A genética é uma área fascinante. Vai dizer que não fica intrigado com o fato de pais e filhos carregarem características tão semelhantes? Ou com a ideia de não ocorrem no planeta dois indivíduos geneticamente iguais, a não ser gêmeos univitelinos? Esses mesmos questionamentos motivam cientistas a estudarem a genética de vegetais. Graças a essas pesquisas o homem hoje é capaz de moldar as plantas, via seleção, ou criar estratégias para atender demandas do setor de alimentação e produtos derivados dos vegetais.

Na série de reportagens sobre pesquisas de excelência desenvolvidas em Minas, é hora de conhecer o trabalho feito pelos cientistas em Genética e Melhoramento de Plantas da Universidade Federal de Lavras (UFLA).  Na última avaliação quadrienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o PPGGM-UFLA foi qualificado com 7, a nota máxima, consolidando o status de excelência internacional em pesquisa e ensino.

Foto: Gustavo Porpino/Embrapa

As linhas de pesquisas do programa, que nasceu em 1986, são Citogenética Vegetal, Genética Molecular e de Fitopatógenos, Genética e Melhoramento de Plantas Anuais de Importância Econômica e Genética Quantitativa Aplicada ao Melhoramento de Plantas. Isso quer dizer que os pesquisadores estudam estruturas e funções das células vegetais, além de micro-organismos que causam doenças nas plantas. O foco dos pesquisadores é conduzir trabalhos de melhoramento genético vegetal visado à obtenção de novas cultivares.

Melhorar plantas e a vida dos cidadãos

O imaginário que geramos sobre a genética pode estar muito conectado a laboratórios bem equipados, tecnologias de ponta em sequenciamento de DNA e cientistas extremamente focados nas análises laboratoriais. Mas afinal, o que é fazer pesquisa de excelência numa área tão fascinante?

“Quando se fala em ciência de qualidade muitos imaginam que para isto é necessário altos investimentos e laboratórios de última geração. Porém, é preciso ética, integridade, grupos de docentes e pesquisadores comprometidos e estudantes dedicados na condução dos seus projetos de pesquisa. Precisamos ter em mente que o progresso da ciência está, principalmente, nos pontos positivos que a pesquisa possa oferecer a sociedade” (Flávia Gonçalves, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento de Plantas – PPGGM)

Para o professor Magno Antonio Patto Ramalho, docente do programa, a qualidade da ciência passa necessariamente pela melhoria da vida dos cidadãos. Ele está no PPGGM desde a criação, muito envolvido com pesquisas sobre o melhoramento genético do feijoeiro, que iniciou dentro do curso de Agronomia, em 1968, antes mesmo da existência da pós-graduação.

“Os equipamentos apropriados ajudam muito, entretanto, não são fundamentais. A persistência, aliada a dedicação e obstinação em se ter precisão nos resultados, é indispensável. Na nossa área, o foco é a obtenção de plantas melhores que as pré-existentes. Assim, a nossa eficiência como pesquisadores pode ser facilmente quantificada. Adicionalmente não há nada mais gratificante que ver o seu produto da pesquisa sendo usado pelos agricultores e possibilitando o acesso da população a um alimento de boa qualidade”, afirma.

O doutorando Mario Henrique Murad Leite Andrade corrobora o ponto de vista do professor.  Acredita que a ciência de ponta está muito ligada ao retorno dos investimentos recebidos à sociedade, que fomenta as pesquisas em universidades federais por meio de impostos.

Mario Henrique entrou no universo das pesquisas sobre genética e melhoramento ainda na graduação, quando fez estagio na área de estudos para obtenção de melhores cultivares de milho. Depois, migrou para os trabalhos sobre feijoeiro – com o professor Magno Ramalho – e, em seguida, estudou no mestrado as condições de melhoramento da batata para cultivo no Sul de Minas. Atualmente, no doutorado, busca obtenção de clones de batata tolerantes ao calor.

Foto: Priscila Viudes/Embrapa

Parcerias

Segundo o professor Magno Ramalho, desde o início do programa há grande interação com empresas públicas e privadas visando à realização de pesquisa conjunta. “Algumas pesquisas são de interesse das empresas, mas que dificilmente poderiam ser feitas sem a participação da UFLA. Estou convicto que com essas parcerias todos ganham”, diz. O doutorando Mario Henrique vê muito valor nas parcerias:

“A consolidação do programa de pós-graduação com a realização de pesquisas de qualidade facilita a possibilidade de parcerias público-privadas. Essas parcerias são muito importantes, pois permitem maior interação dos estudantes com empresas e nos coloca frente a problemas do dia a dia das empresas. Somos desafiados a solucionar junto com nossos orientadores. Além disso, essas parcerias trazem a possibilidade da realização de parte da pesquisa na própria empresa, o que viabiliza a utilização de sua infraestrutura e gera uma economia de recursos”.

A coordenadora Flávia Gonçalves também destaca que um ponto forte da pós-graduação é o trabalho conjunto com as empresas públicas – como Embrapa e Epamig – e as privadas – produtoras de sementes e do ramo florestal. “Com o passar dos anos se percebe uma redução significativa nos recursos financeiros destinados à pesquisa no Brasil. Desse modo, temos que equacionar os recursos e os equipamentos existentes nos laboratórios e áreas experimentais para que as pesquisas possam ser realizadas com eficiência”

Foto: Ministério da Agricultura

Além das cultivares melhoradas, um dos principais retornos do programa à sociedade é a formação de profissionais com alta qualificação. Segundo a Flávia Gonçalves, considerando as dimensões do Brasil e a eficácia do Agronegócio, o número de geneticistas e melhoristas de plantas ainda é reduzido.

Desse modo, muitas empresas têm dificuldades em encontrar no mercado de trabalho profissionais para gerenciar e conduzir seus programas de melhoramento. Para suprir esta necessidade, vários discentes do PPGGM são contratados, antes mesmo da defesa de teses, para conduzir programas de melhoramento de empresas privadas no Brasil e em outros países.

Mais de 90% dos egressos do PPGGM estão inseridos em empresas públicas e privadas, universidades e centros de pesquisas contribuindo para o desenvolvimento do Brasil.

Há profissionais formados no PPGGM que trabalham em empresas de sementes, de celulose e de outros produtos. Os cientistas da UFLA desenvolvem e publicam resultados de pesquisas básicas que buscam avaliar a variabilidade genética existente em plantas tropicais cultivadas e subsidiar as ações de melhoramento. Os trabalhos de importância internacional são publicados em revista com de impacto como Crop Sciene, Euphytica, Nature, Plos One, entre outras.

Durante os estudos no PPGGM, geneticistas e melhoristas interagem entre si com trocas de informações sobre pesquisas, orientações de trabalhos de iniciação científica e atividades de extensão, que visam despertar o interesse nos jovens estudantes de escolas públicas pela genética.

O programa também intensificou as atividades de inserção internacional, com ênfase no incentivo à mobilidade discente e docente para países da Europa e América do Norte, ale, da  oferta de disciplinas em língua inglesa.

Foto: Ministério da Agricultura

Para que serve o melhoramento?

Para o professor Magno Ramalho, a possibilidades de melhoramento de plantas em um país, cuja agricultura tem sido a principal fonte de renda, são ilimitadas. Segundo ele, a genética tem papel fundamental obtenção de alimentos que sejam acessíveis a toda a população, com boas qualidades nutricionais e culinárias.

“O foco do melhoramento é direcionado à obtenção de plantas que sejam menos exigentes aos defensivos agrícolas e outros insumos e por consequência com menor impacto ambiental. Associado a outras tecnologias agrícolas, o melhoramento contribui para o aumento da produtividade por área dos grãos, frutas e fibras. Possibilitando, assim, a redução na área cultivada e diminuindo a pressão no desmatamento”, detalha o professor.

“A Genética é uma ciência fascinante, que desperta a atenção de grande parte da sociedade. Quando realizamos a hibridação entre dois genitores, sabemos que existem infinitas possibilidades de combinações. Não temos a chance de obter todas e muito menos de avaliar cada uma delas. Mesmo assim, cotidianamente realizamos os cruzamentos, avaliamos milhares de indivíduos na esperança de obter uma ou mais que superem os genitores. Isso tem funcionado e as cultivares atuais de todas as espécies de plantas, que os melhoristas trabalham, pois elas são superiores em qualidade que as pré-existentes. Acreditamos que grande parte da população reconhece a importância do que é realizado pelos profissionais que dedicam à genética e melhoramento de plantas” (Magno Antonio Patto Ramalho, professor do PPGGMP)

Foto: Gustavo Porpino/Embrapa

Melhoramento genético não é transgenia

O PPGGM da UFLA é muito diverso. Os cientistas fazem pesquisas básicas em Citogenética, com a caracterização cromossômica de vegetais, até ensaios finais em campo com novas cultivares desenvolvidas. De acordo com o doutorando Mário Henrique, as pessoas confundem as pesquisas realizadas na pós-graduação, pois, em geral, associam com a transgenia.

“Os ganhos obtidos em nosso programa, no sentido de aumentos na produtividade, obtenção de cultivares mais resistentes a diferentes patógenos, e mais adaptadas as condições de cultivo encontradas no Brasil, são todos obtidos com o melhoramento convencional. Ou seja, sem a utilização de organismos geneticamente modificados, os transgênicos. Esta é uma confusão bem comum entre as pessoas que não são da área e até mesmo entre pessoas no meio acadêmico, que sempre ao ouvirem algo sobre a genética e o melhoramento de plantas logo associam a transgenia” (Mario Henrique Murad Leite Andrade, doutorando do PPGGM da UFLA)

O método de transgenia consiste na transferência de genes de um vegetal para outro, sendo eles, geralmente, de espécies diferentes. Assim, uma semente ou planta adquire características de outro vegetal. Já o melhoramento genético é o esforço de aprimoramento de características das plantas.