Já pensou que o óleo de fritura pode ter alguma serventia ao invés de virar um resíduo perigoso para seu encanamento? Então, nada de jogar na pia o óleo usado porque tem gente doida para aproveitar esse lixo para fazer biodiesel. Entenda:

Uma turma de cientistas cheios de disposição e boas ideias se juntou com o objetivo de alcançar o mito do Rei Midas: transformar em ouro as coisas que tocar. Na verdade, pesquisadores envolvidos no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia MIDAS (INCT MIDAS), inspirados pela mitologia grega, querem transformar lixo em riqueza. Como? A gente vai contar um pouquinho por aqui…

O INCT MIDAS é uma rede de pesquisadores de 10 estados do Brasil com a proposta de criar tecnologias de caráter ambiental e desenvolvê-las para que cheguem até o mercado. Associado a isso, o grupo pretende disseminar uma cultura empreendedora e valorizar a divulgação da ciência. A coordenação do projeto é do professor Rochel Montero Lago do Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde funciona a sede do MIDAS.

De acordo com um dos gestores do projeto, Luiz Costa, a rede foi criada para se sustentar em três pilares: tecnologia (ciência, geração de ideias, equipamentos e produtos dentro da universidade), empreendedorismo (educação empreendedora apontando possibilidades de transformar ideias em bons negócios) e mercado (levar as descobertas da pesquisa na universidade para a realização em âmbito comercial).

“A gente entende que um dos grandes gargalos da tecnologia sair da universidade e chegar até o mercado é a cultura das pessoas envolvidas nisso. Entre os pesquisadores há uma tradição grande de publicação de artigos. O pesquisador tem, como em qualquer setor, uma linguagem própria voltada para a produção científica, mas que não bate com a conversa das empresas. Essas, por sua vez, estão voltadas para geração de lucros”, explica o gestor.

O desafio do MIDAS é fazer com que pesquisadores e empresas falem a mesma língua. Para isso, é preciso fomentar o empreendedorismo entre alunos e professores da universidade. Segundo o Luiz Costa, é possível mostrar metodologias que ordenem o raciocínio desses cientistas e os façam ver possibilidades de levar ciência ao mercado.

Projetos

O MIDAS tem um caráter ambiental e trabalha com pesquisa e inovação em quatro áreas: novos processos para tratamento de efluentes industriais e reuso de água, novos processos para a transformação de resíduos industriais e da mineração em materiais de valor agregado, biodiesel e bio-óleo – subprodutos e resíduos, novos insumos e materiais a partir de fontes renováveis e resíduos.

O projeto INCT Midas quer criar o processo denominado 3G: “Grey to Green to Gold” usando ciência para transformar problemas ambientais/resíduos (“grey”) em tecnologias verdes (“green”) para a geração de riqueza (“gold”) através da transferência de tecnologia e conhecimento para a sociedade

Entre as metas estão publicação de artigos científicos, formação de pessoas (graduandos e pós-graduandos), realização de cursos num modelo de laboratório de experiência empreendedora, geração de patentes, captação de investimentos do mercado para pesquisas, transferência de tecnologias para indústrias, criação de um centro de prototipagem, abertura de uma startup de base tecnológica, publicação de livros para empreendedorismo e divulgação cientifica, entre outras.

O trabalho já está acontecendo, conforme explicou o gestor Luiz Costa. A Bchem Solutions, por exemplo, é uma empresa que vai ser acelerada dentro do MIDAS. O catalisador que eles usam na produção de biodiesel é de patente da UFMG. Além disso, o centro de prototipagem já está em planejamento e pode sair do papel no ano que vem.

O vídeo “Falo nada, só óleo”, que explica a possibilidade de transformar óleo de fritura em biodiesel, é um dos trabalhos de divulgação científica do MIDAS. Foto: Reprodução vídeo INC MIDAS

Falo nada, só óleo

O vídeo Falo nada, só óleo, que explica a possibilidade de transformar óleo de fritura em biodiesel, é um dos trabalhos de divulgação científica do MIDAS. “O objetivo dos vídeos é mostrar tecnologias que representam os grupos de pesquisa dentro do MIDAS. Este exemplo do óleo está dentro do núcleo de biodiesel. É importante para a sociedade ver que a universidade faz coisas muito úteis”, conclui Luiz Costa. Outros vídeos, com linguagem parecida, serão produzidos.

INCT

O programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia é um dos maiores planos de Ciência e Tecnologia do país. Ele mobiliza os melhores grupos de pesquisa em áreas de fronteira da ciência e em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável do Brasil. A ideia é estimular o desenvolvimento de pesquisa científica e tecnológica de ponta associada a aplicações para promover inovação.

A criação dos institutos conta com parceria da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) e as Fundações de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), do Pará (Fapespa), de São Paulo (Fapesp), Minas Gerais (Fapemig), Rio de Janeiro (Faperj) e Santa Catarina (Fapesc), Ministério da Saúde e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

#teammidas

A rede MIDAS vai muito além das fronteiras da sede na UFMG. Estão envolvidos no projeto os grupos de pesquisa: “Análises de Alimentos, Produção e Caracteriza;cão de Biopolímeros e Filmes Flexíveis (UFBA)”,  “Redução do Impacto Ambiental em Processamentos Químicos (UFSC)”, “RECAT- Laboratório de Reatores, Cinética e Catálise (UFF)”, “LABPEMOL- Laboratórios de Peneiras Moleculares (UFRN)”, “LabtecH- Laboratório de Tecnologia do Hidrogênio (UFRJ)”, “Laboratório de Desenvolvimento de nanocompositos poliméricos para uso em energia (UFSCAR)”, além de “LASELORG- Laboratório de Síntese e Eletrossíntese Orgânica (UFMG)” e “GRUTAM – Grupo de Tecnologias Ambientais (UFMG)”. A gestão fica por conta de Arthur Silva, Jéssica Carvalho, Lucas Ferreira, Luiz Costa, Maria Duarte, Priscila Souza, Rochel Lago.