Com mais de 18 anos de experiência docente na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), a Física Adriana Gomes Dickman dedica-se à pesquisa em formação de professores para o ensino de cegos e pessoas com baixa visão.

Seu foco principal é na formação e aprendizagem de pessoas cegas e com baixa visão. Desde 2005, ela atua no Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, âmbito no qual passou a orientar projetos e dissertações voltados ao desenvolvimento de soluções pedagógicas para a realidade das salas de aula em que estudantes cegos estão inseridos.

Na entrevista abaixo, ela fala sobre o desafio da formação de professores que vão lidar com a inclusão de pessoas com deficiência nas salas de aula. Confira:

Minas Faz Ciência: Como começou sua atuação em pesquisa sobre aprendizagem de pessoas com deficiência visual?

A professora Adriana Dickman, na PUC-MG. Foto: Arquivo Pessoal

Adriana Gomes Dickman: Os alunos de graduação em Física começaram a me procurar porque queriam fazer monografia sobre o processo de ensino e aprendizagem de física de alunos surdos. Posteriormente, minha experiência foi construída na pesquisa, porque não estou na sala de aula com os alunos com necessidades educacionais especiais. Eram alunos meus, da graduação e do mestrado, que buscavam responder questões de pesquisa nesse tema e isso me motivou a trabalhar na formação de professores que vão lidar com esses desafios na sala de aula.

Primeiro, orientei algumas monografias e projetos de iniciação científica sobre alunos surdos, depois, sobre deficiência visual, tema que se tornou mais comum nas orientações de mestrado. Como é um mestrado profissional, os alunos – que são também professores – têm que desenvolver um produto didático, um material que vai contribuir para a vivência deles na profissão. E eles sempre querem desenvolver um recurso didático diferente e eficiente para o estudante cego.

MFC: Como é o processo de aprendizado de quem tem deficiência visual?

É muito raro não ter a pegada visual no ensino de física, biologia, geografia: os livros têm muitas ilustrações, figuras e mapas. Quando o estudante cego vai em busca de informação, ele enfrenta uma barreira, e o papel do professor é levar a ele esse conhecimento de outra forma.

AGD: Há vários estudos sobre o tema, mas é certo que um aluno cego tem a mesma capacidade cognitiva que um aluno que enxerga, que a gente chama de vidente. Não há qualquer diferença no aprendizado. A falta de visão não afeta a capacidade cognitiva, mas há uma diferença significativa na obtenção de informação.

A física, especificamente, e as ciências, de modo geral, usam demais os recursos visuais no ensino. Se você pensar nas aulas, são todas muito visuais, com base em desenhos no quadro, esquemas que precisam ser visualizados para serem entendidos.

Representação da reflexão de ondas com massinha de modelar. Reprodução.

Representação da reflexão de ondas com massinha de modelar. Reprodução.

 

O que se usa hoje são os recursos táteis, como maquetes e figuras em alto relevo, ou o canal sonoro, informações que são repassadas pela escuta. O que nós já percebemos é que existe uma diferença no tempo que um estudante cego leva para absorver essa informação, geralmente, ele demora mais nesse processo de tatear o material, manusear, entender o que ele quer dizer.

Quando desenvolvemos um material tátil, é preciso desenvolver uma linguagem também, que indique ao aluno que “isso representa aquilo”. Você tem que mostrar a ele, pelo tato, o que é cada coisa que ele está tocando. Então, primeiro é preciso haver um trabalho de familiarização do estudante com esse material para só depois você entrar em conceitos de Física, por exemplo.

MFC: Como as escolas e os professores têm acesso a esses materiais táteis? Vocês desenvolvem modelos no âmbito da pós-graduação, por exemplo?

AGD: A disponibilidade desse material é um grande desafio. Parte da nossa pesquisa consiste em entrevistar professores para saber quais são os obstáculos, as dificuldades que ele sente ao ter um estudante cego em sala de aula. Ele percebe que tem que desenvolver um material especial, mas ele não tem preparo para isso. Poucas universidades têm cursos voltados para a prática de ensino para alunos com deficiência na formação docente.

É raro e são poucos os lugares que formam os professores, ainda nas licenciaturas, para saber o que fazer diante de um aluno cego em sala de aula. Muitas vezes, dependem da boa vontade do professor e da criatividade.Tenho relatos de professores que nas aulas de óptica usam macarrão de espessuras diferentes para fazer os raios de luz com diferentes tipos de frequência, por exemplo. É uma improvisação que parte da vontade do professor.

No Mestrado, o que fazemos é orientar os professores que têm interesse na área a desenvolver maquetes e modelos que possam depois ser reproduzidos pelos demais professores em sala de aula. Tais atividades estão vinculadas a projetos interdisciplinares desenvolvidos pelo grupo de pesquisa Inclusão, Educação e Ensino de Ciências e Matemática do CNPq. A gente tem uma ideia, elabora um conteúdo, testa com estudantes cegos e depois disponibiliza no site do Programa, junto às dissertações, para que outros professores da escola básica possam se apropriar disso.

Representação artesanal de uma célula e suas estruturas.

MFC: Física e Matemática costumam ser o ‘bicho-papão’ do ensino para grande parte dos alunos, independente de terem algum tipo de deficiência. Essa dificuldade é maior para quem é cego?

 AGD: Essa dificuldade tem origem em diversos problemas, em um ensino muito baseado em fórmulas, na deficiência da formação em matemática… É um caldo grosso de problemas e parte da missão do nosso programa de mestrado é também tentar diagnosticar e resolver essas questões.

Alunos cegos, em especial, não têm uma dificuldade específica para aprender física e matemática. Isso vai depender mais do conteúdo que está sendo passado.

Já fizemos entrevistas com professores e alunos cegos e eles afirmam gostar de matemática, de cinemática, que é uma parte da física. Os alunos fazem contas de cabeça, os professores ficam impressionados, eles têm facilidade de memorização, pela própria condição, que faz com que sem apoiem em outros meios de raciocínio. Se ele faz a conta muito rápido, o problema não é, necessariamente, a matemática, mas saber se eles estão entendendo, realmente, a que aquele cálculo faz referência, o que é o conceito. Essa é a mesma dúvida que a gente tem com o estudante vidente.

Por que eles não entendem? Porque um dos primeiros exemplos que usamos para ensinar óptica é: “pense na imagem que você vê no espelho”. E eles não sabem do que a gente está falando. O que é espelho para um cego? Um aluno que enxerga, ou que já enxergou em algum momento da vida, entende essa ideia de imagem, de espelho, de reflexo. Mas, para o cego de nascença isso não funciona, ele não tem essa abstração, não sabe do que você está falando.Os conteúdos de física que não dependem tanto do visual dão aos alunos cegos condições de desenvolvimento até melhores do que os alunos videntes. O problema é mais grave quando o aspecto visual é preponderante, como a óptica.

MFC: Como solucionar essa barreira?

AGD: Um de nossos alunos de mestrado fez um trabalho muito bom nesse sentido. Ele trabalhava no pré-vestibular da UFMG com 10 pessoas cegas e preparou esses alunos com maquetes, feitas de base de madeira com fios de lã que tinham bolinhas na ponta, representando a luz, o raio se propagando em direção à bolinha – que é o que a gente faz desenhando no quadro, com setas, simbolizando a propagação do raio de luz.

Ao introduzir essas imagens táteis para os alunos, mostrando propriedades da óptica geométrica, foi incrível ver que os alunos entenderam tão bem os conceitos que perguntaram se aquilo estava relacionado com o eclipse que eles ouviam falar, mas não podiam ver. E tem tudo a ver! Então, o questionamento dos próprios alunos cegos levou à construção de outra maquete para explicar o que é o eclipse, com linhas de lã, mas dá para trabalhar com ferramentas mais versáteis, como massinha de modelar, que podem ser reaproveitadas.

Aluno usando um material feito de barbantes, pregos e miçangas em uma tábua
para representar um raio de luz à esquerda e um eclipse à direita.

Tivemos relatos de pessoas que enxergam que afirmaram ter entendido muito melhor os conceitos de física depois que tiveram contato com esse material tátil do que com o ensino tradicional de esquemas e desenhos no quadro. Isso demonstra que mesmo para quem enxerga a ferramenta tátil é muito potente como estratégia pedagógica no ensino de física.

Não é um trabalho exclusivo para cegos, pois muitas vezes quem enxerga vê, mas não entende. Ao construir maquetes como essas, alunos que enxergam e que não enxergam trabalham juntos e isso é essencial para o entrosamento e o aprendizado.

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