Na sexta-feira, 2 de março, falamos sobre um projeto da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que trabalha os temas envelhecimento e memória em uma sociedade que evita a todo o custo a perda da juventude.

Mas a verdade é que a população brasileira está envelhecendo.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, até 2060, a população com 80 anos ou mais deve somar 19 milhões de pessoas. Considerado um país jovem por muitos anos, o Brasil passa a ter de enfrentar o aumento da expectativa de vida e os desafios de ter uma população idosa que quer viver mais e melhor.

Por isso, é preciso desenvolver pesquisas que contribuam para promover a valorização das pessoas mais velhas e garantir políticas para que elas envelheçam com qualidade. Para conhecer um pouco do cenário dessas pesquisas em Minas Gerais, conversamos com Luiza de Marilac de Souza, pesquisadora da Fundação João Pinheiro.

Luiza tem vasta experiência nas áreas de demografia, saúde, avaliação de políticas públicas e sexualidade. Seus principais temas estudado são o envelhecimento populacional, estatísticas vitais, avaliação da qualidade de dados, morbidade e insegurança alimentar.

Ela participa de projetos voltados para o Déficit Habitacional, Pesquisa por Amostra de Domicílios e do Plano de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha e teve um estudo financiado pela FAPEMIG sobre “Estimativas de Expectativa de Vida Saudável para a população de Minas Gerais“.

Confira a entrevista:

A pesquisadora Luiza de Marilac. Foto: Arquivo pessoal.

MFC: Como é seu trabalho na Fundação João Pinheiro?

Luiza de Marilac de Souza: Sou pesquisadora da Diretoria de Estatística e Informações e integro a equipe do Núcleo de Demografia, que é responsável pelas projeções populacionais do estado de Minas Gerais e também do projeto Déficit Habitacional.

Também atuo em projetos específicos, quase sempre sob demanda das Secretarias de Estado, como, por exemplo, o projeto Juventudes (SEDESE), no qual sou responsável pela dimensão “saúde”.

MFC: Pode falar um pouco sobre o projeto desenvolvido com apoio da FAP, sobre as estimativas de expectativa de vida saudável em MG, qual era seu objetivo com a investigação, você partiu de quais hipóteses de trabalho?

LMS: O meu projeto é parte de um projeto maior, que ainda está em andamento e tem financiamento da Demanda Universal, coordenado pela professora Mirela Castro Santos Camargos.

Este projeto utiliza diversas bases de dados para calcular as estimativas de vida. São estimativas obtidas por métodos indiretos. Trabalhei com a base de dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios- PAD/MG de 2013, realizada pela Fundação João Pinheiro, e com as Tábuas de Vida divulgadas pelo IBGE para o mesmo ano.

No meu trabalho, especificamente, optei por investigar as estimativas de vida livre de doenças de coluna, por ser está uma doença crônica, altamente incapacitante. Além disso, pessoalmente, convivo já há alguns anos com essa doença, que mantenho sob controle com reeducação postural e atividade física contínua.

Para obter as estimativas de Expectativa de Vida Saudável livre de doenças de coluna, utilizei um método estatístico que combina a experiência de mortalidade corrente da população mineira em 2013, obtida através das tábuas de vida, e as prevalências de doenças crônicas de coluna na população mineira no mesmo período.

MFC: Em relação aos resultados, pode sintetizar o que concluiu com esse projeto?

LMS: Os resultados são para o Estado como um todo. As conclusões indicam que, em 2013, uma mulher ao nascer poderia esperar viver em média 79,4 anos, sendo que 11,7 anos seriam vividos com doenças crônicas de coluna.

Já para os homens, a esperança de vida ao nascer era de 73,5 anos e a expectativa de vida com doenças crônicas de coluna seria de quase 9 anos.

MFC: Por que é importante desenvolver pesquisas demográficas sobre a saúde da população? Como avalia a situação do Estado nesse quesito?

LMS: Pesquisas são importantes fontes de informação para subsidiar a elaboração de políticas públicas direcionadas. Com os dados gerais do Estado, podemos atender as necessidades de cada região.

O estudo fornece subsídios para se estimar a demanda por cuidado e intervenções de saúde da população. Também aponta para a necessidade de se investir em prevenção para que a expectativa de vida possa ser ampliada.

MFC: Qual o cenário das políticas públicas de saúde em Minas Gerais? Em que podemos avançar?

LMS: Estamos vivendo mais, mas parte destes anos poderá ser vivido com algum tipo de incapacidade. Temos que pensar que as redes de apoio aos idosos estão cada vez menores. As famílias diminuíram em consequência do declínio acentuado da fecundidade das últimas décadas.

Faz-se necessário que políticas públicas específicas sejam elaboradas para dar suporte a este seguimento populacional. A população idosa cresce vertiginosamente e vai impactar todos os setores da sociedade, em especial, no âmbito da saúde.