MicrouniVersos | O contador de histórias

Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Hermes nasceu para construir fatos. 

Desde sempre, transforma nuvens em teorias, olhares em paradigmas, gestos em “rupturas epistemológicas”. Vive, afinal, de inquirir conhecimento alheio: entrevista seres humanos, repletos de consciência e saber especializado, à cata de respostas – e contradições. 

Na segunda, desfia o queijo matinal junto ao café da Física Quântica. Na terça, desmistifica abordagens precárias em torno de Foucault. De quarta a sexta, desvenda buracos negros, reavive algoritmos, disseca fisiologias, princípios, ritos hipotéticos. 

Aos fins de semana, descarta prazeres. Às ilusões do carnaval, prefere a solidão dos números primos, a organicidade filosófica dos pré-Socráticos, o nobre ribombar das dúvidas existenciais, os claros enigmas da Nasa, sob a sombra de interesses estelares.

Segundo Hermes, tudo se resume a manchetes. Daí seu predileto cardápio de verbos e afazeres: incinerar reputações, degringolar relações institucionais, entregar, ao faro de abutres, o putrefato olor das vaidades humanas.

Dizer o mundo é seu carma. Dar nome à vida, sua sina.

Para além das responsabilidades, porém, Hermes também é humano, inevitavelmente humano. Nascido para construir fatos, transfigurou-se, no insosso crepúsculo de outono, em fábula.

Qual átomo, permanece entre nós, mas, há décadas, ninguém é capaz de registrar seus movimentos.

Nascido para construir fatos, Hermes entregou-se, por deleite ou vingança, ao cálido silenciar dos deuses.

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