Yaravirus: descoberta e boatos

Descoberta virológica com importância evolutiva não oferece riscos para o ser humano

A descoberta de um novo vírus na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, chamou atenção da mídia e da população. Isso porque o chamado Yaravirus é diferente de todos aqueles já conhecidos pela ciência.

Os responsáveis pela descoberta foram pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com pesquisadores da Aix-Marseille Université, em Marselha, na França.

O microrganismo foi encontrado a partir do estudo de uma amostra da água da lagoa. A coleta foi feita em 2017 e os resultados do estudo foram divulgados no portal de ciências “bioRxiv“.

Processo lento

Segundo Rodrigo Araújo Lima Rodrigues, pesquisador do ICB e integrante do laboratório onde as pesquisas com o Yaravirus foram realizadas, a descoberta do vírus surpreendeu, inclusive, os próprios cientistas.

“No Laboratório de Vírus estudamos os vírus gigantes (com mais de 200 nanômetros e com um genoma extenso). Por isso, normalmente, pegamos as amostras coletadas e as colocamos em cima de uma cultura de amebas, esperando observar os vírus gigantes. Mas com o Yaravirus isso não aconteceu. Ao analisar a amostra no microscópio eletrônico, observou-se uma partícula muito pequena. Era esperado um vírus de 800 nanômetros, mas encontrou-se um de 80 nanômetros“, conta o pesquisador.

Em seguida, foram realizados testes para entender o processo de replicação do vírus. Assim, observou-se que tal processo de multiplicação era algo bastante lento. “Logo quando a descoberta do vírus foi divulgada, vi um comentário nas redes sociais dizendo que os pesquisadores estavam ‘escondendo informações’, já que a coleta foi realizada em 2017, e os resultados divulgados somente em 2020. Mas trata-se de um processo que demanda muito tempo. Havia uma dificuldade grande em produzir uma quantidade significativa desse vírus para poder sequenciar o genoma, pois ele replica de uma forma muito lenta”, comenta Rodrigues.

Boatos e desinformação

A notícia da descoberta do novo vírus foi comentada pelos internautas nas redes sociais. Na ocasião, muito fizeram alarde em torno do Yaravirus. Alguns chegaram a comparar o vírus com o Coronavirus, insinuando que Belo Horizonte seria palco do início de uma epidemia. Entretanto, o que se sabe é que o Yaravírus não infecta humanos, e tem as amebas como hospedeiros.

“Estamos vendo a repercussão que a descoberta gerou nas redes sociais. Mas ficamos assustados com o tanto de coisas que as pessoas estão falando e que não têm o menor sentido. Tudo começa do pressuposto de que todo vírus é patogênico. Então, quando é publicada uma notícia de que foi descoberto um novo vírus, todo mundo pensa catástrofe. Mas a grande maioria dos vírus que estão na natureza não infectam seres humanos. Existe, sim, uma tendência da ciência em investigar apenas os vírus que causam doenças, mas a maioria esmagadora deles não causam nada. Na verdade, os vírus têm mais aplicações e possibilidades de estudo que a parte das doenças”, comenta o pesquisador.

 Yaravirus e a divulgação científica

Outros comentários feitos diante da descoberta do Yaravirus apontaram para o desconhecimento da população a respeito do que é de fato um vírus. Rodrigo Rodrigues explica que já se deparou com pessoas que diziam que a ciência produz tais vírus em laboratório propositalmente para infectar as pessoas. Segundo o pesquisador, a consolidação deste tipo de pensamento em parte da população é resultado de uma fragilidade dos próprios cientistas.

“Temos que fazer uma autocrítica e enxergarmos que o desconhecimento é, também, um problema nosso, de dentro da universidade. Os pesquisadores não conseguem passar esse tipo de informação de forma clara para a população. Entretanto, acho que isso tá mudando. Eu creio que está ficando cada vez mais clara a necessidade de informar à população sobre a importância da ciência. Caso ao contrário, gera-se o pânico”, finaliza.

 

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