Museu de História Natural da UFMG abriga importantes centros de pesquisa

Ceplamt é o único do país a reunir pesquisas sobre plantas nativas brasileiras. Conheça o espaço e sua história.

Por Alex Wander, André Zorzin, Déborah Lima, Maurício Flávio, Paulo Lopes, Raiane Santos e Raphael Domingues**

O Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG (MHNJB/UFMG), no bairro Santa Inês, região Leste de Belo Horizonte, que abriga valor científico e histórico para a humanidade, foi atingido por um incêndio em 15 de junho.

O fogo destruiu a chamada Reserva Técnica 1, onde havia uma parte do acervo fóssil que pertencia à sala de arqueologia.

Felizmente,  600.000 m² do museu, que abrigam significativo acervo de paleontologia, geologia, botânica, zoologia, cartografia histórica, etnografia e arte popular, além de documentação bibliográfica e arquivística, ficou longe das chamas. Salvou-se também um dos mais importantes centro de pesquisa de plantas brasileiras.

Desapercebido aos olhos do público, o Centro Especializado em Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas (Ceplamt) é o único em todo o Brasil que realiza pesquisas sobre o tema.

Sendo assim, registra estudos de mais de 3200 plantas nativas do Brasil. Além de pesquisar, recuperar informações, imagens e amostras de plantas úteis nativas do país, o projeto disponibiliza informações relevantes para a população.

Todo trabalho do Ceplamt é coordenado pela pesquisadora e professora aposentada da UFMG, Maria das Graças Lins Brandão.

“Nosso objetivo principal é recuperar informações, imagens e amostras de plantas úteis nativas do Brasil, em bibliografia e documentos históricos, e disponibilizá-las, de forma organizada, para a população. Temos inúmeros estudos que ganharam projeções internacionais. Somos referência de pesquisa de plantas no mundo. Além de um banco de dados público na internet, o Dataplant, e das pesquisas, realizamos projetos de educação em escolas mineiras”, explica.

A riqueza da flora brasileira

De acordo com Maria das Graças, estudos de ecólogos americanos revelam que 10% de toda biodiversidade vegetal do mundo tem uso útil. Sendo assim, o Brasil apresenta mais de 4500 espécies de plantas utilizáveis, uma vez que, de acordo com dados do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o país ultrapassa 45 mil espécies da flora nativa catalogadas.

“Contudo, quando você pergunta para os brasileiros quantas plantas nativas eles conhecem, não sabem nem cinco ou seis. Talvez o guaraná e açaí. Diante desse cenário é que começamos a catalogar as espécies e disponibilizar no site. Tudo o que foi escrito desde a chegada dos portugueses no Brasil está sendo analisado e coletado. Já temos informações de 3200 espécies disponíveis para acesso e ainda temos muitas a serem disponibilizadas”, salienta a pesquisadora.

Trata-se de um importante trabalho de pesquisa em livros, manuscrito, somado à experiência de mais de 10 anos levando informação à população e preservando a história da biodiversidade vegetal do país.

Os estudos são realizados por um grupo de pesquisadores de diferentes áreas e instituições e por estudantes de graduação e pós-graduação. A estrutura física é composta por três prédios que inclui escritórios, horta, acervo e laboratórios de experimentação. Já a mão de obra é escassa. Segundo a pesquisadora, é preciso mais pessoas e também maior valorização da pesquisa no país.

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Trabalho educativo

Na esperança de melhoria do cenário de preservação e estudos, os pesquisadores buscam maneiras de divulgar suas pesquisas.

Um dos braços importantes da iniciativa de preservação é o trabalho desenvolvido junto aos alunos de escolas mineiras. Com financiamento da FAPEMIG, o Ceplant, atualmente, leva informação lúdica e criativa para estudantes da Bacia do Rio Pandeiros, no Norte de Minas.

São crianças e professores das cidades de Januária, Bonito de Minas e Córrego Marinho, que passaram a conhecer os benefícios das plantas nativas, com ajuda de um mini laboratório desenvolvida pela equipe de extensionistas. Além disso, o projeto criou uma websérie com informações importantes e conhecimento.

 

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Vale lembrar que o Centro de Pesquisa é aberto a visitações gratuitas e fornece dados para pesquisadores e estudantes do todo o mundo. Por lá, é possível encontrar uma coleção viva de plantas medicinais e de drogas vegetais padronizadas, sendo algumas delas já desidratadas para uso em estudos científicos.

São mais de 1000 amostras com espécies do Brasil e de outros países, o que levou a instituição a solicitar reconhecimento como fiel depositário ao Ministério do Meio Ambiente, autorização vigente deste 2003. Trabalho que, além de disponibilizar informações estratégicas sobre as plantas, busca até mesmo facilitar o consumo pela população, constituindo-se como  forma de resgatar o uso das plantas medicinais e reduzir o consumo de medicamentos industrializados.

 

Berço de biodiversidade da flora

 

Além do Centro Especializado em Plantas Aromáticas, Medicinais e Tóxicas, o MHNJB/UFMG é um importante colaborador para conservação da flora de Minas Gerais, e também um espaço de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Minas Gerais.

Sendo assim, mantém uma vegetação diversificada e típica da Mata Atlântica, que reúne, além das nativas, espécies exóticas na ampla área de aproximadamente 600.000 m². Trata-se da quarta maior área verde de Belo Horizonte. 

O acervo conta com mais de 265 mil itens, entre peças e espécimes científicos preservados e vivos (coleção científica de plantas e reserva vegetal).

Só na biblioteca do espaço, que é aberta ao público, são 3.750 livros e 19.134  periódicos nacionais e estrangeiros. Além disso, há também um auditório, viveiro de mudas, lagoa, um anfiteatro ecológico e um jardim sensorial com 1.500 espécies de plantas vivas. Material fruto de pesquisas e doações de anos.

Na linha de estudo da botânica, o museu tem ainda o Centro Especializado em Botânica e Biodiversidade, que contempla o desenvolvimento de pesquisas relacionadas com o patrimônio natural do MHNJB.  Trabalha também para a conservação da diversidade vegetal, atualmente com ênfase no conhecimento da vegetação e das abelhas solitárias.

Simultaneamente, o espaço promove ações educativas, no local, a fim de sensibilizar os visitantes para a importância da conservação da biodiversidade vegetal. Uma dessas atividades são trilhas em grupos promovidas regularmente, que estimulam o contato com a natureza. Diretrizes seguidas pelo museu desde sua fundação.

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Museu de História Natural: antecedentes e origem

O espaço foi criado em 1968, após o Decreto nº 62317, do então Presidente Arthur da Costa e Silva, que determinou uma reformulação da estrutura das universidades brasileiras. Anteriormente, ali funcionava o Instituto Agronômico, fundado em 1953.

Mas a história revela que terreno onde está localizado o museu, anteriormente, era uma fazenda desapropriada no início do Século XX.

Posteriormente, o governo instalou um Horto Florestal que, em 1912, foi transformado em Estação Experimental de Agricultura, por ser um território rico em material arqueológico. Só em 1953, a Estação Experimental deu lugar ao Instituto Agronômico.

Desde a década de 1970, o museu passou por grandes transformações, como a criação do Jardim Botânico, em 1973. Logo depois, uma aquisição feita por meio de um Convênio de Comodato firmado entre a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e a UFMG, anexou ao terreno mais 150.000 metros quadrados de mata nativa. Em 1979 toda a área foi doada à UFMG.

Porém, mesmo com tanta história, o reconhecimento e o registro da instituição como Jardim Botânico só foram concedidos ao Museu de História Natural e Jardim Botânico/UFMG pelo Ministério do Meio Ambiente em março de 2010.

Isso se deu após a elaboração e implantação do seu Plano de Ação, de acordo com as exigências da legislação vigente (Resolução CONAMA nº 339 de 25/09/03). Por fim, para implantação das ações que possibilitaram o registro da instituição, foi fundamental a ampliação e qualificação do seu corpo técnico que atualmente conta com biólogos, técnico em agropecuária e engenheiro florestal, além da equipe de jardineiros e auxiliares.

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Saiba mais sobre o MHNJB

**Esta reportagem foi produzida por alunos do oitavo período do Centro Universitário de Belo Horizonte, em parceria com o projeto Minas Faz Ciência. Orientação: Lorena Tárcia.

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