Quando a humanidade migrou da tradição oral à cultura escrita, na Idade Média, os manuscritos passaram a materializar a história. A pena e o pincel misturavam caligrafia e pintura para guardar as expressões de sensibilidade de cada época. Assim, documentos ajudaram na construção de memória coletiva, ao funcionar como instrumentos de registro e obras de arte.

O prazer sensorial de reviver textos antigos e resgatar significados faz parte do trabalho de historiadores e restauradores. É o caso de Márcia Almada, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cujo gosto por papéis, livros, desenhos e pinturas transformou-se em profissão. Ela reúne, desde a década de 1980, os interesses intelectuais e as habilidades manuais, ao trabalhar com a conservação de documentos gráficos e pesquisar a tradição medieval dos manuscritos.

Em um dos trabalhos, a historiadora estudou a produção de documentos adornados no século XVIII, em Minas Gerais. Dedicou-se, pois, a dezenas de manuscritos, com o desafio de desenvolver e divulgar uma metodologia que valorize os aspectos materiais e visuais dessas produções. A missão é fazer com que os textos sejam vistos como fonte de informações preciosas para a pesquisa histórica, e não apenas no campo da História da Arte, mas, também, em abordagens sociais e econômicas.

“Os historiadores, em geral, estão preocupados apenas com o conteúdo do texto. Talvez porque não estejam preparados para isso. Muitas vezes, nem prestam atenção na largura das margens, na qualidade do papel, no local da assinatura, nas dobras, nos resíduos de selos e nas manchas de uso”, explica Márcia.

Grande historiador do livro, Robert Darnton sempre se preocupou com as questões materiais, com vistas a compreender os processos de produção e circulação dos textos, mas, segundo Márcia Almada, tal metodologia não fica evidente no estilo de escrita do autor. Já o historiador espanhol Fernando Souza Álvares deixa antever, na narrativa, a metodologia de análise que privilegia o visual e o material.

PALEOGRAFIA: Trata-se do estudo das antigas formas de escrita, o que inclui datação, decifração, origem e interpretação. É uma forma de decodificar normas de escrita para a compreensão dos usos e apropriações dos manuscritos, já que estão inseridos em dada prática históricaMárcia Almada preocupa-se em sistematizar uma metodologia de análise material que seja útil à pesquisa histórica.

A pesquisadora faz isso por meio do estudo dos processos de trabalho de historiadores do livro, principalmente, a partir de um olhar renovado para antigas disciplinas, como a paleografia.

“Desde que assumi a importância da questão material em minhas investigações, já exercitei a metodologia em várias análises. Os resultados sempre surpreendem”, afirma.

Calígrafos

O estudo com documentos ornados em Minas Gerais revelou traços únicos de três calígrafos que viveram no Estado, nos tempos em que a região ainda era chamada de “capitania”. Um dos escribas tinha um discípulo, também identificado durante a pesquisa de Márcia Almada. Com tal constatação, concluiu-se que o aprendizado e a atividade de adornar livros manuscritos poderia se desenvolver de forma privada, tal como o trabalho de outros artistas no período colonial.

Compromisso da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja Paroquial de Santo Antônio da Vila de São José, 1722. Instituição de Guarda: Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte. Imagem: arquivo da pesquisadora

Descobriu-se, ainda, que havia grande trânsito de informações entre a Europa e o interior da América portuguesa. Assim, os modelos de manuscritos ornamentais europeus não demoravam a ser aplicados em Minas Gerais para atender ao gosto refinado das elites, que se manifestou desde a formação das primeiras vilas.

“Também pude responder a uma curiosidade minha e de várias pessoas: quanto tempo era necessário para a ornamentação de um livro com cerca de 20 folhas? É claro que o tempo variava de acordo com a habilidade do executante, a presença de ajudantes e o esmero da pintura. Um dos meus calígrafos favoritos, porém, executava uma obra dessas em cerca de quatro meses”, conta a pesquisadora.

Outra curiosidade diz respeito aos materiais disponíveis para tal tipo de trabalho – o que inclui capas luxuosas – nas Minas setecentistas. A pesquisa mostrou que existiam encadernadores, papéis de alta qualidade, folhas metálicas, pigmentos e corantes naturais e sintéticos para abastecer os produtores de textos.

Caminhos entre adornos

A motivação de Márcia Almada para as pesquisas surgiu durante seus 15 anos de trabalhos como restauradora em Belo Horizonte. Nesse período, recuperou documentos, livros e obras de arte sobre papel de acervos em instituições públicas e privadas.

Um dos trabalhos mais desafiadores, segundo a pesquisadora, foi a implantação da política de preservação do acervo de obras raras da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na capital mineira, feito com financiamento público-privado, por meio das Leis de Incentivo à Cultura.

Equipe interdisciplinar trabalhou para conservar, pesquisar, organizar, catalogar e disponibilizar a coleção de obras raras. “Muitas experiências boas aconteceram ali. A mais importante foi a possibilidade de manusear todos aqueles livros. Na Luiz de Bessa, aprendi quase tudo o que sei sobre obras raras e antigas”, explica.

De acordo com a pesquisadora, a preservação do acervo bibliográfico e arquivístico é um trabalho permanente, que parece invisível para a maior parte da população. “Os documentos são, em geral, manuscritos e únicos. Eles são fontes para a pesquisa de nossas histórias. Não nos interessa apenas a informação, mas, também, a estrutura material por meio da qual a informação foi transmitida e perpetuada no tempo. Perdida uma folha, perde-se parte das fontes de reflexão sobre sociedades antigas”, afirma Márcia.

Depois da experiência na Biblioteca Pública Estadual, a historiadora voltou à universidade para pensar melhor a atividade de restauração e objetos de trabalho. Segundo a professora, uma das grandes paixões dos restauradores gráficos são os documentos pintados entre os séculos XVII e XIX. “Muitas irmandades e confrarias, as grandes patrocinadoras das artes durante o período colonial, mandavam adornar uma cópia de seus estatutos. Quando escolhi o tema para pesquisa de mestrado em História, não podia fugir desta paixão”.

“Os chamados livros de compromisso são os estatutos que regiam as irmandades, associações que assumiram uma importância indiscutível na organização da sociedade colonial. Continham normas que procuravam regular as condutas de congregados, bem como as principais atividades desenvolvidas: festas, procissões, assistência a irmãos doentes ou carentes e acompanhamentos fúnebres”, escreve a professora Márcia Almada em trecho de sua dissertação de mestrado. No mestrado, a historiadora trabalhou com 11 “livros de compromisso”, feitos por irmandades de Minas Gerais. Procurou entender os estilos e as técnicas de execução da pintura e da caligrafia. Ao final, várias perguntas ainda estavam por ser respondidas, e a pesquisadora ingressou no doutorado para continuar a investigação.

O trabalho se aprofundou na busca por compreender o papel da escrita adornada no século XVIII. Era preciso entender as formas de aprendizado e transmissão das técnicas, além do status social dos calígrafos e pintores de manuscritos. Márcia Almada esteve por um ano em Lisboa, em Portugal, para pesquisar documentos de interesse. Fez o registro fotográfico das obras, para estudá-las, e, assim, acumulou mais de duas mil fotografias de, aproximadamente, 50 livros manuscritos pintados.

Após o doutorado, a professora permaneceu a completar o inventário visual e o estudo material e iconográfico. Fez viagens ao interior de Minas Gerais, em busca de documentos pintados, com ênfase nos de irmandades, em arquivos públicos e paroquiais.

“Nem sempre fui bem atendida ou tive acesso aos textos. Mesmo assim, consegui aumentar o número de documentos inventariados, registrados e estudados. Uma das emoções mais fortes foi acessar os materiais de irmandades que estão sob a guarda do Arquivo Histórico da Arquidiocese de Mariana”, conta a historiadora. Ela já havia solicitado autorização para consultá-los dez anos antes, durante a pesquisa do mestrado, mas não teve sucesso à época. Com aquele acervo, conseguiu fechar pontas soltas da pesquisa.

Márcia fez um site com o acervo coletado e, assim que tiver autorização de todas as instituições, para publicação das imagens, fará a divulgação do banco de dados, com o intuito de que outros pesquisadores possam se beneficiar das informações.

Saiba também a opinião da pesquisadora Márcia Almada sobre a importância social da preservação dos manuscritos aqui na versão impressa da revista Minas Faz Ciência: