Em meio à crise de abastecimento que assola o país, é importante pensarmos em alternativas para a produção de alimentos, e a agricultura familiar é uma delas.

A extensão acadêmica se refere a ações junto à comunidade, como a disponibilização ao público externo do conhecimento adquirido com o ensino e a pesquisa desenvolvidos dentro das instituições. Ações extensionistas produzem um novo conhecimento a ser trabalhado e articulado entre pesquisadores e a sociedade. Sobre esse tema, uma pesquisa realizada na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) teve como objetivo treinar estudantes para ações de extensão junto a agricultores familiares.

Um dos escopos a serem desenvolvidos era a transferência de tecnologia para produção de sementes de feijão pelos agricultores familiares do município de Itabira.

Os pesquisadores, liderados pelo engenheiro agrônomo João Roberto de Mello Rodrigues, escolheram cultivares BRSMG Madrepérola e BRSMG Majestoso, ambas do grupo carioca, devido à resistência desses tipos de feijão às doenças e às pragas. Além disso, são feijões com boa capacidade produtiva e comercial.

Como funciona a transferência de tecnologia na agricultura?

Uma pequena propriedade agrícola pode ser altamente eficiente e render o bastante para o sustento de uma família. Mas, para aumentar esta eficiência, é necessário estar em contato com o que de mais novo há em tecnologia agropecuária.

Aí entram as técnicas de transferência de tecnologia: “Temos que levar a tecnologia desenvolvida em instituições como a Epamig até o agricultor familiar. Precisamos treinar, ensinar e adaptar a tecnologia à realidade desse produtor”, explica João Roberto.

Segundo o pesquisador, fixar o homem no campo é necessário, não apenas pelos problemas de grandes centros urbanos, sem planejamento e trabalho digno, mas também pela segurança alimentar do país.

“A produção familiar é grande responsável pela oferta de alimentos da mesa do brasileiro. Mas, além disso, do ponto de vista pessoal, é gratificante atuar neste nicho de pesquisa, ver o progresso dos agricultores sua satisfação e gratidão”, conta João.

Resultados da pesquisa

Segundo o pesquisador, a hipótese de fornecer cultivares resistentes às doenças com alta produção foi positiva e elevou a produtividade dos pequenos agricultores.

O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores também contribuiu para aumentar o retorno financeiro do pequeno produtor.

No entanto, a pesquisa em interface com a extensão ainda tem desafios a superar:

“Não conseguimos manter o agricultor de posse de uma semente de qualidade. Como pesquisador e responsável técnico, eu tinha a certeza que um campo de qualidade seria suficiente para produzir sementes de alta qualidade, mas aprendemos que o momento pós-colheita, ou seja, o armazenamento, é o gargalo do agricultor familiar na conservação de sua própria semente“.

Patentes e desenvolvimento tecnológico

No trabalho em Itabira, uma das novidades desenvolvidas foi a mistura de dois ingredientes ativos, inorgânicos, pouco tóxicos e pouco perigosos ao meio ambiente durante o plantio.

Tal processo resultou em uma nova estratégia tecnológica, habilitada para registro de patente, conforme explica o pesquisador:

“Observamos um resultado sinérgico no controle de pragas e doenças na semente. Diante do fato, tínhamos duas alternativas: pedir o depósito da patente e continuar os estudos ou continuar os estudos e, mais à frente, pedir a patente. Optamos pelo depósito da patente. Este momento foi de dúvidas, pois precisávamos aprofundar os estudos iniciais. Mas o medo do fracasso não impediu o desejo de chegar a um produto final bom para a agricultura familiar. Hoje, temos um projeto aprovado com recurso próprio da EPAMIG para continuarmos nossas pesquisas”.

Segundo João Roberto, para obter bons resultados em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, não basta ter boas ideias, mas ter uma carreira de peso, com vários trabalhos publicados e responsabilidade para chegar até o final da pesquisa.

O tema da agricultura familiar, no entanto, é um desafio:

“Trabalhar com agricultura familiar não favorece muitas publicações e este fato é limitante na aprovação de novos projetos. Contudo, continua o desafio de levar para agricultura familiar técnicas de produção e preservação de suas próprias sementes. A semente é o insumo mais importante da agricultura“, destaca.

Sobre o pesquisador

Formado em Agronomia na Universidade Federal de Lavras (UFLA), João Roberto foi agricultor em Cafelândia (SP) e, após 3 anos, retornou a Lavras (MG). Ao reencontrar seu professor Arnoldo Junqueira, decidiu fazer mestrado em fitotecnia na cultura do feijoeiro.

Em 1993, ele se tornou aluno de pós-graduação na UFLA, sendo orientado pelo professor Messias José Bastos de Andrade, com quem fez mestrado e doutorado.

“Na adolescência, aprendi o ditado de que o bom aluno é aquele que supera seu mestre. Escolhi três mestres para superar: o professor Arnoldo, o professor Messias e o professor Magno A. P. Ramalho. Com Arnoldo aprendi a vivência de campo; com Messias, a preocupação com a qualidade científica de meus trabalhos; e com Magno, o comprometimento e a tenacidade para realizá-los”, comenta o pesquisador.

João Roberto com os colegas pesquisadores Hudson Teixeira e Clenderson Corradi de Mattos Gonçalves.