Quando servimos um café quente e cheiroso, não imaginamos toda a trajetória do grão até virar bebida nas nossas xícaras. Mas a ciência tem se ocupado cada vez mais da missão de levar um café de primeira qualidade para as mesas dos mineiros, e a entomologia agrícola é uma área estratégica nesse contexto.

Rogério Antônio Silva / Arquivo pessoal

O projeto de pesquisa “Controle de plantas daninhas em cafeeiros – Efeito do manejo do mato sobre as principais pragas do cafeeiro e seus inimigos naturais“, financiado pelo Consórcio Pesquisa Café (CBP&D/Café), com apoio da FAPEMIG, busca reduzir danos causados pelas pragas, com consequente redução do uso de agrotóxicos.

O caminho indicado pela pesquisa segue os princípios da agroecologia, visando ao desenvolvimento de um produto mais sustentável.

Na entrevista abaixo, o pesquisador Rogério Antônio Silva (foto), engenheiro agrônomo da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), fala sobre sua trajetória acadêmica, sobre os desafios de seu campo de atuação e como as pesquisas sobre manejo do mato e controle de pragas têm contribuído para melhorar o café de Minas Gerais.

Confira:

Minas Faz Ciência: Conte-me um pouco sobre sua trajetória profissional. Como se tornou pesquisador? Por que se especializou em entomologia agrícola?

Rogério Antônio Silva: Eu me formei em 1981 pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL), que hoje é a Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Na pós-graduação da UFLA, fiz mestrado em Fitotecnia com área de concentração em Entomologia. Essa escolha foi feita meio que por acaso mas, desde o início, eu me identifiquei muito com as pesquisas, principalmente os estudos das estratégias de manejo integrado de pragas. Tive a orientação do professor César Freire de Carvalho.

Em 1985, fui contratado para trabalhar na Epamig Norte, onde iniciei minhas atividades com a cultura do algodoeiroA implantação do projeto de manejo integrado das pragas do algodoeiro na região, sob minha coordenação, possibilitou a redução no número de aplicação de inseticidas: de 15 a 20, passamos para 4 a 6 aplicações por ano. Houve grande retorno econômico para os produtores de algodão, devido à redução nos custos e à melhor preservação do meio ambiente.

Em 2004, concluí o doutorado em Agronomia/Entomologia também na UFLA, dessa vez, com a cultura do café.

Na mesma época, iniciei minhas atividades de pesquisa na Epamig Sul e tive a oportunidade de conviver com duas das maiores autoridades em Entomologia na atividade cafeeira: os pesquisadores Paulo Rebelles Reis e Júlio César de Souza. Com eles, passei a aprofundar meus conhecimentos em pesquisas com os artrópodes-pragas que atacam o cafeeiro e seus inimigos naturais.

Desde 2011, além de minhas atividades de pesquisa, também atuo na área administrativa como Chefe Geral da Epamig Sul, com Bolsa de Incentivo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Tecnológico (BIPDT) da Fapemig.

Rogério em avaliação de projeto de sombreamento. Foto: Divulgação

MFC: Quais os desafios da entomologia agrícola?

RAS: O grande desafio do agronegócio, em geral, decorre da necessidade de atender à grande demanda por alimentos. Isso leva à necessidade de aumentar a produtividade por área, e também aumentar as áreas de plantio.

A necessidade de aumento da produção por área cultivada demanda maior quantidade de insumos agrícolas, em especial, defensivos, usados para combater as pragas.

As pragas causam sérios prejuízos, principalmente nas grandes áreas em monocultivo, em que se tem uma maior pressão e concentração.

Lagarta do Bicho-Mineiro-do-Cafeeiro (BMC). Foto: Divulgação

Adulto do bicho-mineiro. Foto: Divulgação

Folhas com minas do bicho-mineiro. Foto: Rogério Antônio Silva

 

Vespa Brachygastra lecheguana, predador do bicho-mineiro. Foto: Paulo Rebelles Reis.

Nos agroecossistemas, a diversificação de espécies naturais e/ou cultivadas tem se mostrado uma estratégia fundamental para o manejo integrado de pragas.

Nesse ramo de atuação, procuramos disponibilizar aos inimigos naturais das pragas abrigo, sítios alimentares para atração e manutenção no ambiente mais diversificado. Assim, crescem na região os inimigos naturais das pragas, que podem combatê-las no sistema ecológico natural, reduzindo o uso de agrotóxicos.

Além disso, em um ambiente diversificado, temos a possibilidade de minimizar os efeitos das mudanças climáticas, como o aquecimento global.

MFC: Como é sua atuação no Instituto Brasileiro de C&T do Café? Qual o cenário das pesquisas sobre o café em Minas Gerais? Em que podemos avançar?

RAS: O INCT do Café é coordenado pelo Professor da UFLA Mário Lúcio Vilela de Resende. Eu atuo na Linha de Pesquisa Café e Clima – Manejo integrado das principais pragas do cafeeiro visando à preservação do meio ambiente.

O objetivo é estudar métodos e associações de métodos de controle das principais pragas do cafeeiro, tendo em vista a eficiência, a economia e a preservação do meio ambiente.

Café sombreado com cedro, uma das técnicas empregadas na plantação. Foto: Divulgação

Dentre as pragas do cafeeiro, as mais perigosas são a broca-do-café (Hypothenemus hampei), prejudicial a partir dos frutos “chumbões”; o bicho-mineiro (Leucoptera coffeella), que causa drásticas desfolhas em viveiro de mudas e nas lavouras em produção; a cigarra-do-cafeeiro (Quesada gigas), que suga a seiva das plantas através das raízes; as cochonilhas da raiz e das folhas, que também sugam a seiva das plantas; e os ácaros-praga, que se alimentam da seiva da planta e podem também transmitir viroses.

O trabalho sobre o qual falo aqui trata do bicho-mineiro mas, de modo geral, todas as pragas causam grandes prejuízos, diretos ou indiretos, à cultura do cafeeiro se não forem controladas de forma eficiente.

MFC: Por que o tema das mudanças climáticas se torna importante neste contexto?

RAS: O conhecimento dos impactos das mudanças climáticas na ocorrência de pragas é de grande importância para a cafeicultura. Ele permite a previsão dos impactos e a elaboração de estratégias para minimizar os prejuízos.

As mudanças climáticas podem alterar o cenário atual das pragas na agricultura brasileira e os resultados dos impactos econômicos, sociais e ambientais podem ser positivos, negativos ou neutros. Não conhecemos ainda o efeito sobre os diferentes problemas de pragas. Daí a importância do monitoramento de pragas nas lavouras.

arborização pode ser um componente importante no equilíbrio ecológico do cafezal, pois oferece abrigo aos inimigos naturais de pragas.

Café sombreado com abacate. Foto: Divulgação

Café sombreado com macadâmia. Foto: Divulgação.

Faixas de vegetação, denominadas de “corredores biológicos”, têm auxiliado no controle natural de pragas em diversas culturas, e certamente o farão também em cafezais. Esses agentes de controle biológico ajudam a manter baixa a população de bicho-mineiro em determinadas épocas do ano, por exemplo.

Mas só o controle biológico nem sempre é eficiente, principalmente em regiões de clima mais quente, como o cerrado mineiro, onde há a necessidade da adoção complementar de outros tipos de controle da praga, como os agrotóxicos.

O controle químico, então, ainda é um método de controle imprescindível dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP) na cultura do cafeeiro.

O controle do bicho-mineiro, por exemplo, é definido para cada região cafeeira dependendo da severidade da praga. É recomendado o uso de produtos menos tóxicos e que sejam menos perigosos para insetos não-alvos, como os inimigos naturais, vespas e abelhas. Manter esses outros insetos vivos é o que garante que eles possam contribuir para a redução do bicho-mineiro.

Manejo do mato sem capina. Foto: Divulgação.

MFC: Por que é importante, então, desenvolver pesquisas sobre as pragas do cafeeiro?

RAS: Vivemos em um mundo com novas exigências socioambientais e econômicas na produção de café. É preciso limitar o uso de defensivos químicos e garantir princípios de sustentabilidade, rastreabilidade e competitividade.

Existe a necessidade de serem adotadas práticas culturais inovadoras e eficientes em substituição às práticas convencionais.

No manejo das plantas daninhas, principalmente na produção integrada do café, torna-se imprescindível a busca por métodos que inibam as pragas e impeçam que a infestação atinja o nível que causa prejuízo.

As ações de manejo buscam promover a conservação físico-química do solo, preservar os recursos hídricos, manter a biodiversidade ambiental.

Cafezal com grande florada. Foto: Divulgação.

MFC: Você partiu de quais hipóteses de trabalho sobre o manejo do mato?

A nossa hipótese é de que, em função do manejo do mato e das plantas infestantes observadas, poderemos recomendar a retirada de determinadas plantas que favoreçam o aumento de pragas e a manutenção de outras, que favoreçam a conservação e o aumento de inimigos naturais das pragas do cafeeiro.

RAS: Os cafeicultores já realizam diferentes manejos do mato no cafeeiro, mas nem sempre têm informações científicas quanto aos efeitos dessas técnicas sobre a cultura do café. Eles se preocupam com a influência na produção, mas não sabem os impactos na qualidade do café produzido e, principalmente, seus efeitos na entomofauna do agroecossistema cafeeiro.

Por isso, as técnicas utilizadas por eles podem afetar a infestação de artrópodes-pragas, mas também seus inimigos naturais, causando desequilíbrio ambiental. Buscamos desenvolver técnicas para garantir abrigo e recursos alimentares de flores, como pólen e néctar, aos inimigos naturais dos artrópodes-praga, favorecendo, assim, o controle biológico natural conservativo.

Café Paraíso com maturação uniforme. Foto: Divulgação.

MFC: E como a pesquisa se desenvolveu?

RAS: Até o momento, não foram observadas diferenças significativas nos tratamentos relacionados com a população de bicho-mineiro e vespas predadoras.

Tal ausência de ocorrências pode ser advinda da falta de equilíbrio do meio ambiente com a cultura cafeeira, o que não permite o estabelecimento e manutenção dos inimigos naturais dentro da área.

Provavelmente, também, isso se deve ao fato de as vespas predadoras terem o hábito de construir seus ninhos fora do agroecossistema cafeeiro, nas matas adjacentes, de onde saem para predar o bicho-cafeeiro.

É possível, então, que em áreas mais extensas de lavouras de café a manutenção de inimigos naturais seja mais evidenciada, contribuindo efetivamente para o controle biológico conservativo.

Ninho de vespas na mata remanescente.
Foto: Paulo Rebelles Reis.

MFC: Esse projeto foi concebido a partir de demandas junto ao setor produtivo. Como avalia esse diálogo entre os produtores e as instituições de pesquisa? Como as tecnologias e saberes são transferidos para quem está na ponta da produção?

RAS: A Epamig Sul, por meio de seu Núcleo de Difusão e Transferência de Tecnologia, tem desenvolvido projetos nesse sentido.

O projeto “Ciência Móvel Epamig” tem um micro-ônibus adaptado para levar informações em eventos, como palestras e Dias de Campo. Nesses eventos, a troca de saberes é fundamental.

Essas ações aproximam os pesquisadores dos produtores, de empresas públicas e privadas, como os colegas da Emater – MG e das Cooperativas ligadas ao setor cafeeiro.

Também atuamos diretamente com os cafeicultores.

Trabalhamos com demandas levantadas junto aos participantes. Eles buscam tecnologias já existentes e indicam novas pesquisas para resolver problemas sem solução.

Projeto Ciência Móvel Epamig. Foto: Divulgação

MFC: Para terminar, quais seriam as características de uma produção de café sustentável hoje?

RAS: No agroecossistema cafeeiro, a produção sustentável dos cafés especiais resulta da adoção do conjunto de medidas.

Isso inclui a escolha da área de plantio e das variedades e a execução de Boas Práticas Agrícolas, como o Manejo Integrado de Pragas e Doenças, cuidados na colheita e no preparo pós-colheita.

Procuramos atender aos três pilares da Sustentabilidade que é ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta.

Estamos fazendo uma pesquisa!

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