A antropóloga e historiadora Jane Beltrão. Foto: acervo pessoal

“Na Amazônia, a gente tem que falar alto, porque os sussurros são muitos”. Para a historiadora e antropóloga Jane Beltrão, professora titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolver as ciências na região amazônica é uma questão de cidadania. Ela fala com a autoridade de quem ajudou a criar as políticas afirmativas na instituição. É formadora de povos indígenas e quilombolas, além de pesquisadora das questões de gênero. Por indicação do público, está entre as personagens do segundo volume do e-book Mulher faz Ciência, que será lançado em fevereiro de 2020.

No início de sua trajetória acadêmica, em 1979, Jane Beltrão defendeu sua dissertação de mestrado, na Universidade de Brasília (UnB), sobre o trabalho de mulheres nas fábricas de castanha, em Belém. Ao longo das décadas seguintes, a causa indigenista ganhou mais força em seu trabalho, mas a questão de gênero continuou latente.

Atualmente, a cientista desenvolve uma pesquisa sobre a violência sofrida por “mulheres étnica e racialmente diferenciadas”. Em especial, indígenas e quilombolas, no período da ditadura. O trabalho se baseia no chamado Relatório Figueiredo. O documento ficou desaparecido por mais de 40 anos e foi resgatado durante as investigações da Comissão Nacional da Verdade. A análise abrange, ainda, arquivos disponíveis do acervo digital do site Armazém Memória.

“Eu estou mapeando, nesse momento, as aldeias, tentando ver os documentos referentes ao Serviço de Proteção aos Índios, relativos às aldeias onde há denúncias”, revela. Mas isso só será possível caso as vítimas ainda estejam vivas. Sobretudo, dispostas a falar sobre abusos cometidos por funcionários do próprio órgão, já extinto. “Crimes de violência e de abuso sexual contra essas mulheres sempre são alvos de muita vergonha”, pondera.

Por uma outra epistemologia

A “antropóloga-historiadora”, como ela mesma se define, nomeia sua metodologia de pesquisa como “etnografia do papel”. Isto é, passível de ser realizada à distância, não necessariamente em campo, como no método tradicional. Jane Beltrão propõe, também, uma epistemologia alternativa.

É importante que a pesquisa não seja apenas do ponto de vista do pesquisador. Mas do ponto de vista, como chamam os antropólogos, dos nativos, ou seja, dos nossos interlocutores, dos protagonistas das narrativas.

A intenção é demonstrar que, para essas pessoas, existe uma teoria diferente daquela que serve de referencial para os pesquisadores. E, assim, criar equivalentes para categorias analíticas, a exemplo da violência. “Na teoria dessas mulheres, elas pensam sempre em algo que chama-se, em algumas partes da Amazônia, de malvadeza. Às vezes, de malineza. Então, a gente vai mostrando os correspondentes. Para que elas possam, de alguma maneira, contar suas histórias do ponto de vista da articulação epistemológica que elas fazem”, explica.

Assim, a formação acadêmica de indígenas e outros povos marginalizados é, também, uma forma de estimular o protagonismo desses sujeitos. “A ideia é que eles possam ser intelectuais indígenas que contem a sua própria história”, afirma a professora.

Mulher faz ciência

A publicação tem o objetivo de dar visibilidade a pesquisadoras que se destacam em suas área e, assim, incentivar o ingresso de jovens mulheres na carreira científica. Aproveite para conhecer, também, outras personagens que estarão no novo volume.

Alessandra Ribeiro

Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH (2004). Especialista em Imagens e Culturas Midiáticas (2008) e mestra em Comunicação Social (2020) pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG . É jornalista do projeto Minas Faz Ciência desde 2015 e autora do e-book Mulher faz Ciência.

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