Como fazer carreira na ilustração científica?

No segundo post sobre o tema da ilustração científica (se você não leu o primeiro, clica aqui!) vamos dar algumas dicas para quem pensa em seguir carreira nessa área!

Quem colaborou nesse post também foi a ilustradora Rosa Alves, e seu colega de profissão, Marco Anacleto, ambos do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

Confira:

Quais as principais áreas de atuação de um ilustrador científico? 

São tantas as áreas de atuação quanto são as áreas das Ciências! Na área das Ciências Humanas e Antropologia, temos a arqueologia histórica e pré-histórica, com desenhos de instrumentos líticos, pintura e gravura rupestre, objetos cerâmicos, indumentária, hábitos alimentares, esqueletos, mapas das escavações, entre outros.

Em Ciências Biológicas, as áreas de Botânica e Zoologia são as que demandam mais trabalhos, porém, ultimamente, os profissionais de Ecologia também preferem desenhos para mostrar as relações entre os seres vivos em seus mais variados ecossistemas.

A Farmácia também encomenda ilustrações de suas plantas medicinais, bem como a Agronomia pede desenhos sobre enxertia, frutos e sementes e de insetos polinizadores e também dos predadores das plantas.

Na área da Paleontologia, o uso de ilustrações é fundamental, pois os achados nada mais são que fósseis, que na maioria das vezes estão fragmentados e são esses fragmentos que trazem toda a informação que precisa ser reconstituida através dos desenhos.

Na área da Saúde, as ilustrações de anatomia, ossos, músculos, tecidos e células, são passíveis de serem ilustradas, bem como os hospedeiros e vetores de doenças e seus ciclos.

A cartografia é uma área que também vem se desenvolvendo bastante nos últimos anos, com o advento do computador e de novos softwares específicos para a construção de mapas temáticos.

Na área da astronomia, física e química, o desafio é grande, pois as escalas são as mais variadas – desde anos-luz à nanotecnologia – tudo pode ser ilustrado e requer mão-de-obra qualificada.

Existem dados sobre vagas e demanda desses profissionais no Brasil?

Os Museus de Ciência de todo o mundo apresentam em seus quadros pessoas habilitadas para construir o material expositivo, de divulgação, sinalização, e dioramas para suas mostras mais duradouras, em duas ou três dimensões.

Nas Universidades, onde a maioria da pesquisa científica do Brasil é realizada, sempre há alguém que encontra uma nova espécie para descrever que requer ilustração científica para publicar seus artigos.

Enfim, existe a carência por esses profissionais, embora haja um esforço em formar esses quadros para atender às demandas. A profissão é nova no Brasil e vem se consolidando na medida em que as publicações investem em trabalhos de profissionais e os museus e espaços de Ciências descobrem a importância de oferecer um trabalho de qualidade comunicacional e rigor científico.

Para os interessados em seguir carreira nessa área, quais os caminhos possíveis de formação?

Normalmente, o profissional sai da área das Artes Visuais e se interessa por Ciências. Ou são profissionais de outras áreas que buscam desenhar seus conceitos, experimentos, objetos de seus estudos.

A formação no Brasil tem se dado principalmente através de cursos de extensão das Universidades, mas há também alguns cursos que inseriram esse conteúdo na graduação e na pós-graduação.

Em 2014, inauguramos uma pós-graduação em ilustração científica na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Uberlândia, com professores vindos de Portugal para essa finalidade.

Há também pós-graduação fora do Brasil, em Portugal, onde o forte é a ilustração científica biológica, e nos Estados Unidos, onde a especialização em ilustração médica tem excelentes cursos. Até dentro de alguns hospitais há o cargo de ilustrador científico, que recebe tanto quanto o médico e responsabiliza-se por desenhar o passo-a-passo de procedimentos cirúrgicos complexos, que envolvem equipes especializadas e diversos instrumentos.

A ilustração é uma ferramenta de comunicação muito forte, logo, como avalia sua importância para a popularização da ciência?

De fato, é uma importante ferramenta para comunicar conceitos que nem sempre são simples, como a forma do DNA, que é melhor entendida com um desenho esquemático do que com uma descrição textual, por exemplo.

Principalmente a partir do Renascimento, as Ciências e as Artes impulsionadas pelo advento da imprensa e da invenção do microscópio desenvolveram técnicas de representação em forma de gravuras, o que possibilitou a ampliação de seu público e a disseminação do saber.

As coleções originadas das coletas de espécies oriundas dos novos continentes encontradas pelos povos ibéricos deram origem ao acervo inicial dos atuais Museus e aos catálogos que buscavam identificar e classificar o material biológico. Esses catálogos, inicialmente, traziam gravuras baseadas em desenhos nem sempre realizados in loco, ou seja, onde as plantas e os animais eram coletados e, por isso, às vezes não traziam informações fidedignas de uma ilustração científica.

Hoje, ao contrário de reproduções artísticas motivadas por preocupações quase exclusivamente estéticas, as ilustrações científicas ocupam-se em contar uma história, em descrever uma realidade, inserindo cortes, perspectivas variadas e anotações explicativas.

A ilustração científica ocupa um lugar em que a ciência e a arte se misturam. Ela pode explicitar elementos que não são vistos pela fotografia. Na busca por dissecar a realidade da natureza, ela apresenta uma ótica artística fiel, dentro de uma nova ética científica. Dos pincéis e aquarelas, chega-se ao século XX e XXI com novos recursos de linguagens incluindo a documentação digital, novas mídias e equipamentos que ampliaram o campo de percepção do olho humano e dão a conhecer o que antes era apenas imaginado.

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Curso de ilustração científica da UFMG completa 10 anos em 2015

Este ano, o curso de ilustração científica ofertado pela UFMG como uma ação de extensão completa 10 anos. Ao longo de sua existência, diversas turmas foram formadas para atuar na área e os interessados já podem se inscrever para a formação de 2015.

“Nesse ano, a carga horária do curso de formação será de 150 horas e o material didático será relançado em edição bilingue, reunindo os cadernos já lançados em um só livro, com mais conteúdo e técnicas novas. O material está em finalização”.

Outra novidade em 2015 é que tanto o ilustrador Marco Anacleto, quanto Rosa Alves estão expondo seus trabalhos na Europa. Marco expõe um trabalho em grafite no Ilustra Ciencia, em Barcelona (Il.lustraciència – Mostra del Premi Internacional d’Il·lustració Científica) e Rosa foi selecionada para  expor aquarelas em Paris, no Carousel du Louvre, de 23 a 27 de outubro, após já ter exposto em Lisboa por três vezes, sendo duas exposições individuais, em 2010 e 2012.

Bivalve Pecten, por Marco Anacleto, em exposição em Barcelona
Bivalve Pecten, por Marco Anacleto, em exposição em Barcelona

“Espero que essas mostras internacionais em que estamos participando possam valorizar ainda mais a ilustração científica de Minas Gerais e abram portas para as gerações que estamos formando nos últimos 10 anos”, destaca Rosa.

Ainda há vagas!

Quem quiser se inscrever para o próximo curso de formação, serão duas turmas em 2015: uma às quartas e outra às sextas. Clique aqui para mais informações. “Esse curso de 2015 trará novas técnicas, pouco conhecidas no Brasil, como o scratchboard e o drybrush“, conclui Rosa Alves.

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Verônica Soares

Jornalista de ciências, professora de comunicação, pesquisadora da divulgação científica.

4 comentários em “Como fazer carreira na ilustração científica?

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