Da arte de cuidar dos animais

Quando seu bicho de estimação fica doente, o que você costuma fazer? Depois de chamar o adulto mais próximo, vem sempre aquela dúvida crucial, né?! Quem poderá nos ajudar em momento tão triste e delicado?! Afinal, quero meu amiguinho beeeeeeeem saudável e alegre!

O herói de horas tão tensas atende pelo nome de médico veterinário. Sim! É ele quem sabe cuidar e tratar, com carinho e técnica, de nosso amigo peludo (ou, claro, cheio de penas, escamas etc.).

Para entender melhor o dia a dia daqueles que se formam para cuidar de um montão de tipos de bichos – pequeninos e grandões –, conversamos com Leonardo Boscoli Lara, professor de produção e nutrição de animais de estimação e silvestres no departamento de Zootecnia da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG.

A entrevista está muito legal! Veja só…

O que é, exatamente, a Medicina Veterinária?

O ofício da Medicina Veterinária é tudo! Ela começou com médicos que, durante as guerras, gostavam muito dos cavalos, animais que acabavam aposentados, por não conseguir mais trabalhar na cavalaria. Alguns médicos começaram a cuidar dos cavalos velhos. (Daí, aliás, vem o termo “veter”, que significa “velho”.)

Isso acabou se transferindo a outros animais. Há quatro grandes ramos na área: a Veterinária que cuida do animal; a preventiva, que previne doenças; a de produção, que produz os animais, por exemplo, para consumo de ovos e de carne. Neste caso, a gente deixa a vida deles bem boa, até o momento em que são abatidos, para servir de alimento. Sempre devemos ter enorme agradecimento em relação eles. Além, é claro, de cuidar muito bem dos animais, até que sejam abatidos.

Por fim, há a Medicina Veterinária ligada ao controle da alimentação. Falo do profissional que cuida dos alimentos animais a serem consumidos pelo homem. As carnes que comemos só são muito seguras por causa de veterinários, que estão no frigorífico e em processos anteriores. Quase todos os veterinários seguem o que fala nosso padroeiro, São Francisco de Assis: “É dando que se recebe” ou “Onde estejam as trevas, que eu leve a luz”. Podemos, afinal, levar conhecimento às pessoas, assim como temos a capacidade de ajudá-las a respeitar os animais.

Acho muito interessante que nos aproximemos dos animais, para mostrar, a eles, como somos próximos e semelhantes. Temos particularidades, mas somos semelhantes, sim! Que as crianças aprendam bastante com os bichos – principalmente, que saibam cuidar deles e do ecossistema. E que o mundo se transforme num lugar melhor. As coisas estão melhorando, mas podem melhorar ainda mais!

O que significa cuidar dos animais? Como ter noção do que eles sentem?

O médico pergunta ao ser humano o que ele sente. Mas o homem também pode mentir, não é verdade? Os animais não falam nossa língua, mas se comunicam. Tudo é tranquilo, e não há dificuldade na linguagem. O corpo dos animais é muito parecido com o nosso: “Veja, a mucosa dele está pálida. Por isso, deve estar doendo!”. Quando a gente está com dor de barriga, ficamos encolhidos. O cachorro, por exemplo, também. Pelo comportamento dos animais, conseguimos saber o que eles sentem. Quando está feliz, o cachorro abana o rabo. O ser humano, não! Afinal, ele nem tem rabo… Dá para saber o que o animal quer. É só prestar um pouquinho de atenção.

Temos três esferas de cuidado com os bichos. Na primeira delas, cuidamos de UM animal. E fazemos de tudo para que ele fique bem! Em outra esfera, cuidamos de uma população: um rebanho de mil bovinos; um galpão com cem mil frangos; uma matilha com 60 cães. Nesses casos, cada animal tem importância menor, em relação à população, e usamos um deles como representante de todos. Por fim, há a esfera – ainda maior – do ecossistema, quando cuidamos de várias populações, com vários animais ao mesmo tempo. Em um tanque com tilápias e camarões, por exemplo, existem duas espécies no mesmo lugar.

Imagine, então, se uma população vira praga! Precisaremos diminuir esta população. O valor desse animal será negativo, pois teremos que retirá-lo daquele lugar. A eutanásia, quando matamos o animal, é nossa última opção – mas é permitida por lei, sempre em prol de nosso objetivo, tanto a favor do animal quanto da população ou do ecossistema. Sempre conseguimos cuidar dos bichos numa boa, e com imensa satisfação!

Quais as principais diferenças do trabalho com pequenos e grandes animais?

A rotina de quem se dedica a pequenos animais é mais urbana, e, geralmente, ocorre nas clínicas. Os donos chegarão com os animais para que cuidemos. Ou, então, você pode cuidar dos bichos nas casas das pessoas. Também há aqueles que cuidarão de canis, ou de criatórios de passarinhos. O profissional vai aos criatórios, para olhar como está o plantel, colher sangue, conferir a alimentação etc.

Os grandes animais, por sua vez, ficam em fazendas ou em zoológicos. Há veterinários que, muitas vezes, moram nesses lugares. Os profissionais de Medicina Veterinária preventiva ficarão por conta de vacinar, vermifugar, fazer inseminação artificial etc. Além disso, analisarão calendários, para fazer uma agenda, semana a semana. E saberão como cuidar da população como um todo.

Quem estuda nutrição de bois ou cavalos precisa bolar tudo, também: como estão os capins e as forragens, nos tempos de chuva e nas secas? É preciso programar e escalonar a produção, de modo a produzir comida suficiente para os períodos secos. Ao mesmo tempo, a comida não pode sobrar! É preciso conhecimento para conseguir fazer isso.

No caso da clínica dos grandes animais, também há muito por fazer, a exemplo das cirurgias. Nos zoológicos, normalmente, um pequeno animal vai ao centro cirúrgico, mas, se for um bicho grande, não há como transportá-lo. Por isso, levam-se todos os equipamentos à jaula.

Como é o dia a dia de um médico veterinário?

Normalmente, os médicos veterinários trabalham muito e ganham pouco. (Risos!) Afinal, todo dono de animal acha que ficamos por conta do bicho dele… Enquanto as outras pessoas trabalham das 8h às 18h, nós, a partir das 19h – quando vamos fazer aquele lanchinho! –, acabamos por receber o telefonema de algum proprietário de cachorro, preocupado com as condições do amiguinho dele.

Todos estão preocupados com os bichos, assim como o veterinário. Por isso, acabamos atendendo. Com o médico de pessoas, ao contrário, é preciso marcar consulta. No caso da Veterinária, não. Por vezes, ficamos preocupados e, a qualquer hora, atendemos ao chamado. Se o profissional investir em horários certinhos, provavelmente, terá menos clientes, pois, hoje, as pessoas estão muito ansiosas. A vida desse veterinário, porém, ficará mais fácil. Ele vai pode estudar e tratar o animal com calma.

Não atendo fora do horário de jeito nenhum, mas explico tudo direitinho às pessoas. Tenho poucos clientes, mas eles são ótimos! Consigo viver bem, e estou muito feliz! É muito bom que as crianças saibam disso: é importante separar os tempos. Vejo crianças que, hoje, ficam muito ao telefone, por exemplo, e nem veem o tempo passar, sem fazer as coisas que querem – mas, sim, que a internet quer.

São muito bacanas os casos com os quais trabalho! Lido mais com animais silvestres, como aves e jabutis. Às vezes, o animal chega muito mal de saúde, magriiiinho, mas, com o passar dos meses, melhora muito. Ah! Outra de minhas especialidades é a Nutrição.

Nas outras esferas da Veterinária, a dedicação é a mesma. No caso de um veterinário responsável por um frigorífico, ele já acorda interessado em ir ao trabalho, para ver que toda a carne sairá em segurança, para consumo das pessoas. O principal, para um veterinário, é saber que valorizar os animais, o ecossistema, o tempo de trabalho, e, claro, as horas de lazer!

Sobre o(a) autor(a)

Maurício Guilherme Silva Jr

Maurício Guilherme Silva Jr

Jornalista, professor, doutor em literatura e apreciador, dia a dia, dos versos de Manoel de Barros: “Poesia é voar fora da asa”.
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