Na telona e além

Em livro de resenhas, crítico Sérgio Augusto discute questões fundamentais à compreensão do cinema como ambiente de fruição estética e debate social

Ciência na Estante

Mirram as luzes, abre-se a tela, começa a viagem… pelo universo da fantasia, da política, das relações sociais, das vicissitudes humanas. Para muito além de entretenimento e prazer, a sétima arte se revela “território” propício ao conflito, ao encontro, aos saberes.

Um dos mais importantes nomes da crítica cinematográfica no Brasil, o crítico Sérgio Augusto disseca, de modo ímpar, no livro Vai começar a sessão, a inata complexidade dos filmes – e, claro, dos projetos e movimentos estéticos atrelados a tais obras.

Também repórter, redator, editor e escritor, Augusto atuou nas mais relevantes publicações do país – Jornal do Brasil, O Pasquim, Folha de S.Paulo, O Cruzeiro; Veja –, nas quais imprimiu ideias e estilos inconfundíveis.

Nesta importante coletânea de textos, estão análises elaboradas em inúmeros períodos, e acerca de vasta diversidade de obras – de blockbusters a ícones do cinema de vanguarda, no Brasil e em outros países.

Nas 89 reflexões presentes no livro, a ironia e a erudição de Sérgio Augusto ficam a cargo de temas como “Sexo, mentiras e celuloide”, “Um apocalipse como Zaratustra teria filmado”, “O outro cidadão Kane” e “As vidas paralelas de Chaplin e Hitler”.

Há espaço, ainda, para “O Evangelho segundo Hollywood”, “Os libertinos de Bullywood”, “Hitchcock e as mulheres que sofriam demais”, “Os dois Lima Barreto”, “E o Rio virou Cannes” e “Simplesmente Callado”.   

Trecho

“Em qualquer roda de cinéfilos, as opiniões de Mark Cousins sobre o cinema americano provocariam polêmicas no mínimo incandescentes. Para ele, a direita tomou conta de Hollywood e até filmes reputadamente progressistas de Francis Coppola, David Lynch e Marin Scorsese, entre outros, seriam conservadores, se não reacionários – ‘ainda que brilhantes e arrebatadores’, ressalva. Diretor e apresentador de dois programas de cinema na TV britânica (Scene by Scene e a série Moviedrome, ambos na BBC2), Cousins escreveu para o número de abril da revista Prospect um artigo cujo título é um primor de ambiguidade: ‘Hollywood is right’. Tanto podemos traduzi-lo como ‘Hollywood é de direita’ como ‘Hollywood está certa’. Certas evidências parecem desmentir a primeira assunção. Tom Hanks, Steven Spielberg, Robert de Niro, Barbra Streisand, Jane Fonda e outras celebridades de ponta do cinema americano não só votam com os democratas como eram habitués Casa Branca no governo Bill Clinton. No mínimo, portanto, liberais. Em Hollywood, os republicanos não têm vez. Talvez coubessem num elevador todas as estrelas presentes à posse de George W. Bush. O êxito de filmes liberais e politicamente corretos como Erin Brockovich e Traffic, para ficarmos no último Oscar, também desmentiria a tese de Cousins. Ele sabe disso, mas mantém sua opinião: Hollywood é de direita.”

O livro

Livro: Vai começar a sessão – Ensaios sobre o cinema
Autor: Sérgio Augusto
Editora: Objetiva
Páginas: 439
Ano: 2019

Foto: Maurício Guilherme Silva Jr.

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