Em abril de 2014, a pesquisadora japonesa Haruko Obokata foi acusada formalmente por má conduta e fabricação de dados. Em janeiro do mesmo ano, ela havia publicado dois artigos na revista Nature. A pesquisa detalhava uma forma de reprogramar células animais maduras a seu estado embrionário, permitindo que gerassem vários tipos de tecidos. Após a publicação, foram reportadas irregularidades em relação às informações apresentadas nos artigos. As acusações culminaram com o suicídio do mentor de Obokata e com sua saída do centro de pesquisa Riken Center for Developmental Biology. Esse é um dos casos recentes mais dramáticos de má conduta científica, que começaram a ganhar destaque na mídia a partir de 2010.

Em evento promovido pela empresa de tecnologia educacional Turnitin, pesquisadores e especialistas debateram ética nas universidades. A discussão aconteceu em Belo Horizonte, na última semana, no dia 3 de outubro. O professor Paulo Sérgio Lacerda Beirão, Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fapemig, foi um dos convidados. Ele falou sobre a importância da confiança e da verificação para a ciência. “Ética, integridade e honestidade são tão importantes quando o método científico. A confiança é o pilar da atividade de pesquisa, e quando é rompida, a própria base da atividade de pesquisa é afetada”, disse o pesquisador.

A má conduta acadêmica pode se configurar como plágio, fabricação ou falsificação de dados, imagens e resultados, inclusão ou exclusão de autores e conflito de interesses, entre outras situações.

O papel das agências e universidades

Segundo Paulo Sérgio Beirão, a fraude nos resultados de pesquisa tem um componente ético e um prático. Para o diretor da Fapemig, a fraude viola o compromisso do pesquisador com a verdade e pode levar a atrasos significativos no avanço da ciência. É ainda motivo de desperdício de recursos humanos e financeiros, com potencial de produzir riscos ao ambiente e às pessoas. “Além das responsabilidades éticas, as agências de fomento devem se responsabilizar pela melhor aplicação possível dos recursos disponíveis, e zelar pela credibilidade da ciência” afirmou Beirão.

Segundo Ana Paula Morales, pesquisadora associada do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, em 2011 agências de fomento passaram a divulgar manuais de ética, com medidas preventivas para evitar a má conduta científica. Morales abriu o debate do encontro Ética na Universidade: Reflexões e Proposições. Ela discutiu ações de universidades de renome internacionais, que adotam políticas para educação, prevenção e investigação do plágio. “O plágio gera perda de credibilidade, de reputação e de produtividade, além de processos legais onerosos”, ponderou. Segundo a pesquisadora, no Brasil, as universidades a agências passaram recentemente a cobrar políticas mais claras de integridade acadêmica.

Cuidados com o plágio

De acordo com Laercio Dona, diretor da Turnitin Brasil, e um dos palestrantes do evento, plágio não é só um problema de desonestidade. Entre 117 milhões de documentos submetidos no sistema da empresa, 81% apresentavam similaridades, e 34% altos índices de similaridades, que podem ou não indicar plágio.

“O que vemos é que o plágio não é necessariamente resultado de má fé, mas há uma dificuldade, principalmente por parte dos estudantes, de entender o que é plágio”, explicou Ana Paula Morales. Segundo a pesquisadora, as causas podem variar entre: incapacidade de gerenciar o próprio tempo, dificuldade com a escrita, desconhecimento das regras de citação, baixo poder argumentativo e falta de estímulo ao pensamento crítico.

Ondas da Ciência

Nesse Ondas da Ciência, o professor Paulo Sérgio Lacerda Beirão, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fapemig, discute ética na ciência e fala sobre boas práticas de pesquisa.