A Esperança Vermelha

Já imaginou um mundo onde a medicina não enfrentasse problemas quanto a estoques de sangue por falta de doadores? Pois essa é a previsão da ciência para os próximos anos. Uma substância em desenvolvimento promete cumprir um trabalho que, até o momento, apenas sangue de origem humana poderia realizar.

“Sangue é vida”. Todos já ouvimos essa frase em algum momento. Faz todo o sentido. Para que um corpo possa manifestar a vida, ele necessita que oxigênio e energia sejam conduzidos a cada um de seus sistemas componentes. O sangue é o responsável por realizar este imprescindível trabalho. Opera no organismo humano como uma espécie de rio comprometido a transportar em sua correnteza o elixir da vitalidade. Penetra cada órgão e tecido com a missão de entregar a energia base para fomento da existência. Sem ele, a vida como conhecemos não seria possível.

Entretanto, estamos sujeitos a perda de sangue por algum ferimento ou a contrair doenças que comprometam a produção ou a qualidade do tecido (sim, o sangue é um tecido em estado líquido). O sangue perdido ou danificado precisa de reposição imediata para que o organismo possa reestabelecer sua vivacidade. A esperança de uma pessoa nessas condições depende de um gesto nobre e humano: a doação de sangue. Em outras palavras, trata-se de dividir com um próximo (ou não) uma extensão de nossa própria vida.

Em hospitais de todo o mundo, um grande problema é enfrentado: serviços de emergência médica geralmente não possuem quantidades satisfatórias da substância em estoque. Basta uma rápida busca na Internet sobre o assunto para se comprovar o fato. Os principais fatores dessa carência são o baixo índice de doadores, obstáculos para conservação e manutenção do sangue humano, contaminação por doenças e incompatibilidade entre grupos sanguíneos.

O que fazer com a falta de suprimentos de sangue frente a situações de emergências? Este problema ficou sem solução por muitos anos e assombrou o mundo da medicina, mas cientistas alegam ter encontrado a resposta e afirmam que, em pouco tempo, este obstáculo estará vencido.

A invenção que promete mudar essa realidade recebeu o nome de HBOC201 (sigla em inglês para Hemoglobin-Based Oxygen-Carrying, ou Transporte de Oxigênio Embasado em Hemoglobina). A fórmula elaborada a partir do plasma sanguíneo de bovinos polimerizado (aditivado com substâncias plásticas que podem reproduzir algumas propriedades essenciais do sangue) foi desenvolvida após décadas de estudos voltados para a criação de um substituto artificial do sangue humano.

A composição ganhou notoriedade em 2011, quando apresentou sucesso ao ser administrada em Tamara Coackley, vítima de um acidente automotivo ocorrido em Melbourne, na Austrália. A vítima, Testemunha de Jeová, não poderia receber sangue de outro humano conforme determina sua crença e, muito ferida, necessitava de transfusão o quanto antes. Ela teve sua vida salva graças ao triunfo do invento.

O HBOC201 injetou vida em Tamara e esperança na comunidade médica. O incidente – que foi a primeira experiência com humanos – transformou em realidade algo que, até então, parecia coisa de cinema. Apesar do sucesso conquistado, os compostos sintéticos atuais apresentam ainda algumas imperfeições que precisam e estão sendo melhoradas. Os sintéticos desenvolvidos até o momento conseguem realizar satisfatoriamente o transporte do oxigênio, mas não são capazes de transportar diversos outros nutrientes indispensáveis à manutenção da vida, tal como o sangue orgânico faz, e pesquisas estão sendo realizadas nesse sentido.

Cientistas voltaram suas atenções para o desenvolvimento de sangue sintético a partir de células tronco devido à capacidade que possuem de produzir glóbulos vermelhos com o mesmo conteúdo e morfologia que as células produzidas naturalmente. Além disso, apresentam uma importante característica que os substitutos atuais não possuem: um tempo de vida útil muito próximo ao das células do sangue natural.  O composto sintético será estruturado para apresentar a mesma adaptação do grupo sanguíneo tipo O-negativo, denominado “doador universal” por ser compatível com 98% da humanidade. Vale lembrar que, no meio natural, apenas cerca de 7% das pessoas o produzem.

Mentores do projeto acreditam na possibilidade de tornar viável a produção do sangue artificial em larga escala e sua aplicação em hospitais de todo o mundo antes do ano 2015. Porém, enquanto essa batalha ainda não está vencida, devemos nos lembrar do quão grandiosa é essa atitude tão simples, e encontrarmos tempo em nossa agenda para fazermos a doação de sangue.

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