Cientistas tentam resolver conflito entre moradores de vilarejo e ursos-de-óculos no Peru

O gado da comunidade San Pedro de Churco vem sendo abatido por ursos-de-óculos. Pesquisadores estão estudando a área e comportamento dos animais

Cientistas do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da Universidade Federal de Lavras (PPG-ECO/UFLA), em parceira com pesquisadores da Universidade Nacional do Centro do Peru (UNCP), foram convocados para uma missão desafiadora, inédita e de grande impacto ecológico-social.  Eles estudam o conflito entre ursos-andinos, também conhecidos como ursos-de-óculos, e a população do pequeno vilarejo San Pedro de Churco, localizado no entorno da unidade de conservação do Santuário Nacional Pampa Hermosa, no Peru.

A comunidade, de cerca de 20 famílias, vem perdendo o gado, uma importante fonte de subsistência. Os animais são abatidos por ursos que vivem na mata do Santuário, o que deixa a população inconformada. Os ataques ocorrem há cerca de 10 anos, mas se intensificaram desde 2016. Os moradores acionaram o Serviço Nacional Florestal e de Fauna Silvestre (SERFOR) e a ajuda chegará por meio da ciência.

A relação entre homem e natureza, chamada na comunidade cientifica de “dimensões humanas” acaba se traduzindo em conflitos como este do vilarejo. A busca por soluções envolve discussões de cunho social e ecológico, considerando que o urso-de-óculos é espécie ameaçada de extinção. “Esse tipo de conflito ocorre ao longo de toda Cordilheira dos Andes. É como acontece com as onças no Pantanal brasileiro. Por aqui, também há relatos de perda do gado”, relata Mateus Melo Dias, pesquisador envolvido nos trabalhos.

Segundo ele, a população de San Pedro de Churco perdeu mais de 100 cabeças de gado nos últimos quatro anos. Ele explica que os ursos são onívoros, comem tanto carne quanto vegetais. Sendo assim, atacam não somente o gado dos moradores, mas também as plantações de milho e batata.

Vilarejo San Pedro de Churco/Arquivo dos pesquisadores

Habitat de ursos e lar dos peruanos

A comunidade leva uma vida simples, em que a criação de animais e agricultura garantem sobrevivência. “Vivem em situação de extrema pobreza, não chegam a ter insegurança alimentar, mas são condições precárias, sem saneamento ou tubulação de água. O local é bastante isolado. Além disso, há um contexto de êxodo rural porque os jovens não querem viver no vilarejo, ficando somente idosos. Quanto menos gente, mais os ursos vão se aproximando e ganhando espaço”, afirma Mateus Melo Dias.

O urso-de-óculos é animal protegido por lei no Peru. Leva este nome popular por causa da mancha ao redor dos olhos. É a única espécie de urso da América do Sul e presta grande serviço ambiental, pois consome muitos frutos e sementes ajudando a plantar mais árvores pelas matas. A espécie só vive na Cordilheira dos Andes tropicais, entre o Sul da Bolívia e Norte da Venezuela. “São muito importantes para nós porque fazem a conservação de áreas onde nascem vários rios da Amazônia”, conta o pesquisador.

A comunidade San Pedro de Churco está numa área conhecida como páramos, ambiente de campo mais aberto sem muitas árvores, que é comum nos Andes. Os ursos-de-óculos estão bem perto dali no perímetro de bosques nebulosos, a parte de mais altitude onde começa a mata. “Os animais dependem muito dos bosques andinos para viver, mas também vão aos páramos em busca de recursos alimentares, principalmente atrás de bromélias que eles comem bastante”, detalha Mateus Melo Dias. Nessa viagem, segundo o pesquisador, os ursos acabam encontrando vacas criadas pela comunidade. “Os ursos pegam o gado e puxam para o bosque”, explica.

Uma situação cultural acaba propiciando o encontro entre ursos e gado. As vacas são criadas de um jeito tradicional andino. Elas ficam soltas, sem curral como é feito em criações brasileiras, por exemplo. Há moradores que ficam semanas sem ver o gado de sua propriedade porque as vacas são selvagens. A comunidade não planta o pasto dos animais, deixando-os soltos em áreas muito amplas. Portanto, a situação fica favorável para a ação dos ursos.

Registros com câmeras-trap 

A equipe instalou 16  câmeras-trap, equipamentos que funcionam como uma espécie de armadilha para fotografar animais selvagens remotamente, sem a presença do pesquisador. Deixaram os aparelhos em março de 2019 e resgataram para avaliar os primeiros registros em outubro do mesmo ano.

Foram feitos alguns registros importantes, que os cientistas acreditam ser de quatro indivíduos diferentes. Primeiro, registraram uma fêmea sozinha. Depois uma fêmea com dois filhotes. Na primeira foto, não foi possível ver o rosto da ursa, que seria a chance de identificá-la.

“As marcas faciais funcionam como impressões digitais para os ursos-de-óculos. Cada indivíduo tem suas próprias marcas”, explica Mateus Melo Dias. No caso da pequena família que surgiu nos registros, foi possível ver os rostos e, se aparecerem novamente, já serão identificados.

Os cientistas estimam que existam cerca de 8 ursos no entorno do vilarejo. No entanto, somente os machos atacam o gado. “As fêmeas não têm tamanho suficiente para derrubar uma vaca. Elas aproveitam a carcaça para se alimentar, pois quase todo urso é detritívoro”.

Uma nova coleta de dados das câmeras seria feita em maio deste ano, mas devido à pandemia do coronavírus a presença dos cientistas brasileiros ficou comprometida. Pesquisadores locais vão retirar os equipamento e enviar os dados para a UFLA. São mais sete meses de informações valiosas para ajudar a encontrar soluções para o conflito. “A esperança é que tenhamos conseguido registar imagens de machos”, afirma o Mateus Melo Dias.

Os moradores pensavam que os ursos estavam mais afastados, no entanto, câmeras-trap instaladas a 1,5 quilômetros do centro da comunidade registraram as fotos. O pesquisador afirma que não há risco para as pessoas porque o urso-de-óculos não é tão grande quando comparado a outros – pardo ou polar -, além de ser medroso. Nunca houve casos de morte de humanos por ursos-de-óculos.

Câmera-trap/Arquivo dos pesquisadores

Biodiversidade

Além de ajuda a solucionar o conflito, esta pesquisa vai mapear a biodiversidade do Santuário. Segundo o pesquisador, o Peru desconhece as especificidades do ecossistema desta região. “Estamos aproveitando e levantando todos os mamíferos de médio e grande porte que vivem lá, pois ninguém havia feito esse registro por ser uma área remota. Apesar disso, é uma região de grande interesse ecológico, um hotspot de biodiversidade e extremamente importante por estar vinculada a Amazônia”.

Até o momento, foi registrada a presença de 10 espécies de mamíferos de médio e grande porte na região: puma (Puma concolor), jaguatirica (Leopardus pardalis), gato-montês (Leopardus colocolo), irara (Eira barbara), urso-andino (Tremarctos ornartus), furão (Mustela frenata), veado-chuñi (Mazama chunyi), raposa- andina (Lycalopex culpaeus), jaritataca (Conepatus chinga) e veado-de-rabo-branco (Odocoileus virginianus). Apenas puma foi registrada pelas fezes encontradas em campo; as demais foram registradas pelas câmeras-trap. A espécie que obteve mais registros fotográficos foi o veado-de-rabo-branco (68%), seguida da jaritataca (14%).

Veado-de-rabo-branco. Arquivo dos pesquisadores

Raposa-andina. Foto: Arquivo dos pesquisadores
Gato-montês. Foto: Arquivo dos pesquisadores

Possíveis soluções

Apesar de a pesquisa não estar encerrada, os cientistas já pensam em algumas proposições para resolver o conflito comunidade x ursos. Há experiências que podem se aproveitadas em casos parecidos de outros países, como Colômbia. Os pesquisadores pretendem apresentar propostas de solução ao serviço florestal juntamente com a comunidade San Pedro de Churco.

A primeira proposta deve ser a mudança no modo de criação do gado. “Eles não veem sentido em prender os animais. Não conseguem nem ordenhar a vaca porque elas são asselvajadas”, explica Mateus de Melo Dias.

Ele acha que será uma mudança lenta e difícil, assim como a conscientização da população sobre a importância dos ursos para o ecossistema. “Talvez a população mais jovem se ligue mais na conservação do urso. Esse espaço nativo só existe porque o urso dissemina plantas”. Os pesquisadores também poderão propor a inserção de colares nos ursos que ajudem na geolocalização e informação exata de quando chegam muito perto da comunidade.

Bastidores

Como pesquisadores de Lavras foram parar no Peru?

Uma moradora do vilarejo de San Pedro de Churco é irmã de um professor da UNCP, que levou o problema ao conhecimento da comunidade científica. O ex-doutorando da UFLA, Marco Aurelio Arizapanaque, que é pesquisador associado na UNCP, foi acionado para fazer a pesquisa de base científica e saber quantos ursos existem na área de conflito. Ele, então, convidou o coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação de Mamíferos da UFLA (Lecom/UFLA), Marcelo Passamani, para ajudar nos trabalhos. Mateus de Melo Dias foi envolvido na pesquisa porque já trabalhava no laboratório e o estudo se tornou objeto de sua dissertação de mestrado. O projeto é financiado com verba de edital por compensação de danos de mineração no Peru.

Detalhes do trabalho de campo em San Pedro de Churco

Os pesquisadores brasileiros enfrentaram um trabalho de campo único e desafiador. Voaram do Brasil para Lima, capital do Peru. De lá seguiram de carro por 8 horas até a cidade de Huancayo. Dali, foram mais 5 horas de viagem até uma estrada de chão pela qual caminharam por cerca de 3 horas para chegar ao vilarejo. Se hospedaram na casa de uma moradora, único local da comunidade em que há eletricidade gerada por energia solar. Por lá, permaneceram por 10 dias. Além de isolado,  o vilarejo tem clima bastante frio.

(Com informações da Assessoria de Imprensa da UFLA)

Luana Cruz

Mãe de gêmeos, doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Jornalista graduada pela PUC Minas. É professora em cursos de graduação e pós-graduação na Newton Paiva, PUC Minas, UniBH e ESP-MG. Escreve para os sites Minas Faz Ciência e gerencia conteúdo nas redes sociais, além de colaborar com a revista Minas Faz Ciência.

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