Brigas das boas: as controvérsias saudáveis da ciência

Elas fazem bem à democracia – ainda que, em tempos de desinformação, não pareça

Foto: Taton Moïse/ Unsplash

Yurij Castelfranchi

Físico, jornalista científico e professor de sociologia da ciência. Coordena o Amerek, curso de especialização em comunicação pública da ciência da UFMG.

“Foi um choque para Bohr… Ele pulava de um cientista para outro, agitado, tentando convencê-los de que, se Einstein estivesse certo, seria o fim da física… Imponente, com um sorrizinho irônico, Einstein andava enquanto Bohr trotava a seu lado, terrivelmente excitado…”

Relatada pelo físico belga Léon Rosenfeld, a cena retrata um dos maiores duelos científicos do século 20. Albert Einstein e o dinamarquês Niels Bohr, seu amigo e também prêmio Nobel, se digladiavam. Controvérsias fazem bem — à ciência e à democracia. Não parece porque vivemos tempos de desinformação, em que brutamontes ideológicos resolvem embates no grito ou na calúnia, semeando controvérsias falsas e tóxicas. Ficou difícil perceber que as controvérsias científicas reais (quando interpretações, teorias e modelos entram em conflito com base em evidências) são importantes e saudáveis. E as incertezas, preciosas.

Inovações vêm de conexões inesperadas, inversões de perspectiva, coincidências: serendipidade. Dúvidas, erros e, sim, brigas honestas, podem ser ótimas Nos Congressos Solvay, o festival de Cannes da física, quando Einstein atacava a interpretação da mecânica quântica (que ele contribuíra para criar), a ciência ganhava gedankenexperimenten — “experimentos mentais” que não podem, ou não precisam, ser realizados, mas que pela simples possibilidade lógica de fazê-los ajudam a refutar ou corroborar teorias. “Ele [o Senhor, a racionalidade por trás da natureza] não joga dados”, dizia Einstein, convencido da existência de algo que explique as limitações humanas em descrever o comportamento quântico, no lugar de uma intrínseca aleatoriedade, uma indeterminação do existir. Bohr admitia que “se a teoria quântica não te chocou, então você não a entendeu”. Mas os físicos devem aceitar a natureza como ela é: “Einstein, não diga a Deus o que Ele deve fazer”, teria respondido o ateu Bohr (ou Enrico Fermi, segundo alguns). Para muitos, Einstein perdeu a batalha. Mas restam abertas questões apontadas por ele, e a interpretação de Bohr, o “vencedor”, está longe de ser a única.

Quando Pasteur, químico afeito a se meter em briga de biólogo, resolveu derrotar a teoria de que micróbios podem nascer de ar, água, luz e nutrientes, os franceses ganharam um campeonato científico. E nós, cientistas, ganhamos um exemplo de “subdeterminação”: evidências são indispensáveis, mas podem ser insuficientes para determinar a melhor teoria. Um conjunto de dados, um experimento, ainda que brilhante, nem sempre encerra uma controvérsia, já que as interpretações podem ser muitas. Para dirimir a briga, os cientistas precisam convocar um coletivo de árbitros, humanos e também não humanos: gente, cultura, números, moléculas, micróbios, raios de luz, galáxias.

A incerteza é inquilina da ciência. A certeza, musa do autoritarismo, está em casa na terra do dogma. Nos territórios da ciência, ela é visita, às vezes ilustre, mas constrangedora para os cientistas, céticos por treinamento e dever profissional. Dúvida, hipótese, disputa não são sintomas de ignorância, mas ferramenta e método. Briguemos, então, por um ecossistema diverso de ideias e evidências, recursos para a inovação e a vida democrática.

A ciência não é uma máquina de fornecer respostas, mas um belíssimo jogo. Um jogo de inventar boas perguntas e boas brigas. E, com elas, opções e futuros possíveis.

Artigo de opinião originalmente publicado no Folha de São Paulo

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