M-learning para a terceira idade

Imagem meramente ilustrativa
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O envelhecimento da população mundial é um fenômeno demográfico que desafia as sociedades contemporâneas. No Brasil, a população idosa cresce continuamente. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), extraídos da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios (Pnad), realizada em 2012, o número de pessoas com mais de 60 anos correspondia a 12,6% da população, ou seja, quase 25 milhões de indivíduos.

Com idades entre 60 e 65 anos, os brasileiros iniciam o processo de aposentadoria, fato que provoca mudanças significativas em seus estilos de vida. Trata-se de alterações que vão da provável diminuição da renda à perda de inserção social, devido às dificuldades do sujeito em se manter atualizado. Sendo assim, é preciso pensar na promoção da qualidade de vida, para a população idosa, de maneira bastante ampla.

Dentre os principais fatores que podem promover essa melhoria, destaca-se a oportunidade de o idoso conseguir manter-se atualizado, seja para trabalhar, seja para acompanhar conversas à mesa com a família.

Coordenado pela professora Lucila Ishitani, do Instituto de Ciências Exatas e Informática (ICEI) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), e com o apoio da FAPEMIG, o projeto “M-learning para usuários com restrições decorrentes da idade” busca levar opções de atualização de conhecimento ao público idoso, a partir do desenvolvimento e da avaliação de objetos de aprendizagem em dispositivos móveis.

De acordo com a pesquisadora, o aumento da longevidade tem levado muitos idosos a buscar formas de permanecer em atividade. Nesse sentido, assim como as opções de cursos presenciais, o ensino a distância surge como interessante opção, em função da flexibilidade – de horários e ferramentas – oferecida ao aluno.

No entanto, se, até o final da década de 1990, os computadores eram os dispositivos mais emblemáticos do ensino virtual, a partir do século XXI, as mídias móveis, com destaque para os celulares e smartphones, entram em cena. A partir da digitalização e da ampliação da capacidade de processamento de dados, os recursos computacionais dos aparelhos têm se ampliado. Em função disso, o projeto da PUC Minas buscou conhecer e aproveitar melhor as potencialidades de tais dispositivos no contexto do mobile learning, ou m-learning (aprendizagem móvel, em tradução livre).

Segundo Lucila Ishitani, o idoso de hoje, durante grande parte de sua vida, não lidou muito com os computadores – e menos ainda com os celulares inteligentes. Contudo, de acordo com resultados apontados pela pesquisa, o fato de não possuírem contato prévio não se revela impeditivo para a abertura ao uso dos aparelhos. “Apesar de não terem muita intimidade com a tecnologia, no momento em tinham acesso, encantavam-se com as inúmeras possibilidades de uso”, afirma, ao lembrar que o foco nos dispositivos móveis deveu-se ao fato de o investimento em computadores mostrar-se alto, tanto do ponto de vista financeiro, quanto do esforço necessário à aprendizagem para utilização.

“A realidade é que muita gente não vai comprar um computador. Foi por isso que pensamos nos dispositivos móveis. Eles até podem ter custo elevado, mas é possível ter um smartphone de valor inferior. Além disso, o dispositivo oferece menos resistência por estar ligado a um objeto que o indivíduo já usa, o telefone.”, destaca Lucila.

Ouça a entrevista da pesquisadora Lucila Ishitani para o Ondas da Ciência.

Sensibilidade(s)

Vencida a barreira à escolha dos dispositivos móveis como forma de “ambiente” para busca de informações, é preciso pensar na experiência do usuário durante seu uso. A experiência é agradável? O idoso sente-se confortável e motivado? Com base em tais questões, para além da preocupação com o conteúdo, a pesquisa apontou a necessidade de se pensar interfaces que atendessem às características do público mais velho. (Clique aqui e leia artigo publicado sobre o tema.)

Dentre as inúmeras questões e pré-requisitos a serem considerados, a pesquisadora destaca o tamanho da letra, o contraste de cor e o tempo de resposta, preocupações que se relacionam à diminuição das habilidades motoras, cognitivas e perceptivas resultantes do avanço da idade. Além disso, há questões referentes à própria experiência de uso de equipamentos tecnológicos.

Como exemplo, Lucila destaca as experiências realizadas, no projeto, com as telas touchscreen. A maior parte dos idosos pesquisados – e representativos de uma geração – não teve muito contato com a referida tecnologia, estando mais acostumados ao uso de botões. Ao experimentarem as telas sensíveis ao toque, os participantes da pesquisa acabavam por exercer pressão maior que a necessária, interferindo na interface. “Dependendo do aplicativo, eles não conseguem interagir, porque o equipamento não responde a determinado tipo de pressão. Por isso, os aplicativos desenvolvidos têm que ser pensados, por exemplo, para aceitar toques mais fortes”, conclui.

Outro interessante resultado obtido pela pesquisa refere-se à questão da dinâmica da atividade. A coordenadora destaca que a marcação de tempo para a realização de ações é algo que estressa bastante os idosos. Sendo assim, é recomendável criar iniciativas que não apresentem limitação de tempo para sua execução.

Apesar de os resultados serem bastante expressivos, permitindo a caracterização do público em relação ao uso dos dispositivos, a pesquisadora destaca o fato de esse segmento apresentar grande heterogeneidade.

“É uma faixa de idade muito grande, abarcada sob uma denominação única: terceira idade. Há pessoas com 75 anos que estão ótimas e outras que já têm a saúde fragilizada. Dessa forma, durante o desenvolvimento e a avaliação dos objetos de aprendizagem, procuramos trabalhar com as características mais gerais e representativas desse público”, pontua.

Ao avaliar o projeto e seus desdobramentos, a pesquisadora destaca que um dos principais méritos da pesquisa foi confirmar a necessidade de se investir em estudos e iniciativas com foco nos mais velhos. “Vimos que é fundamental oferecer a esse público opções de novos aprendizados. Por que não continuar a aprender? A aposentadoria não pode significar o fim. Há muita vida pela frente”, conclui.

 

Texto originalmente publicado na edição nº 57 da Minas Faz Ciência.

Clique aqui e acesse a revista na íntegra.

 

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