A urgência da arte em espaços de ciência e tecnologia

Curador da exposição ComCiência defende a ressignificação dos processos artísticos e poéticos na sociedade

Esboço da obra Código das minúcias (2019), do artista Jack Holmer, parte da Exposição CoMciência 2019

Alexandre Milagres

Mestre em Comunicação Social/UFMG e curador do Edital CoMciência: ocupação em Arte Ciência e Tecnologia

Viver uma pandemia global e construir um mundo pós covid-19 nos traz a necessidade de dois movimentos essenciais: primeiro, temos que aceitar que uma parte do que produzimos até agora como ciência, tecnologia e como prática social não foi capaz de nos proteger ou mesmo de impedir o que estamos vivendo. Falhamos, mas isso não quer dizer que temos que desistir. Esse entendimento nos leva ao segundo movimento: precisamos mudar os caminhos da sociedade que construímos, quebrar padrões não apenas de comportamento, mas também da forma como estruturamos e direcionamos as pesquisas e de como investimos e montamos equipes para o desenvolvimento tecnológico.

Os desafios que nos são impostos pelo momento pedem para irmos além de um certo modelo de pensamento, estruturado em disciplinas e áreas do conhecimento, sendo urgente revermos o lugar das artes, da criatividade, da experimentação e da figura do artista na construção do conhecimento e na proposição de caminhos a serem trilhados. Precisamos ampliar nosso olhar sobre o tempo presente para além dos automatismos, perceber outras nuances, conexões imprevisíveis e proposições que apenas o pensamento poético pode trazer como forma de transformarmos a realidade.

Mas não estamos muito longe disso. Pensemos, por um instante, sobre qual o motivo do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) interessar-se por ter artistas residentes em seus laboratórios por meio do projeto “Arts at CERN”, trabalhando junto à equipe do LHC, maior acelerador de partículas do mundo? O que levou a Comissão Europeia a propor a criação do S+T+ARS, uma premiação internacional de projetos híbridos entre Arte, Ciência e Tecnologias? O que dizer do STARLab da Samsung e do TeamLAB da Panasonic, com equipes formadas não apenas por programadores, engenheiros, cientistas e matemáticos, mas também por artistas, designers, animadores e arquitetos? O que tem atraído as atenções de grandes empresas como Google, Microsoft, Allianz, Ford, Gucci, Nike, Facebokk, Toyota, Kapersky, entre tantas outras, a investirem e patrocinarem instituições, fundações, núcleos universitários, prêmios ou mesmo criarem seus próprios ArtLabs, cujas produções nascem da convivência entre Arte, Ciência e Tecnologia?

Alexandre Milagres, curador do edital ComCiência. Foto: Maria Fonseca

A questão aqui não está na obra de arte e nas exposições como um fim, mas antes, na necessidade de ressignificarmos os processos artísticos e poéticos na sociedade, e dos frutos que conquistamos quando convivemos com pessoas que trazem esse deslocamento de olhar. Mónica Bello, curadora e chefe de artes do CERN, afirma, em entrevista ao portal LeTemps:

O CERN deixa muito espaço para criatividade e colaboração. Todo mundo está procurando pistas ainda não experimentadas, novas ideias, enquanto é orientado pela ciência e espera trazer coisas que não existiam antes.

Essa constatação nos serve de base para entendermos o crescimento de ações ao redor do mundo conectando Arte, Ciência e Tecnologia. O Prêmio S+T+ARS é um desses exemplos, lançado em 2015, e que se consolidou em meio ao surgimento mundial de comunidades de colaborações híbridas entre pesquisadores, desenvolvedores de tecnologia e artistas. A curadora Francisca Bria, membro do Júri do prêmio em 2018, afirma:

(…)encaramos o artista como um refletor crítico: para onde vamos com tudo isso? Os artistas podem abrir um novo campo ou uma nova percepção do uso da tecnologia que a própria indústria ou o governo não podem pensar.

Uma nova percepção pede um grau de experimentação, de criatividade, de crítica, para trazer à tona opções “fora da caixa”. Precisamos quebrar padrões para ser possível construir novas estruturas e formas de pensar.

Padrões podem ser atraentes, mas, das sagas antigas à tecnologia moderna, eles são mais interessantes, úteis e reveladores quando contrariados.

Essas palavras são do professor e físico de materiais e de matéria condensada Anthony Phillips, em artigo publicado na Aeon Magazine, retomando um dos conceitos-chave para os estudos atuais de física, a quebra de simetrias, e do como algumas obras de arte parecem operar com a mesma base. Phillips acrescenta:

Em um certo nível de abstração, tanto na ciência quanto na arte, a quebra de simetria cria o espaço conceitual para que coisas interessantes aconteçam.

 

Edital CoMciência

Projetos híbridos entre arte, ciência e tecnologia são também uma marca de nossa produção nacional. Temos uma forte produção artística e acadêmica desde os anos 1970, com nomes reconhecidos internacionalmente como Diana Domingues e Eduardo Kac. Laboratórios interdisciplinares surgem a cada ano espalhados em diversas universidades, abertos às proposições poéticas e artísticas. Vê-se uma presença constante de artigos e apresentações brasileiras em publicações, simpósios e congressos internacionais como Leonardo/ISAST, ISEA e Siggraph, fruto da produção de artistas e pesquisadores que atuam de forma integrada, colaborativa e propositiva.

Com o intuito de valorizar essa produção, em 2019 fiz parte da criação, juntamente ao curador Tadeus Mucelli, de um dos principais prêmios atuais em arte, ciência e tecnologia, o Edital CoMciência, realizado pelo MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, e os resultados alcançados só reforçam a latência da produção contemporânea. Em sua primeira edição, foram inscritas 252 propostas, com mais de 80% de propostas nacionais e 75% de propostas inéditas. Agora em 2020, mesmo em meio aos desafios financeiros das instituições culturais, realizamos nossa segunda chamada aberta do CoMciência, com o tema “Cristais do Tempo: emergências nas fissuras do presente”, que alcançou reconhecimento internacional, com 269 projetos inscritos, provenientes de seis continentes e 28 países, mas também se fortaleceu nacionalmente, recebendo propostas de 17 estados, de todas as regiões do País.

Como bem apontado no texto curatorial que dá base ao tema de 2020 do Edital:

Em momentos de instabilidade, devemos voltar nossas atenções aos artistas e cientistas na potência de suas criações. Como um “cristal do tempo” da física teórica, suas propostas e projetos são capazes de quebrar as simetrias entre passado, presente e futuro. Vê-se, então, o futuro não apenas o resultado de um presente a se efetuar, mas antes, entendido como algo que nos guia de longe, desequilibrando rotinas, habitando a imaginação, atraindo as forças do desejo humano do que pretende vir a ser. Precisamos fomentar as conjunções entre arte, ciência e tecnologia, protagonistas no que se refere a recolher, monitorar e analisar dados, buscando um entendimento mais profundo que nos oriente. Observar essas criações para além dos limites do contexto de sua produção, para as fissuras que produzem e se encontram no tempo presente. Cabe a todos nós discutir as condições perplexas de nosso presente.

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