Peixe comendo barata não é exatamente uma imagem fácil de imaginar, certo? Mas quando a ciência entra em ação, soluções criativas não param de nos surpreender. A pesquisadora Izabella Luiza Gomes Almeida, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), desenvolveu uma ração com barata-de-madagascar para alimentar tilápias. O Departamento de Zootecnia, do qual a cientista faz parte, desenvolve estudos em que insetos vivos ou mortos viram fonte de proteínas para outros animais, como peixes, aves e mamíferos.

Ração com farinha de barata-de-madagascar. Foto: Reprodução UFLA/Divulgação

A barata-de-madagascar (Gromphardorhina portentosa) é um inseto classificado como comestível, sendo uma das maiores espécies de barata. Pode chegar a 9 centímetros quando adulta e é capaz de viver até três anos em cativeiro.

De acordo com Izabella Almeida, em outros países o inseto é criado como animal de estimação. Isso mesmo, um pet como estamos acostumados e cuidar de cães e gatos.

É uma espécie pouco estudada, segundo a pesquisadora. No entanto, apresenta alto teor de proteína se comparada a outros insetos.

Outra cientista do Departamento de Zootecnia comparou cinco tipos de farinhas de insetos e percebeu o potencial a barata-de-madagascar como alimento.

Dessa forma, Izabella Almeida decidiu usar a ração de barata para alimentar peixes da espécie tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus).

Alternativa com sustentabilidade

“Estamos tentando achar alternativas de proteína. Geralmente, as rações de peixe usam muita farinha de peixe, mas nesse caso há um extrativismo. Retiram o peixe, matam e usam para fazer a fartinha. A produção mundial desse tipo de alimento chegou ao teto e não se pode mais fazer a extração”, explica Izabella Almeida.

Tilápias alimentadas com ração de barata-de-madagascar. Foto: Reprodução UFLA/Divulgação

Outra opção é a farinha de soja, mas segundo a pesquisadora, esta alternativa coloca os animais competindo com a alimentação humana, afinal, nós também consumimos produtos derivados da soja. “A motivação das minhas pesquisas é buscar um ingrediente proteico alternativo”, afirma.

Os cientistas da UFLA recebem insetos do professor Diego Vicente da Costa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que faz a criação em larga escala. Os animais chegam desidratados, são moídos para incluir na ração e introduzidos na dieta das tilápias.

A escolha por este peixe também é motivada pela falta de pesquisas. Ainda há poucos estudos sobre alimentação desses animais a partir de proteínas dos insetos. “A tilápia-do-nilo é o animal mais produzido do mundo, por isso a importância de encontrar uma alternativa”, justifica Izabella Almeida. A pesquisa tem mostrado que o peixe aceita muito bem a ração de barata-de-madagascar.

Farinha de barata-de-madagascar. Foto: Reprodução UFLA/Divulgação

Segundo ela, os estudos dos pesquisadores do Departamento de Zootecnia têm como pano de fundo a sustentabilidade, uma tentativa de fazer frente à ração de soja e peixe que usam muitos recursos na produção.

“A farinha de inseto traz a possibilidade de produzir alimento usando menos água e numa área menor”.

Os trabalhos com farinha de insetos são coordenados pela professora Priscila Vieira Rosa. Uma pesquisa complementar, desenvolvida por outra cientista do departamento, mostrará a influência da farinha de inseto no cérebro e no sistema imune dos peixes.

A princípio, a ração com barata-de-madagascar é feita em pequena escala para estudos em laboratório. De acordo com Izabella Almeida, produzir insetos ainda é mais caro que outras fontes de proteína, mas no futuro será mais viável quando houve uma cultura de criação.