Proteínas para regenerar feridas

Ai, cortei o dedo!”

Imagem meramente ilustrativa © Image Source/Corbis
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Quem nunca sofreu com o descuido na hora de usar uma faca ou tesoura e acabou se machucando?

Um corte na pele, por menor que seja, sempre vem acompanhado daquela dorzinha aguda e, dependendo do caso, pode demorar a fechar, trazendo ainda mais dor e inflamação.

Os problemas de cicatrização de feridas afetam humanos e animais. Na prática clínica, não há procedimentos claramente efetivos para acelerar ou melhorar a cicatrização de feridas. Novos conhecimentos sobre a cicatrização são, portanto, de enorme valor, tanto para a medicina humana, quanto veterinária.

Foi em busca de contribuições para a área que uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenada pela professora Cláudia Rocha Carvalho e com financiamento da FAPEMIG, estudou como a atividade imunológica pode alterar o fechamento de feridas e a regeneração da pele.

O projeto avaliou se a inflamação e o reparo de feridas em camundongos normais e com diabete induzida poderiam ser alterados pela injeção de proteínas toleradas. A injeção de Zeína, que é uma proteína da ração e tolerada por animais, modificou a inflamação durante o reparo de feridas na pele, acelerando o processo de cicatrização. Ou seja: a pesquisa concluiu que uma injeção de proteínas previamente ingeridas leva à inibição da inflamação durante a cicatrização de feridas, o que resulta em cicatrizes menores:

Há muitos anos sabemos que ingerir uma proteína antes de uma imunização bloqueia ou mantém em níveis estáveis a formação de anticorpos para esta proteína. Nesse trabalho, vimos que a tentativa de imunização com uma proteína previamente ingerida pode melhorar a cicatrização de feridas”, explica Cláudia Carvalho.

A pesquisadora explica que há interesse em entender as diferenças entre o que ocorre quando uma ferida cura com regeneração de todos os componentes do órgão, ou quando há cura, mas os componentes originais são substituídos por uma cicatriz. Tanto as feridas crônicas, que não se fecham no tempo esperado, quanto as cicatrizes excessivas, são problemas médicos importantes. Feridas crônicas na pele limitam as atividades do paciente. As cicatrizes não são problemas puramente estéticos, pois a região da cicatriz é mais frágil do que a pele normal e tem sensibilidade alterada.

Por exemplo, um corte na pele de fetos de mamíferos pode fechar sem deixar nenhum sinal da lesão, com regeneração de toda a pele. Por outro lado, cortes na pele de mamíferos adultos normalmente deixam cicatrizes. Além deste interesse biológico, há uma motivação que vem do interesse médico de encontrar soluções para os casos de feridas que não se curam, ou que se curam com cicatrizes excessivas. Estes problemas de fechamento de feridas compartilham mecanismos comuns, que envolvem a participação de componentes do sistema imune“.

Trabalho inédito

A inflamação ocorre após uma lesão mas ainda não se sabe bem como ela interfere na cicatrização. Alguns estudos, de outros pesquisadores, já sugeriam que a inibição da inflamação está relacionada com um melhor processo de reparo e com a regeneração.

Na Imunologia, o termo “tolerância oral” está normalmente relacionado a um estado de inibição da produção de anticorpos frente a tentativas de imunização com proteínas previamente administradas por via oral. “O que o estudo demonstrou é que a injeção de proteínas por uma via parenteral, ou seja, que não seja gastro-intestinal, tem efeitos que inibem a formação de anticorpos e a inflamação para outras proteínas injetadas”.

O nosso trabalho é inédito ao mostrar que a injeção parenteral de uma proteína tolerada antes de uma ferida na pele inibe a inflamação e melhora a cicatrização. Existem alguns resultados sugerindo que a injeção da proteína tolerada logo após a ocorrência da lesão também tem efeito na cicatrização. Somos o único grupo (nacional e internacionalmente) a estudar as relações entre a injeção de antígenos tolerados e a regeneração. A tolerância oral e a regeneração são temas pouco explorados pela maioria dos pesquisadores em imunologia. Ninguém, além de nós, cogitou relacionar os dois temas” – Cláudia Carvalho.

Imagem meramente ilustrativa © Corbis
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Feridas de diabetes

Dando continuidade à pesquisa, experimentos recentes do doutorando Thiago Cantaruti ampliaram as observações para incluir as feridas em camundongos que foram tornados diabéticos por lesões químicas induzidas no pâncreas. Em colaboração com a professora Ana Maria Caetano de Faria, os testes também foram feitos em camundongos de uma linhagem que se torna espontaneamente diabética (linhagem NOD).

O estudo das feridas em animais diabéticos é importante devido ao fato de a doença fazer com que apresentem maior inflamação e dificuldade de cicatrização de feridas. “As feridas crônicas em pacientes diabéticos são um grave problema médico. Nossos resultados experimentais mostram que a injeção de proteínas toleradas melhora a cicatrização também em animais diabéticos”, pontua Cláudia Carvalho.

Para que sejam realizados experimentos em humanos, ainda é preciso realizar testes prévios em outros animais, sendo a pele dos porcos aquela que apresenta mais semelhanças com a pele humana. “Pretendemos estabelecer colaboração para realizar experimentos similares nesses animais”, conclui a pesquisadora.

Verônica Soares

Jornalista de ciências, professora de comunicação, pesquisadora da divulgação científica.

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