Aedes aegypti herói?


Publicado em 03/01/2017 às 09:00 | Por Amanda Jurno

Texto de Tatiana Nepomuceno
Ilustração de capa de Felipe Bueno

mosquito_da_dengue_by_lukemacielO mosquitinho é danado, tem hábitos preferencialmente diurnos e adora água limpa. Por isso, muitos dizem ser difícil controlar a reprodução do Aedes aegypti e o avanço da dengue, da chikungunya e da zika no Brasil e no mundo. Outros cogitam ser impossível exterminá-lo e se revelam descrentes quanto à erradicação das doenças transmitidas pelo “danadinho”.

Nada disso, contudo, desanima certos pesquisadores. Prova disso é o fato de que, a todo momento, surgem pesquisas inovadoras, com possíveis soluções para o controle epidemiológico de tais enfermidades – que, além de onerar os cofres públicos, representam sofrimento e dor às vítimas.

Que o digam os dados divulgados pelo último Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, publicado no dia 29 de junho deste ano. Segundo o documento,

de janeiro a junho de 2016, registraram-se mais de 518 mil prováveis casos de dengue, dentre os quais há 163 óbitos. Trata-se de mais que o triplo de ocorrências, em relação a 2015. Isso sem falar na zika, com 4.344 confirmações por critério clínico epidemiológico, e na chikungunya, com 45 casos autóctones, isto é, contraídos em Minas Gerais.

Uma dieta para o mosquito

Neste contexto,mosquito-dengue o estudante de doutorado Heverton Dutra, ligado ao Centro de Pesquisas René Rachou da Fiocruz de Minas Gerais, investe em estudo pioneiro de apoio ao combate à zika, à dengue e à chikungunya. Trata-se de “dieta” artificial para mosquitos, que dispensa sangue humano e animal.

A proposta alternativa baseia-se em quatro pilares:

  1. uma fonte proteica de origem animal, de fácil acesso;
  2. uma solução salina que simule as condições fisiológicas e bioquímicas do sangue humano;
  3. um fagoestimulante químico – no caso, a adenosina trifosfato (ATP), amplamente descrita na literatura como elemento capaz de estimular as fêmeas dos mosquitos a se alimentar de determinada solução;
  4. e uma base lipídica para garantir o desenvolvimento adequado dos ovos.

A tudo isso, há que se adicionar micronutrientes comumente presentes no sangue humano.

“Como o projeto ainda está engatinhando, alguns de nossos componentes podem ser alterados no futuro, de forma que, semanalmente, possamos aperfeiçoar cada um dos elementos para ficar o mais próximo possível do sangue humano”, explica Dutra.

A pesquisa é apoiada pela FAPEMIG, por meio do Auxílio Universal Complementar (AUC), que prevê investimento de mais de R$ 200 mil.

Dieta balanceada

A ideia do estudo surgiu da necessidade de criar formas alternativas para a alimentação das fêmeas do Ae. aegypti, de maneira a manter os componentes nutricionais do sangue humano e as colônias para estudos. “Como todas as fêmeas de Ae. aegypti precisam de sangue para produzir ovos e dar origem a seus descendentes, necessitamos, semanalmente, de considerável volume para manter as futuras gerações”, explica Dutra.

O pesquisador relata, aliás, que já passou por dificuldades, em função da falta de estoque de sangue humano para os estudos. A criação de uma fonte nutricional alternativa compatível, sem problema de contaminação por agente infeccioso externo, cobriria a demanda e evitaria o risco de trabalhar com material biológico. Além disso, dá-se continuidade às pesquisas que necessitam de tal tipo de alimento para progredir.

É o caso dos estudos realizados por meio do programa internacional “Eliminar a dengue: desafio Brasil”, trazido ao Brasil, em 2012, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A iniciativa conta com participação do pesquisador Luciano Moreira, líder do projeto no País e orientador de Heverton no doutorado.

wolbachiaNa pesquisa, a protagonista é a bactéria Wolbachia, que, quando inserida no Aedes aegypti, reduz a capacidade
de o mosquito, criado em laboratório, transmitir os vírus da dengue, da chikungunya e da zika.

“O Aedes com Wolbachia só é capaz de produzir ovos, de forma satisfatória, caso alimentado com sangue humano, já que o de outros vertebrados, como camundongos e galinhas, não possui os nutrientes necessários para que o mosquito com a Wolbachia produza ovos saudáveis”, explica Heverton Dutra.

Quanto maior o número de mosquitos contendo a bactéria no ambiente, portanto, maior a probabilidade de controle das enfermidades transmitidas pelo “Aedes do mal”. Daí a importância da “dieta” balanceada dos mosquitinhos. “O Aedes criado em laboratório só se reproduz bem quando alimentado corretamente, ou seja, com os nutrientes contidos no sangue humano”, complementa Luciano.

O estudo com a Wolbachia

Estudo desenvolvido pelo pesquisador, que faz parte do programa internacional, usou linhagens do vírus zika e foi publicado no dia 4 de maio, pela revista científica Cell Host & Microbe. Para a realização da pesquisa, utilizaram-se quatro grupos de Aedes aegypti: duas gaiolas continham mosquitos com Wolbachia, criados em laboratório pela equipe do projeto, e, em outras duas, havia insetos sem a bactéria, coletados no Rio de Janeiro.

Todos eles foram alimentados com sangue humano, que continham duas linhagens do vírus zika circulantes no Brasil: metade das gaiolas recebeu material sanguíneo com uma cepa isolada em São Paulo, e a outra, com cepa originária de Pernambuco. Dentre os experimentos realizados pelos pesquisadores, com ambos os isolados virais, os cientistas coletaram amostras de saliva de 20 Aedes aegypti com Wolbachia e de 20 sem a bactéria – e que receberam sangue infectado com a cepa isolada de Pernambuco. Percebeu-se que 55% da saliva dos mosquitos contendo Wolbachia não apresentavam positividade para o vírus da zika.

Em outro experimento, após duas semanas de infecção com o vírus zika, os pesquisadores coletaram amostras de saliva de dez mosquitos com Wolbachia e de dez sem a bactéria. A saliva de cada inseto foi injetada em mosquitos de campo, sem Wolbachia, para verificar se eles se infectariam. Os testes mostraram que nenhum dos que receberam a saliva de mosquitos com Wolbachia fora contaminado pelo vírus da zikamfc-67; por outro lado, 85% dos mosquitos com a saliva do grupo sem a bactéria acabaram infectados.

O que isso significa? Que o mosquito Aedes aegypti com a “bactéria protagonista” também tem potencial para ser usado no controle da transmissão da zika, além da dengue e da chikungunya, conforme já comprovado por outros estudos. Segundo o coordenador do projeto no Brasil, Luciano Moreira, reuniões estão sendo realizadas com o Ministério da Saúde, juntamente a financiadores estrangeiros, para expandir as pesquisas e desenvolver estudos para melhorar o controle epidemiológico.

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