Pandemia, cortina de fumaça e destruição do meio ambiente brasileiro

Em artigo, pesquisadores associam mau uso dos recursos naturais à disseminação da covid-19

*Artigo de Geraldo Wilson Fernandes e Sérvio Ribeiro

Em abril de 2020, a pandemia de covid-19 estava se ampliando e adentrando o território brasileiro. Havia pouco monitoramento no Brasil e muitas informações contraditórias entre os poderes. Porém, um modelo matemático desenvolvido por instituições de pesquisa do Brasil e México mostrava a fragilidade de Manaus, um forte intermediador de voos nacionais e, portanto, porta de entrada para a covid-19 na região Amazônica.

Como previsto e alertado às autoridades, e antes que muitas cidades do Sudeste, Manaus estava tomada pela doença. Com o temor da disseminação para as regiões remotas e indígenas da Amazônia, o Ibama atua sobre garimpeiros ilegais, fonte histórica e notória das mais diversas contaminações de indígenas no país. Porém, dois dias após uma grande emissora mostrar ações do Ibama para retirar garimpeiros de terras indígenas no Pará, e grileiros declarando estarem invadindo estimulados pelas falas do governo federal, o ministro do Meio Ambiente exonerou o diretor do Ibama.

Nada mais se pode pensar, a não ser que, aproveitando-se dos infortúnios e desgraça que o mundo passa devido à pandemia causada pelo SARS-CoV 2, e em meio a conflitos causados por líderes incapazes de governar para seu povo, o Brasil dá mais um grande passo para destruir seu próprio País.

A exemplo dos EUA, o governo federal brasileiro tem atuado de maneira inapropriada, negando as orientações da ciência quanto à disseminação da doença, e resultando na morte de centenas dos cidadãos brasileiros e grandes impactos econômicos num país cambaleante.

Não é apenas quanto à covid-19 e nem é de agora que o Brasil tem negado seguir orientações estritas da ciência, atuando em detrimento de nosso patrimônio natural e nossa biossegurança. Especificamente, para o atual Ministério do Meio Ambiente, questões climáticas e de sustentabilidade ligadas a agricultura e pecuária na Amazônia parecem não existir. Além da demissão em momento de crise do diretor do Ibama, foi demitido, semanas antes, um analista que atuava contra madeireiras ilegais.

Assim, em meio à cortina de fumaça que vivemos por conta da pandemia e mortes, o Ministério do Meio Ambiente amplia a estratégia para conduzir ao desmatamento na Amazônia! Seria isto possível, diante do fato de que esta pandemia está justamente relacionada ao mal uso dos recursos naturais, ao tráfico de animais silvestres? O fato é que o surgimento de pandemias zoonóticas, como a que nos paralisa hoje o mundo afora, são todas relacionadas ao desmatamento e falta de regulação no uso de terras e recursos naturais em regiões cobertas de florestas tropicais.

Em meio à cortina de fumaça que vivemos por conta da pandemia e mortes, o Ministério do Meio Ambiente amplia a estratégia para conduzir ao desmatamento na Amazônia! Seria isto possível, diante do fato de que esta pandemia está justamente relacionada ao mau uso dos recursos naturais, ao tráfico de animais silvestres?

Sobre esse assunto que todos falam e poucos explicam, é preciso dizer que não é se alimentar de caça que resulta nas doenças zoonóticas, mas o alimentar-se de animais doentes, no geral, aqueles sob extremo estresse. As condições fisiológicas de animais capturados em ambientes sob intensa transformação (desmatamento, mineração, etc.), somadas às condições degradantes que seguem sua captura, aumentam a chance de uma enorme carga viral se acumular no mesmo, que cria o ambiente para o spill-over, ou seja, o salto de hospedeiros, com a infecção de humanos.

Em meio à pobreza que se segue à exploração industrial de florestas tropicais, muitas pessoas que migram para esses lugares em busca de riqueza nada conseguem, e ainda precisam de comer caça como uma fonte barata de proteína. Para aqueles que vêm espaço para exercitarem seu xenofobismo contra os chineses, na tentativa de responsabilizá-los, devemos lembrar que as ações do governo brasileiro nos põem na posição de sermos os próximos fornecedores de uma pandemia global.  Nesse caso, seríamos legitimamente culpados mesmo.

Estudos do Instituto Evandro Chagas, de 1954 a 2016, obtiveram 17 mil cepas virais de 210 diferentes tipos de arbovírus (do inglês arthropod born vírus, vírus transmitidos por mosquitos, por exemplo), sendo 175 isolados pela primeira vez no Brasil e 115 novos vírus para a ciência.

Nomes como oropouche, tacaiuma, guamá, catu, oriboca, são totalmente estranhos para a maioria dos brasileiros, mas de uma hora para a outra podem estar no seu dia a dia, se o desmatamento errado se der na presença da pessoa errada, e uma nova virose se disseminar desse ponto. É o que podemos falar do Mayaro, endêmico da região Amazônica, e que resultou em várias epidemias desde 1955, a maioria relacionadas a ciclos de colonização e destruição: ciclos das rodovias da ditadura militar e da mineração da década de 80 e 90, e ressurge em vários locais da Amazônia, a partir de 2008. A questão agora está em “como desenvolver a Amazônia”, e a resposta é “sem desmatamento e dentro da lei”!

De acordo com a agência de notícias Reuters, milhares de toneladas de madeira saíram da Amazônia com destino a outros portos internacionais. Isto porque, agora, o carregamento de madeira não precisa mais de autorização do Ibama para exportação. Isto significa uma forte e brutal ação para que a Amazônia seja ainda mais impactada. A exploração ilegal de madeira e destruição da floresta já era enorme e de difícil controle, mas com a ajuda do governo pode ficar insustentável.

A essa deve-se somar ainda o aumento de mineração em terras indígenas, ilegais, mas protegidas pela completa falta de fiscalização, dado que ações exemplares do Ibama têm sido, recorrentemente, punidas. Estas flexibilizações são criminosas no nosso entendimento, por representarem, além da destruição da floresta e sua biodiversidade, um risco enorme de ocorrência de novas doenças.

A floresta intacta oferece diversos serviços ecossistêmicos, da preservação dos ciclos das águas, fonte de medicamentos e cosméticos, estabilidade climática e, agora já reconhecido, o de manter doenças sob controle . A exploração ilegal da Amazônia nos impede, dentre outras coisas, de pleitear créditos no mercado internacional de carbono, e abre frente para que os recursos mais valorosos que temos, invés de reverter riqueza a todos, sejam também roubados. Falamos da biopirataria.

Enquanto isso, os cientistas brasileiros são muitas vezes atrapalhados em suas pesquisas relacionadas ao meio ambiente, tanto por burocracia quanto por cortes inaceitáveis, ou naquelas que buscam curar diferentes doenças ou encontrar novas substâncias. O processo longo requer proteção intelectual e garantias em campo, e que podem se perder por completo em processos de exploração irracional e clandestina de madeira e minérios, além de abrirem portas para os recursos genéticos escoarem ilegalmente para fora do país.

Diante de tais fatos, o Brasil abre mão de lucrar de forma duradoura e benéfica à humanidade para o benefício de poucos já ricos. Mesmo sob os grandes riscos de sofrermos duras sanções econômicas mundiais por colocarmos à prova a saúde e o clima mundiais.

* Geraldo Wilson Fernandes é professor titular de Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais e professor visitante na Universidad de Sevilla, Espanha.

* Sérvio Ribeiro é professor titular e chefe do Laboratório de Ecohealth da Universidade Federal de Ouro Preto (Nupeb-Ufop) e professor visitante do Departamento de Parasitologia do ICB-UFMG.

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