A Comunicação Social como ciência

Professores, alunos e ex-alunos do PPGCOM da UFMG enfatizam a pesquisa como parte da dinâmica da comunicação

Foto: Foca Lisboa/UFMG

Por Christiano Perdigão, Grazielle Paranhos, Marjorie Riff, Rafael Teodoro e Renato Vasconcellos*

É preciso quebrar o paradigma de que as ciências estão mais associadas às áreas exatas e biológicas. No dia a dia agitado das pessoas, não há nada mais determinante que a comunicação para conduzir as relações interpessoais, seja no cenário presencial ou digital.

Falar, ler, interpretar, ouvir ou assistir são verbos que expressam ações muito importantes na rotina de uma sociedade moderna e estudar como a comunicação faz a diferença na vida de todos é mais do que relevante.

Comunicação Social na UFMG

Para os estudantes que sonham em realizar uma pós-graduação, mestrado ou doutorado na área de Comunicação Social, o Programa Pós Graduação, Mestrado e Doutorado (PPGCOM) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da UFMG é uma boa opção.

O programa conta com três linhas de pesquisa vinculadas a uma área de concentração, denominada Comunicação e Sociabilidade Contemporânea: Processos Comunicativos e Práticas Sociais, Textualidades Midiáticas e Pragmáticas da Imagem.

Infográfico: Grazielle Paranhos

Com início em 1995, de lá para cá, inúmeras pesquisas, 301 dissertações e 110 teses científicas foram aprovadas por alunos de diversos perfis, ressaltando como a diversidade também é importante para se constituir uma sociedade mais justa, com boas oportunidades e que valoriza o pensamento crítico e a ciência.

Infográfico: Grazielle Paranhos

Nada é mais antigo que a busca do homem por se comunicar. Para o professor Bruno Leal, coordenador do PPGCOM, não existe dificuldade em se enxergar a comunicação como ciência, mas, sim, estereótipos. “O que importa é perceber que são imagens que se contradizem e se sobrepõem. O que há é um empobrecimento sobre o que se entende como ciências, no plural“, ressalta.

Grupos de pesquisa como referência

Sophia Mendonça, aluna do programa de mestrado do PPGCOM, concorda com Bruno Leal e destaca que “a comunicação não é só onde se encontram vários pontos da ciência, mas também envolve pensar nas questões que complexificam as relações entre as pessoas, o que elas consomem, como constroem narrativas”.

Neste aspecto, um grupo de pesquisa pode ajudar – e muito – a compreender essa realidade acadêmica que se distancia das certezas e da exatidão que por muito tempo os estudantes são ensinados a conviver, pois o homem, em geral, está sempre em busca de certezas. 

Para Sophia, que possui um cérebro neurodivergente devido ao espectro autista, este foi um desafio e tanto, mas sua coragem em se adaptar a levou ao grupo de pesquisa Afetos, que foi um “divisor de águas para sua organização pessoal”. Ela também conta que a possibilidade de explorar o lado afetivo das questões do autismo e de gênero foi o que mais lhe atraiu no grupo. 

Sophia é jornalista, escritora e possui um site voltado para o dia a dia dos autistas, O Mundo Autista, além de um canal no Youtube. Ela também produz conteúdo ao lado de sua mãe, Selma Sueli Silva, que é uma profissional experiente no mercado da comunicação.

A vida e o agir humanos também podem ser interpretados como textos, pontua Sophia Mendonça.

Ademais, Bruno Leal acredita que os grupos de pesquisa são como o “coração” da pós-graduação hoje em dia. “São dezessete grupos, teve um que foi criado neste ano e eles atuam de maneira muito diversa. Tem grupos vinculados a uma linha de pesquisa e tem grupos que têm pessoas de mais de uma linha de pesquisa”, relata. 

Para ele, é em um grupo de pesquisa que os diálogos, dissertações, teses e muitas descobertas acadêmicas efetivamente acontecem, pois a interação e a possibilidade de socializar com outros colegas pode ser muito enriquecedor. Receber um feedback do que se está produzindo e se sentir inserido na experiência de pesquisa são fatores muito importantes. 

Além de coordenador e professor, Bruno faz parte do “Núcleo de Estudos Tramas Comunicacionais: Narrativas e Experiências”. “A gente chama somente de Tramas pois o nome é grande”, se diverte. Ele explica que os encontros do grupo são quinzenais e neles há muito estudo, discussões do que os integrantes têm lido e revisado juntos. 

“Atualmente, estamos fechando um ciclo sobre a relação entre a narrativa e a imaginação, que deve acabar mais ou menos em março do ano que vem”, adianta Bruno. Os temas de estudo de cada um são diversos e dentre eles há quem esteja estudando lives musicais, shows ao vivo, séries de televisão, exercícios de memória e muitos outros.

Várias possibilidades de temas para pesquisar 

Outro tema muito interessante abordado em uma dissertação feita no PPGCOM é o da ex-aluna, jornalista e professora Silvia Dalben, que escolheu o Jornalismo Automatizado. A possibilidade de se ter futuros “robôs repórteres” lhe chamou a atenção e despertou o desejo de descobrir se tal premissa seria possível. E se os jornalistas poderiam correr mesmo o risco de “perder seus empregos” no futuro. 

Sua pesquisa ganhou o prêmio Adelmo Genro Filho na categoria de mestrado, concedido em 2019 pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo – SBPJor. Porém, Silvia descobriu que a imagem da robótica e da automatização, que vem associada com uma substituição da mão de obra humana, é uma imagem errada, ligada ao imaginário da ficção científica e dos filmes que assistimos na TV ou no cinema. 

Mas, quando se compreende especificamente como a tecnologia é aplicada no dia a dia das profissões, percebe-se que, na verdade, fala-se apenas de programadores e softwares, bem diferente dessa temida imagem de “robôs humanóides” que podem dominar o mundo algum dia. Com sorte, tal possibilidade está longe de acontecer. 

A percepção como cientista

Identificar-se como um pós-graduado ou pesquisador também pode ser uma experiência pessoal única na vida. A ex-aluna Alessandra Ribeiro, que abordou a maternidade e a carreira científica em sua dissertação, conta que todo o seu processo no mestrado foi muito curioso, e seu filho de oito anos teve uma percepção essencial.

Um dia, ele perguntou pra mim: mamãe, então você é cientista? Antes mesmo que eu me desse conta disso, meu filho entendeu que o meu trabalho como pesquisadora, fazia de mim também uma cientista, confidencia Alessandra Ribeiro

Ela igualmente comenta que aproximadamente metade das pessoas que fazem ciência nos dias de hoje no Brasil são mulheres. Alessandra considera imprescindível as mulheres serem vistas como cientistas, no imaginário das crianças, pois, por muito tempo, tal associação esteve conectada exclusivamente ao universo masculino.

Segundo um relatório da editora científica Elsevier, denominado A Jornada do Pesquisador pela Lente de Gênero – disponível em podcast, Alessandra está mesmo correta. Cerca de 44,25% dos pesquisadores no Brasil, em 2020, são mulheres. O levantamento aponta, ademais, que há uma proporção de 0,79 mulher para cada homem que publica um artigo no país. 

Por fim, Carlos D’Andréa, professor de Textualidades Midiáticas do PPGCOM, dá uma dica crucial para quem, futuramente, pensa em ingressar numa pós-graduação, mestrado ou doutorado na área de comunicação: não idealizar uma pós-graduação e estar aberto a crescer e descobrir um novo processo de aprendizagem. Para ele, quem assume muitas expectativas pode acabar tendo mais dificuldades de adaptação.

Faça e tente fazer. Façam menos com ambição de querer resolver em dois anos [em caso de mestrado] as suas angústias profissionais, os seus desejos intelectuais e façam isso aproveitando um momento bastante intenso de trocas com colegas, com professores, com outras universidades e com uma certa leveza, na medida do possível, pois eu acho que isso ajuda muito a gente a fazer boas pesquisas e a se manter feliz naquele ambiente, orienta Carlos D’Andréa

O caminho além da graduação pode levar a várias oportunidades diferentes, tanto no mercado de trabalho, quanto no âmbito acadêmico. É preciso estar disposto, primeiramente, a ser feliz. Conciliar devidamente as responsabilidades e deixar a mente sempre aberta às novas possibilidades, talvez pareçam diretrizes clichês, mas, em longo prazo, podem ser muito recompensadoras pessoal e profissionalmente.

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GLOSSÁRIO

DISSERTAÇÃO

Produção textual, em nível de mestrado, a fim de comprovar uma pesquisa sobre um tema relacionado a uma linha específica de abordagem.

GRUPO DE PESQUISA

Conjunto de indivíduos que se organizam para debater, estudar e pesquisar um tema acadêmico comum.

TESE

Grande monografia para obtenção do título de doutor e que deve conter uma perspectiva original no tema escolhido.

 

JORNALISMO AUTOMATIZADO

Área do Jornalismo que estuda a participação de robôs e outras tecnologias, como a Internet das Coisas, dentro da profissão.

Parceria UniBH

Estudantes de jornalismo do Centro Universitário de Belo Horizonte, sob supervisão de jornalista do projeto Minas Faz Ciência.

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