Pintura colonial em Minas: entre o visível e o invisível

Detalhe do rosto da figura feminina, luz rasante, mostrando a textura da pintura, pinceladas, perdas da camada pictórica e riscos de vandalismo. Foto: Sílvio Luiz Rocha Vianna
Detalhe do rosto da figura feminina, luz rasante, mostrando a textura da pintura, pinceladas, perdas da camada pictórica e riscos de vandalismo. Foto: Sílvio Luiz Rocha Vianna

A produção artística das cidades históricas de Minas desperta o interesse não só dos milhares de visitantes que percorrem suas ruas, igrejas e museus como também de pesquisadores que buscam ir além da contemplação estética das obras.

Esse é o caso de Claudina Maria Dutra Moresi, química do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (CECOR), da Escola de Belas Artes da UFMG e coordenadora do projeto multidisciplinar “Pintores coloniais em Minas Gerais: evolução histórica, técnica e conservação”.

Para estudar a trajetória da pintura barroco/rococó́ em Minas Gerais, procedeu-se a uma pesquisa documental, técnica e estilística dos pintores e suas obras. Como nos conta a pesquisadora, inicialmente, foi feito um levantamento histórico, buscando trazer elementos não só da vida desses artistas, mas também técnicas empregadas, materiais utilizados, além de aspectos relacionados à tradição religiosa e aos elementos iconográficos. A partir da seleção de obras autênticas e representativas de cada pintor, foram realizadas análises técnicas para caracterização dos materiais artísticos, dos procedimentos de execução das obras, além de documentação científica e diagnóstico do estado de conservação das pinturas.

“A equipe realizou o trabalho de campo, ou seja, o exame das pinturas nas igrejas, a documentação científica e a remoção de microamostras, minúsculos fragmentos das pinturas, para análises físico-químicas nos laboratórios da UFMG. Fizemos também a documentação fotográfica de alguns livros de irmandades e um códice para a coleta de informações primárias importantes sobre a feitura das obras, nome de pintores e seus ajudantes, relação de materiais, entre outros”, explica.

Segundo a pesquisadora, foram estudados seis pintores que atuaram de 1733 até 1792, nas cidades de Cachoeira do Campo, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas e Santa Rita Durão. São eles: Antônio Rodrigues Belo, Manuel Rebelo e Souza, Bernardo Pires da Silva, João Batista de Figueiredo, José Gervásio de Souza Lobo e Manoel Ribeiro Rosa.

Ao analisar as obras, Claudina destaca a presença de pigmentos comuns dos séculos XVIII e XIX, com sobreposição de camadas (estratigrafia) diferenciada por motivos decorativos, época de execução, pinceladas e outros elementos característicos de cada pintor. “Os registros encontrados nas pinturas foram documentados e a grafia está sendo estudada para comprovar a autenticidade”, pontua.

Remoção de amostras pela química Claudina Moresi, da pintura de José Gervásio de Souza Lobo, do altar de Santo Antônio, Capela Nossa Senhora do Rosário, Ouro Preto. foto Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira
Remoção de amostras pela química Claudina Moresi da pintura de José Gervásio de Souza Lobo, do altar de Santo Antônio, Capela Nossa Senhora do Rosário, Ouro Preto. Foto: Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira

Para Cláudia Moresi, ao reunir pesquisadores de diferentes campos do conhecimento e que já possuíam longa atuação na área – como a professora Adalgisa Arantes Campos, do Departamento de História da FAFICH/UFMG, e o professor Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira, da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) -, foi possível proceder a análises diversas e complementares, promovendo discussões que buscavam interligar e comprovar as informações. Como um exemplo das dinâmicas multidisciplinares realizadas na pesquisa, tem-se a análise em detalhe da obra pelo conservador, em colaboração com químicos e físicos, tendo por base as informações fornecidas pelo historiador de arte. “Muitas vezes o fotógrafo e/ou radiologista da conservação também fornece suporte à análise”, completa.

“O desafio do cientista é caracterizar a intenção do artista, a sua pintura e o comportamento dos materiais artísticos. A ciência, por meio de exames, pode auxiliar a revelar a beleza de certos detalhes no visível e no invisível, permitindo reconstruir as etapas de elaboração das obras de arte. Os métodos científicos, a partir das possibilidades de interação do espectro eletromagnético com a matéria e outros métodos de análise, permitem caracterizar a maneira de pintar de atelieres e mestres. Portanto, essa análise conjunta da obra possibilita melhor entendimento da intenção do artista, do uso e comportamento dos materiais artísticos”, conclui.

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