Histórias cruzadas: trajetória pessoal e profissional de professoras negras

Pesquisadora decidiu investigar como egressas cotistas do curso de Pedagogia, da Uemg de Belo Horizonte, construíram-se como professoras

Poetiza e feminista Audre Lordem, inspiração para mutias professoras. Foto: Wikimedia

 “Não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular”. A frase é da poetiza e feminista Audre Lorde. Natural de Nova York, onde veio ao mundo em 1934, ela bem poderia ter nascido nas periferias brasileiras. Negra, lésbica, mãe e guerreira, a autora representa mulheres que batalham pelo direito de o povo pobre e afrodescendente não apenas existir, mas viver com segurança, igualdade, saúde física e mental.

Todo esse árduo trabalho, porém, começa pela educação. O acesso de negras e negros ao ensino superior no Brasil se revela conquista fundamental, segundo Kelly da Silva, diretora da Unidade Ubá da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg). A pesquisadora decidiu investigar como egressas cotistas do curso de Pedagogia, da Uemg de Belo Horizonte, construíram-se como professoras, além de verificar como lidam com a temática da interseccionalidade entre gênero e raça em sala de aula.

A partir de tais questões, surgiu a pesquisa “Trajetória de professoras negras: educação, gênero e raça”. Segundo a diretora, pensar em como os profissionais atuam contra a discriminação racial, nos espaços em que atuam, nos leva a compreender a importância das políticas públicas. “Além disso, a presença de profissionais negras em instituições de ensino estimula as crianças e os adolescentes negros a conquistar espaços”, destaca.

Desenvolvida no programa de pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a tese foi orientada pelo professor Anderson Ferrari, e nasceu da necessidade de Kelly em visibilizar as trajetórias de mulheres negras e professoras. “Sabia que não era fácil ser mulher negra. As cobranças são sempre maiores, mas o reconhecimento quase não existe”, conta.

Entrevistas

Inicialmente, a ideia do estudo era conhecer como se constituíram as histórias dos movimentos “feminista” e “feminista negro”. “Em seguida, gostaria de estabelecer relação com possíveis construções que as vinculam ao processo de desenvolvimento de políticas públicas para cotas, de modo posterior aos estudos sobre gênero e raça e à composição de identidades e subjetividades”, explica.

Durante o estudo, a professora foi além, ao buscar conhecer a história de suas companheiras, por meio da realização de entrevistas semiestruturadas. Segundo Kelly da Silva, em tal método, as perguntas são organizadas em listas. “No entanto, a entrevista tem certa flexibilidade, e novas questões surgem. A pessoa pode falar sobre o tema sem respostas ou condições prefixadas”, conta.

Por meio das entrevistas, a pesquisadora verifica especificidades pessoais e profissionais das professoras. “Por diferentes caminhos, elas se aproximam, da luta pelo acesso ao ensino superior ao enfrentamento ao racismo e à profissão de docente. Além disso, todas encontraram, na Uemg, não apenas uma rede de aprendizagem, mas de embate ao preconceito”, destaca.

As narrativas das professoras são fortes e, em vários momentos, fizeram com que Silva se lembrasse de sua própria história. “Sou uma mulher negra, filha de mãe solteira, pois meu pai a abandonou ao engravidar. Tenho um irmão mais velho, que foi até a quarta série escolar e uma irmã gêmea. Hoje, sou professora universitária, mas, aos dez anos, já dividia o tempo entre a escola e as faxinas”, lembra, ao contar que, apesar de gostar muito do espaço escolar, principalmente das professoras, sua mãe sempre dizia que também era preciso aprender os afazeres domésticos, para conseguir algum dinheiro: “Atuei como empregada doméstica e cozinheira até os 21 anos, quando fui aprovada na Universidade Federal de Viçosa (UFV), para o curso de Pedagogia”.

Para a diretora, outro ponto marcante do estudo são os inúmeros traços do racismo estrutural nas falas das entrevistadas, mesmo ao descrever experiências cotidianas. “Não dizemos que outras mulheres não passam por dificuldades, nem negamos o genocídio de nossos jovens negros. O que queremos dizer é que a cor da pele e a diferença de gênero impõem uma luta singular às mulheres negras. Nesse sentido, destacamos a importância do termo interseccionalidade”, explica.

Saiba mais sobre o longo caminho percorrido por essas professoras negras. Leia na revista Minas Faz Ciência, edição 82.

Tuany Alves

Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), com pós-graduação em Jornalismo em Ambientes Digitais. Produz e gerencia conteúdo nas mídias sociais e colabora com os sites e as revista do projeto Minas Faz Ciência. Entre seus campos de pesquisa estão gênero e ciência.

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