutorado, concluído 2009. Ana Paula Bossler é bióloga e muito preocupada em como a informação científica vai chegar às pessoas. “Eu tento falar de ciência resgatando componentes emotivos, por isso o resultado é divertimento”, explica.

[quote align=’left’]Stop motion: técnica de animação feita com recursos fotografia e edição. Cenas e são montadas com massinha de modelar e fotografadas. As fotos passam por montagem e edição – em computador ou celular – para virar imagem animada, com movimento[/quote]No projeto com massinhas, os estudantes de graduação fazem dentro da disciplina de Tecnologia vídeos com a técnica de stop motion sobre temáticas de ciência. “São produções curtas tentando representar algum fenômeno científico. Nessa tentativa, os estudantes não estão como consumidores de conteúdo, mas sim como produtores. Na hora de fazer, percebem o que sabem ou não sobre aquele tema. Muitos têm certeza de que dominam o assunto, mas na hora de fazer a massa de modelar descobrem o não conhecimento”, afirma a professora.

Ana Paula Bossler sempre adorou cinema, fez o mestrado e doutorado na área de educação e comunicação. Dessa forma, acabou aprendendo técnica de animações e levando isso para a própria sala de aula. “A massinha exige que nenhuma etapa seja pulada, ou seja, não pode haver omissão. Quando os estudantes percebem que há um gap cognitivo trabalhamos em cima disso”, explica.

Projeto de usos de animações com massinha de modelar e mapas conceituais no processo de ensino-aprendizagem em Ciências da Natureza. Foto: Arquivo da pesquisadora

Entendendo a noção de “ciência divertida”

De acordo com a professora, as pesquisas que ajuda na construção da noção de ciência divertida indicam que o divertimento não é só para criança. “Entendemos que o jardim de infância pode ser para vida toda. Há pesquisadores que acham um absurdo abrirmos mão do divertimento quando deixamos de ser crianças. Tenho pessoas que trabalham comigo e abraçam esta ideia”, explica.

Segundo ela, o mais importante é quando os envolvidos no projeto com massinha percebem as animações como forma de substituição às provas tradicionais na faculdade.

“Ao fazer animação o sujeito acaba revelando o que não saber, diferentemente dos modelos tradicionais de aferimento de aprendizagem. Ele faz isso no ambiente de descontração, com um afrouxamento cognitivo. O sujeito não sofre, porque na brincadeira gente pode erra sem ser punido, portanto lida com o erro de um jeito mais leve”, detalha Ana Paula Bossler.

A pesquisadora comenta que o trabalho com massinhas revela problemas, por exemplo, com as imagens de fenômenos da ciência representados em livros didáticos. “O livro de ciências omitem etapas da mitose e meiose. É difícil que o estudante aprenda por completo porque há muita omissão. Faltam capítulos na narrativa e os alunos ficam frustrados quando percebem”.

Desafios

Trabalhar com ciência divertida traz desafios, principalmente de entendimento no meio acadêmico. “Há uma resistência de algumas pessoas. Sou aquela que brinca com massinha de modelar, mas fico tranquila porque nos encontros internacionais há muita gente com interesse nesses métodos. O trabalho tem sido analisado do ponto de vista da estética e da criatividade, além da possibilidade de aprendizagem”, afirma. Para ela, o estudante se relaciona com a questão estética e encara o desafio de criar, o que é muito diferente de produzir um artigo científico.

[quote align=’right’]Prêmio Professor Rubens Murillo Marques: uma iniciativa da Fundação Carlos Chagas para valorizar e divulgar experiências educativas inovadoras[/quote]A pesquisadora coordena outros projetos como a construção de aviões de papel e a estruturação de casas na árvore para aprender ciência. O trabalho com a massinha resultou em um modelo educativo que foi premiado e que, segundo a coordenadora, precisa ser expandido. “Recebi o Prêmio Professor Rubens Murillo Marques que não é na área de pesquisa, mas sim do ensino. O modelo virou um livro bilíngue que foi lançado no Brasil e fora daqui”, conclui.

Aqueles que abraçam a ideia da ciência divertida têm participado de cursos de formação com a professora Ana Paula Bossler. As ideias já se espalharam para docentes dos cursos de medicina e engenharias.

“Estou permanentemente com o desafio de trabalhar a popularização da ciência. A intenção e tirar o glamour da ciência e aproximar do público em geral. Quando criamos atividades de extensão, vem muita gente da comunidade. Gostam de aprender ciência fazendo bolha de sabão ou avião de papel. É preciso usar um discurso mais erudito? Não é preciso e quase desaconselhável”.

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Luana Cruz

Doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.