Conheça pesquisa que revela mundo emocional de cães

Questionário com parâmetros psicométricos ajuda a estudar a sensibilidade de cães a recompensas e aversivos

Imagem ilustrativa. Foto: Pixabay

Entusiasmado, cheio de energia, deprimido, ansioso ou corajoso: como é o temperamento do seu cachorro? Uma pesquisa recente publicada na Scientific Reports reforçou a importância de compreender o mundo emocional de cães em diferentes culturas. A professora Angélica Vasconcellos, do Programa de Pós-graduação em Biologia de Vertebrados da PUC Minas, participou de um estudo multinacional, com pesquisadores do Brasil e do Reino Unido, que resultou nessa publicação.

Os pesquisadores usaram um questionário desenvolvido no Reino Unido, com parâmetros psicométricos bem estabelecidos, para estudar a sensibilidade de cães a recompensas (tendência a alta energia/vitalidade versus depressão) e a aversivos (tendência a medo/ansiedade versus coragem/calma). Pela primeira vez, esse questionário foi adaptado para o português sendo possível avaliar o temperamento considerando rotinas de cães na realidade de famílias brasileiras.

Os estudos revelaram que, no Brasil, cães de tutoras mulheres são mais medrosos que cães de homens. O mesmo se aplica aos cachorros castrados e aos que são os únicos bichos da casa.

“Imaginamos que os cães que vivem sem a companhia de outros animais se sentem mais inseguros ao sair na rua. Sobre os castrados, é uma questão hormonal que já foi revelada por outros estudos. No caso dos cães de mulheres, há pesquisas que mostram que elas são mais cuidadosas se comparadas aos homens. Talvez por ser tratado com um esmero maior, o animal pode se assustar com ruídos e outras coisas das quais é habitualmente protegido”, detalha Angélica Vasconcellos.

A pesquisa também mostra que cães mais velhos apresentam menor energia e risco maior de desenvolver depressão. Já os mais entusiasmados e cheios de energia são os cães que vivem dentro de casa. Os animais sem raça definida são, ao mesmo tempo, mais medrosos e entusiasmados do que os cães de raça.

Imagem ilustrativa. Foto: Pixabay

Métodos para descobrir mundo emocional de cães

A adaptação do questionário foi fundamental para resultados mais condizentes com a cultura brasileira. Uma questão usada na versão em inglês pergunta sobre o comportamento do cão no jardim. Esse, no entanto, não é um questionamento importante na versão brasileira, porque a permanência de cães em casas com jardins é menos comum no Brasil que no Reino Unido.

“Questionários são bastante usados nesse tipo de pesquisa, mas a ferramenta que era usada havia sido construída para população britânica. Não é recomendável apenas traduzir porque há diferenças culturais que podem influenciar os  resultados”, explica Angélica Vasconcellos.

Ela faz parte do grupo de cinco pesquisadores que trabalharam na versão brasileira dos questionários. “Fizemos a tradução, depois uma etapa de retrotradução, que é a partir da versão em português recriar o texto em inglês. Depois comparamos as versões e fizemos ajustes. Por fim , testamos o questionário final em uma amostra de população brasileira”. Mais de 2 mil pessoas responderam ao questionário online.

Sobre as pesquisa na área de comportamento de cães, a professora afirma que não é uma linha muito explorada no Brasil. “É uma área internacionalmente tradicional. Há um grupo grande de pesquisadores na Áustria, outros na Hungria e nos Estados Unidos. Esperamos que pesquisadores usem o questionário aqui no Brasil”, afirma.

Segundo Angélica Vasconcellos, o questionário pode servir também para profissionais que trabalham com animais. “Será útil para outras pessoas que precisam avaliar o comportamento canino como adestradores ou veterinários. Afinal, avaliar temperamento dos cães pode propiciar uma interação mais adequada com eles e, assim, melhorar a qualidade de vida desses animais.

Luana Cruz

Mãe de gêmeos, doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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