Sobre design, arte, ciência e tecnologia

Design é uma palavra que se popularizou nos últimos anos e agora anda na moda aqui no Brasil. Para se vender um produto costumam dizer que ele tem design inovador ou moderno. Os vestibulares para os antigos cursos de desenho industrial viram triplicar a relação de candidatos por vagas. E para completar, algumas profissões (sem nenhuma relação direta com esta área de conhecimento), adotaram o termo quase como um adjetivo e de repente passamos a ver por aí “hair designers” e “designers de sobrancelhas“…

Mas afinal, o que é design? E afinal, qual a sua relação com a arte, a ciência e a tecnologia?

Em primeiro lugar a palavra design não deve ser substituída ou mesmo confundida com a palavra desenho, que tem sua origem no italiano desegno. Apesar de, em italiano, a palavra ter as duas acepções, tanto de desenho como procedimento e ato de produção de uma marca ou signo, quanto de projeto, designo que essa marca projeta, ao ser adotada pela língua portuguesa perdeu-se o segundo sentido. Em outras línguas, a separação entre os termos drawing e design, em inglês e dibujo e diseño, em espanhol, fortaleceu o sentido original do termo desegno, no que se refere ao ato conceitual de projetar e estruturar.

O design deve ser percebido como uma atividade de conceber novos objetos e sistemas e que pode ser determinado como um processo de formulação e justificação de uma proposta capaz de levar à realização de algo que atenda uma determinada necessidade humana. É uma área de conhecimento que arranja, organiza, classifica, planeja e projeta artefatos, mensagens, ambientes ou mesmo espaços para a produção industrial ou artesanal.

Trata-se é uma área de conhecimento extremamente flexível e com uma natureza interdisciplinar, que tem em sua base elementos disponibilizada pelo saber científico, empírico e intuitivo, que em sua prática utiliza conhecimentos de outros campos de saber. Justamente por essa característica multidisciplinar do design, surge invariavelmente a questão sobre em qual esfera inscrevê-lo: no campo das artes, no campo da ciência, ou ainda, no campo tecnológico?

A aproximação e principalmente a existência de intercâmbios construtivos entre design e arte e entre design e ciência não é suficiente para que se classifique o design como pertencente a uma dessas áreas. O design não é, e tampouco será, uma ciência, como também não é, e nunca será, uma arte. O design se aproxima da ciência pelo fato de existirem analogias entre o processo de projeto e o processo de investigação científica, onde a formulação de uma hipótese científica corresponde a um anteprojeto, que seria uma espécie de resposta tentativa. No que diz respeito à arte, não existe uma justificativa pra interpretar o design como uma atividade artística, supostamente intuitiva. O campo de atuação do design está ligado ao campo da estética, mas não obrigatoriamente ao campo da arte.

De um lado, a tentativa de classificar o design como ciência está vinculada ao sistema de produção de massa, como uma ferramenta de tecnologia e mercado. Porém esta é uma classificação que restringe a área de atuação do design e o define apena como uma ferramenta tecnológica que promove a produção e venda de artigos industrializados. Por outro lado, o design tende para a arte e para a poesia. Em nossa sociedade, os objetos de design se tornaram um forte canal de comunicação, através dos quais expressamos valores, status e personalidade. Objetos que não são utilizados apenas para cumprir as funções para os quais foram projetados, mas também adquirem novos empregos, sejam como objetos artísticos, peças decorativas ou mesmo adornos. E é através desses objetos de desejo que a sociedade sacia sua necessidade por arte e poesia. Necessidade que não se satisfaz apenas com as formas estéticas clássicas oferecidas pelos museus e livros.

Assim, podemos definir a prática do design, antes de tudo, como uma atividade de mediação. Uma mediação em diversos níveis: entre um abstrato e o concreto; uma idéia e a forma; entre o produtor e quem consome; entre produtor e produto. Essa natureza mediadora é acima de tudo um processo extremamente versátil.

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